11/9/2017


O Futuro do Shipping ou o Shipping no Futuro

Quando pretendemos projetar o que será o futuro do shipping ou o shipping no futuro, é incontornável termos de fazer uma ponte entre o presente e o passado, tornando-se tudo muito mais complicado quando se constata que as previsões realizadas no passado foram todas ultrapassadas no presente, devido à grande velocidade da evolução que ocorreu nesta atividade.

Quem nasceu no final da década em que se iniciou a contentorização das cargas e acompanhou mais tarde a sua evolução, quando os grandes navios de carga geral com mais de quarenta tripulantes foram substituídos por navios porta contentores de menores dimensões, com a mesma capacidade de carga e com 14 tripulantes, fazendo com que as escalas em porto passassem de dias para algumas horas, perdendo-se um dos encantos da vida do mar, onde se incluía o conhecer o Mundo.

Passou-se dos cálculos astronómicos (não estamos a falar de despesas mas de astros) com o sextante para o GPS1, primeiro com aparelhos enormes e agora com aparelhos que cabem no bolso.

Dos antigos telexes, passando para os faxes e hoje para os e-mails e sistemas digitais avançados.

A evolução inimaginável da dimensão das empresas armadoras, através de aumentos de estrutura e sobretudo de aquisições, acompanhada pelo aumento da dimensão dos navios, principalmente dos porta contentores, os quais atingiram níveis nunca antes previstos. Diz-se hoje que os navios porta contentores não devem vir a ultrapassar os 25.000 TEU, quando há dez anos atrás se antevia que não deveriam passar dos 16.000 TEU, os Malacamax, com a máxima dimensão para passar no estreito de Malaca, alimentando o circulo vicioso do shipping, que se mantém inabalável, aumentando a capacidade dos navios para reduzir o custo por slot, que se reflete em excesso de capacidade e em redução dos fretes o que leva a apostar em navios de maior capacidade para reduzir os custos por slot, numa estória interminável que ainda vai levar a mais aquisições e concentrações de empresas armadoras através de alianças.

Uma coisa é certa. Dentro de dez anos o panorama do shipping será totalmente diferente ao de hoje, em todas as suas vertentes e áreas de negócio complementares.

Os navios serão autónomos, sem tripulantes e controlados remotamente de terra, já havendo projetos piloto para entrarem em teste em 2020.

Os terminais portuários serão totalmente automatizados, com ritmos superiores ao que seria humanamente possível, dando assim resposta aos navios de maiores dimensões e capacidades.

A digitalização e integração total dos sistemas de informação, permitirá aos armadores venderem os seus serviços diretamente, através de plataformas digitais já existentes (ex. Maersk e Alibaba on-line booking), sem recurso a uma rede de agentes ou escritórios locais, passando a oferecer um serviço verdadeiramente global e virtual.

A digitalização e a robotização, com base na cada vez mais avançada inteligência artificial, substituirá muita da mão-de-obra que hoje vive do shipping, restando apenas alguma intervenção humana residual e estritamente necessária.

A integração total dos sistemas de informação, desde as JUP2, as JUL3, os sistemas dos armadores, dos terminais e plataformas logísticas e os sistemas logísticos das empresas até às grandes e pequenas superfícies de consumo, e mesmo até ao nível dos consumidores finais, estando todos em rede, vão ser o alimentador de todo um sistema global de fluxos físicos de matérias primas e de produtos, sendo alguns mesmo substituídos pela já hoje real impressão 3D.

E onde é que ficamos neste futuro? Onde estaremos dentro de dez anos?

Há que estar atento às evoluções e prepararmo-nos e posicionarmo-nos antecipadamente para o que aí vem, quer individualmente quer coletivamente como país, pois esta evolução é exponencial e não espera por ninguém.

O futuro que se aproxima rapidamente vai necessitar de atividades e serviços que mantenham o sistema a funcionar e o protejam, devendo haver uma aposta clara ao nível da formação direcionada nesse sentido.

Quem não se preparar e adaptar apenas lhe restará ficar a admirar, de boca aberta, para os encantos e maravilhas tecnológicas dos tempos que se avizinham, restando-lhe como atividade usufruir das ciclovias e espaços de lazer que os nossos políticos tão precavidamente nos têm vindo a disponibilizar, certamente antevendo o futuro que se aproxima e a eventual habitual inércia do país, que é definitivamente e urgentemente preciso vencer.

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1 GPS – Global Positioning System
2 JUP – Janela Única Portuária
3 JUL – Janela Única Logística


por João Soares

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