quinta-feira, 29 de Outubro de 2020

 
Reta
Passageiros & Mobilidade
12-02-2009

 

Na cauda da Europa

Uma expressão muito usada entre nós é “estar na cauda da Europa”. A principal associação que se faz a este vocábulo resulta de evidências estatísticas comparativas entre os vários países da Europa, designadamente com factores que evidenciam desenvolvimento. Isto é, estamos todos habituados a procurar pelos resultados de Portugal sempre no fundo de uma lista, com a secreta esperança de aparecermos à frente da Grécia, o nosso grande rival estatístico! É por essas tristes constatações que repetidamente nos enquadramos como estando na “cauda da Europa”. Mas eis que de forma surpreendente e no sector dos transportes podemos encontrar um rácio, associado a desenvolvimento, onde Portugal se pode orgulhar de ter tido uma evolução espantosa, largamente superior aos restantes, tornado-se actualmente um verdadeiro líder. Refiro-me à taxa de motorização, que simplesmente indica o número de automóveis de um país por cada 1.000 habitantes.

 

Em 1991 Portugal apresentava uma taxa de motorização (TM) de 203 enquanto que, globalmente, a União Europeia a 15 Países (UE15) detinha uma TM de 401. Nessa altura, claro está, situávamo-nos na “cauda da Europa” apenas com a consolação de que a Grécia estava com uma TM inferior. Razões para tal eram evidentes: éramos (somos) um país pobre do sul da Europa que dificilmente poderia almejar TM ao nível duma poderosa Alemanha com 489 ou um milionário Luxemburgo, a mais elevada na UE15 com 519 automóveis por mil habitantes. Compreendia-se portanto!

 

Expectavelmente, a taxa de motorização na UE15 cresceu bastante desde essa altura até 2002, apresentando um crescimento de 23,44% passando de 401 para 495. Surpreendente é verificar que Portugal neste capítulo excedeu claramente todas as expectativas com um extraordinário crescimento de 174,88% da TM, claramente o maior entre todos os países, crescimento 2 vezes superior à Grécia, 3 vezes superior à Irlanda e 4 vezes superior à Espanha. Em 2002 a taxa de motorização em Portugal já era de 558. Mais do que a tal “poderosa” Alemanha com 541, aliás só mesmo suplantados pelo Luxemburgo e Itália.

 

Sendo o automóvel considerado um bem de luxo, cuja aquisição, a seguir à da habitação, é a mais importante decisão das famílias pelo importante encargo financeiro daí decorrente, poder-se-á concluir que a TM de um país trata-se dum índice indicativo de desenvolvimento, com o qual Portugal já ombreia orgulhosamente com os países da linha da frente. Qual Grécia, qual o quê!

 

Serão várias as razões que sustentam esta evolução nesse período: a melhoria do nível de vida, acesso ao crédito, a estabilização dos preços dos automóveis, melhoria das estruturas rodoviárias, etc. Mas importará agora perceber as consequências. Uma elevada taxa de motorização per si não é necessariamente preocupante, a questão é que potencia uma utilização excessiva de um modo de transporte pouco eficiente dos pontos de vista, ambiental, energético e ocupação de espaço urbano. Aliás, e a talhe de foice, perante esta evolução da TM já ninguém poderá estranhar a debandada que foi a transferência do transporte público para o individual quando comparados os inquéritos aos movimentos pendulares no momentos censitários de 1991 e 2001.

 

O enorme desperdício energético causado pela utilização massiva do automóvel traz implicações financeiras extremamente graves com as quais o país terá de viver amargamente. Em primeiro lugar pela dependência do petróleo que como se sabe caminha a passos largos para preços incomportáveis, afectando em grande medida a nossa balança comercial. Em segundo lugar, pelo custo astronómico que se adivinha termos de pagar com os direitos de emissão de dióxido de carbono. É extraordinário pensarmos que só porque gostamos sempre de ficar bem nas fotografias que normalmente se tiram após as assinaturas de protocolos importantes, lá assinámos o famoso de Quioto sem que se achasse relevante levá-lo muito a sério. A evolução da emissão dos Gases Efeito de Estufa (GEE) entre o período de 1991 a 2002 por Portugal foi estrondosamente crescente, tendo mesmo ultrapassando largamente os limites impostos para 2008. É verdade que o transporte não é o único contribuinte para as emissões de GEE, mas tem muito peso e a forma passiva como se tem deixado invadir as vias rodoviárias, essencialmente urbanas, pelos automóveis vai-nos sair muito caro.

 

O meu receio, dada a quase total distracção política ao longo destes anos sobre esta matéria, é de que os sucessivos governos não consigam discernir que a receita fácil e imediata proveniente de ISP dificilmente compensará os problemas e os custos com as externalidades decorrentes dos congestionamentos. De facto, filas de trânsito significam dinheiro em caixa para um governo, contudo os problemas ambientais originam avultados prejuízos a médio longo prazo na saúde das pessoas bem como no estado dos edifícios, para não falar na improdutividade das pessoas retidas no trânsito ou no stress produzido. Trata-se de uma questão de irresponsabilização política, grave, porquanto se gera uma liquidez simpática para tesouraria enquanto que os problemas futuros resultantes dessa estratégia ficarão para outros os resolverem. No fundo, foi muito azar. Logo quando se pensava que havíamos saído da “cauda da Europa” para a “dianteira da Europa” num rácio indicativo de desenvolvimento, como a taxa de motorização, tinha logo de ser num que nos encaminha contra uma parede, e de frente.

 

Eduardo Caramalho
in TR 38;Abril 2006


 

 

 

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