6/5/2018


Ponta de lança

Portugal e Espanha fizeram um acordo para criar condições de teste de veículos autónomos.

O objetivo é transformar a Península Ibérica numa das áreas mais inovadoras para o teste e implementação da automação na mobilidade. O acordo surge no seguimento de uma carta de intenções assinada em Roma por vários países europeus, entre os quais Portugal, para levar a cabo experiências de “grande escala” com veículos autónomos.

O plano ibérico implica a abertura de dois corredores onde os veículos poderão circular a par com veículos com condutor, um entre Porto e Vigo e outro entre Évora e Mérida, que vão funcionar como um centro tecnológico neutral para a indústria, os centros de investigação, a academia e outros agentes que queiram testar e avaliar tecnologias inovadoras de mobilidade.

O plano de trabalhos começa por avaliar as tecnologias existentes e emergentes nesta área, analisar as oportunidades e externalidades positivas do desenvolvimento dos veículos autónomos, promover o seu uso otimizando os impactos na mobilidade, com particular tónica na segurança rodoviária, na gestão eficiente do tráfego, na inovação e nos impactos ambientais positivos; sensibilizar o público para o assunto, promover o conhecimento e a partilha de experiências, estabelecer uma partilha de dados relativos às estradas e ao trânsito e desenvolver políticas e legislação coordenadas na matéria. Depois do trabalho técnico serão dados os primeiros passos no terreno.

Cascais pode dizer que em Portugal é um ponta de lança nesta experiência Ibérica, tal como Viseu. Não deixa de ser interessante que possamos aportar a este projeto Ibérico a experiência de duas cidades geográfica, demográfica e economicamente muito diferentes. Temos trabalhado para colocar Cascais entre as ‘cidades inteligentes’ mais avançadas da Europa. Foi com esse mandato que, só este ano, já estive na CES, a maior feira de tecnologia do mundo, na MIPIM, em Cannes, onde se reuniram os maiores players do setor imobiliário, para falar de urbanismo e desenvolvimento sustentável e que fui a Viena receber, em nome de Cascais, o prémio mundial de inovação digital das Nações Unidas, pela aplicação City Points, criada pela Câmara de Cascais. Foi a primeira vez que uma autarquia recebeu esta distinção. O desenvolvimento e utilização de veículos autónomos, integrado no MobiCascais, é o next step, equiparando o município a uma qualquer grande cidade norte-americana. Defendo que é o cidadão que lidera a transformação, não andamos a fazer apps e inovações tecnológicas só pela tecnologia, fazemo-las porque queremos melhorar a vida dos cidadãos. E, neste processo, juntamo-nos com os melhores no país para desenvolver mais e com mais qualidade. No caso dos veículos autónomos temos um parceiro português da região de Coimbra. O primeiro circuito a ser testado será dentro de um complexo municipal multiserviços, na Adroana, que permite fazer a circulação entre os vários edifícios, como se estivesse a fazer o normal transporte dos funcionários, mas sem utilização das vias públicas.

Depois do último acidente com o autónomo da Uber que atropelou mortalmente o ciclista nos EUA estamos muito mais alerta. Temos consciência que a sociedade hoje é praticamente intolerante a estas falhas. Se o teste dentro das instalações correr bem, até final deste ano o nosso compromisso é ter um troço a unir São João e Carcavelos totalmente feito em autocarro autónomo. Teremos passageiros reais a usufruir deste veículo.

Nesta fase serão envolvidas as entidades oficiais que tutelam esta área, nomeadamente o Instituto da Mobilidade e dos Transportes e a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

Em maio, Cascais vai também proporcionar uma demonstração inédita em Portugal de um veículo autónomo de nível 5 (o mais elevado, em que a autonomia é total e o veículo circula sem condutor), numa organização da World Shopper Conference Iberian 2018.

O veículo usado será um autocarro da empresa francesa Navya, 100% elétrico e capaz de transportar até 15 pessoas (quatro das quais de pé) a uma média de 25 km/h.

A circulação será feita numa rua fechada, junto ao centro de congressos do Estoril, pelo que não é preciso uma licença. A Navya já tem vários veículos em circulação em cidades como Lyon, junto ao rio, ou no aeroporto de Christchurch, na Nova Zelândia.

Soubemos recentemente, através de um estudo da Deco, que o automóvel é o meio de transporte mais utilizado pelos portugueses, que justificam a escolha com as muitas falhas dos transportes públicos, pese todas as políticas para incentivar outros meios de locomoção, os impactos pessoais e ambientais.

85% deles deixariam o carro se a alternativa lhes facilitasse a vida. Os veículos autónomos, com o grau de planeamento que permitem, e a margem de aleatoriedade que cortam, serão uma solução importante para a melhoria da nossa qualidade de vida.

por Miguel Pinto Luz

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