2/12/2018


Autónomos

Acabo de chegar de Las Vegas, onde estive a representar Cascais na CES, a maior feira de tecnologia do mundo. Foi a primeira vez que uma autarquia portuguesa foi convidada pela Consumer Technology Association (CTA) para aqui ser apresentada como ‘case study’ de ‘smart city’. E é isso que queremos, ser conhecidos internacionalmente como uma ‘smart city’ e ser uma “cidade experimental”, coisa que nos tornamos em 2017 ao permitir que as startups do projeto Big Smart Cities testem as suas inovações em Cascais.

Partilhei painel com o vice-presidente da divisão de soluções para cidades da Ford Motor Company, com o responsável de tecnologia da Los Angeles Rams, o clube de futebol americano, com o diretor executivo da AT&T, que é uma das maiores operadoras móveis americana e com um diretor executivo da Deloitte, onde falámos sobre parcerias para construção de cidades inteligentes. Pela minha parte, como decisor político, vejo nas ‘smart cities’ uma maneira de preencher o gap entre os políticos e os cidadãos que governamos. Uma cidade inteligente devolve espaço aos cidadãos. Em duas vertentes: a primeira e mais importante, porque passam a ser cocriadores das cidades que habitam. Nós resolvemos problemas que os cidadãos pedem para resolvermos, eles são os nossos ‘focus groups’; a segunda, devolver espaço literalmente, uma vez que temos a paisagem moldada pelas vias de comunicação e agora olhamos para as estradas e sabemos que elas só são para os transportes, mas as ruas são para as pessoas viverem. As cidades estão a caminhar para um futuro cada vez mais “autónomo”, onde o elemento humano ganha todos os dias relevância. Demo-nos conta, sobretudo por causa do desenvolvimento tecnológico, que há muito mais vida para viver. As soluções requerem estratégia, investigação universitária, encontrar os parceiros certos, a implementação de políticas e o necessário crescimento económico que providencia o investimento. E não estamos a investir em sensores e em IoT – Internet das Coisas –, porque gostamos de ‘gadgets’. Estamos a investir nisto para melhorar a nossa vida.

Em Cascais, isso traduz-se na conetividade onde quer que estejamos; na cidadania digital, o MobiCascais – a plataforma que permite aos cidadãos usarem todo o tipo de serviços de mobilidade, desde bicicletas a táxis e comboio, mediante um preço e a FIX Cascais, uma aplicação para comunicar problemas na via pública, por exemplo; no centro de controlo da cidade C3, que gere as diferentes áreas de intervenção da cidade desde a mobilidade, à segurança, sistemas de emergência, energia, abastecimento de água, lixos, etc., permitindo uma recolha e partilha seguras de dados usados para otimizar a vida na cidade; no desenvolvimento de algoritmos preditivos para antecipar tendências, fruto de uma parceria com a Universidade de Chicago e a Nova Business Schoolof Economics; nos City Points, dar pontos aos cidadãos com comportamentos positivos que podem depois ser descontados em estacionamento, museus e outros serviços; no orçamento participativo, que atraiu 75 mil cidadãos na última versão. Temos impostos elevados, é caro viver em Cascais, por isso temos de dar alguma coisa em troca à sociedade. Estamos a dar qualidade de serviço: boas estradas, áreas verdes, um terço do território é protegido, um sistema de mobilidade único. Tudo isto está a ser financiado em conjunto com o setor privado. Partilhamos o investimento e os riscos. Quer construir um hotel? Coinveste com a câmara na rede de partilha de bicicletas… Democracia 2.0. Este ano vamos criar uma área específica para testar carros autónomos. A tecnologia será testada tanto para carros privados, como para transportes públicos.
Saí de Las Vegas com uma colaboração em carteira com a cidade de Los Angeles e a equipa de futebol americano Los Angeles Rams para partilhar algumas das iniciativas de ‘smart city’ que descrevi acima.

Los Angeles está interessada no MobiCascais e nos City Points. Os LA Rams, com um novo mega estádio que tem duas vezes o tamanho da Disneylândia e é uma pequena cidade dentro da cidade, vêm a Cascais ver in loco como funciona tudo isto. Não sei se vos disse que o maior desafio à construção das cidades inteligentes é a partilha de dados. Ainda no 1.0.Com base neles, pelo mundo inteiro estudar-se-ão soluções que permitirão orquestrar em escala e passar a um novo ciclo. Como alguém disse no painel, a tecnologia permitiu passarmos de reativos a proativos. Um ciclo que durará 10 anos, marcado pela inteligência artificial, a recolha e partilha de dados, machine learning, drones, etc. Com isto tudo nas mãos, em 2025 estaremos a entrar noutro ciclo construído a partir do que retiramos deste. Sempre a responder à mesma pergunta: o que vão querer as novas gerações?

por Miguel Pinto Luz
 

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