quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

 
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Carga & Mercadorias
28-06-2019

Combustíveis mais ecológicos
Futuro da mobilidade será um mix de soluções
Quando falamos em alterações climáticas e em medidas de proteção ambiental, os transportes estão no centro da conversa. É neste campo que muitas medidas têm sido tomadas, começando desde logo com uma mudança para novos combustíveis mais amigos do ambiente.



A 12 de dezembro de 2015 foi assinado o Acordo de Paris que entrou em vigor a 4 de novembro de 2016. Este acordo, subscrito também por Portugal, tem como objetivo alcançar a descarbonização das economias mundiais e estabelece o objetivo de limitar o aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2ºC e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC, reconhecendo que isso reduzirá significativamente os riscos e impactos das alterações climáticas.

Neste sentido, várias são as medidas políticas que foram tomadas e, paralelamente, as empresas começaram também elas a dar o seu contributo para reduzir a sua pegada de carbono. As empresas de transporte rodoviário de mercadorias incluem-se neste cesto de contribuidores para minimizar os gases de efeito de estufa e, consequentemente, abrandar as alterações climáticas. Paralelamente, as empresas fornecedoras de combustíveis e energia também se vão adaptando aos novos tempos. O Gás Natural Liquefeito (GNL), veículos elétricos (VE), Gás Natural Comprimido (GNC), Biogás e Hidrogénio vão sendo cada vez usuais em detrimento dos tradicionais combustíveis, nomeadamente o gasóleo. Nuno Afonso Moreira, presidente executivo do Grupo Dourogás, relembra que «o Governo já transpôs para o ordenamento jurídico nacional, as metas e objetivos da Diretiva Europeia dos combustíveis alternativos. Com efeito, tanto o Decreto Lei 60/2017 de 9 de junho, como a Resolução de Conselho de Ministros 88/2017, estabelecem de forma clara a necessidade de criação de uma infraestrutura de combustíveis alternativos que contemple várias tecnologias e soluções visando a melhoria do impacto ambiental dos transportes e a redução das emissões de gases com efeito de estufa (GEE), objetivos estes que importam garantir no quadro do combate às alterações climáticas, a par de um vasto conjunto de outras medidas a tomar no campo da eficiência energética dos transportes e da mobilidade».
 
O mesmo responsável comenta ainda que «Portugal está comprometido com uma meta de incorporação de 10% de fontes de energia renováveis no setor dos transportes, sendo que neste particular não pode de modo algum ser descurada a utilização do biometano, cujo potencial global de produção equivale mais de 1.700 ktep/ano, com proveniência em diferentes tipos de biomassa. Do nosso ponto de vista, o biometano, além de ser um recurso renovável, limpo e ecossustentável, pode ser economicamente rentável e um possível forte substituto dos combustíveis tradicionais, na medida em que assegura níveis de rendimento bastante elevados e com um nível de eficiência energética muito próximo dos 100%, permitindo assim a promoção do conhecido conceito de “economia circular” e uma redução mais acelerada das emissões de CO2. Acreditamos que a conjugação e democratização destas tecnologias podem, no curto prazo, alterar o paradigma do transporte em Portugal, constituindo-se como alternativas economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis, nas várias modalidades de transporte, desde o transporte privado de passageiros, passando pelo transporte público e pela distribuição, quer a de longo curso, quer a de natureza mais capilar (last mile)».

No mix de soluções que o setor preconiza para o futuro, a Dourogás refere também o biogás como uma «energia com muito potencial», uma vez que «tem um custo de cerca de metade do gasóleo e da gasolina» e ainda «a vantagem de ser uma energia renovável e não poluente, de emissões neutras, tal como a eólica, a fotoelétrica e a hídrica».

Nuno Afonso Moreira comenta ainda que «o Gás Natural Veicular é neste momento a única alternativa tecnologicamente madura para dar resposta às exigências de competitividade do setor transportador, porquanto assegura uma redução que pode alcançar 50% de poupanças na fatura de combustível no transporte pesado de longo curso, quando comparado com os combustíveis tradicionais».
Por seu turno, Victor Cardial, delegado em Portugal da Gasnam, uma associação ibérica que visa promover o uso do Gás Natural Comprimido e o gás renovável na mobilidade terrestre, acrescenta que «no caso dos veículos pesados, a solução de Gás Natural Liquefeito permite alcançar potências da ordem dos 460 cv, autonomias entre os 1.200 e os 1.600 quilómetros, com redução de emissões, designadamente de NOx (85%) e de partículas (quase 100%), assim como de CO2 na ordem dos 30%».Victor Cardial disse ainda que «uma vantagem muito relevante do Gás Natural, enquanto combustível é o seu potencial para apoiar a transição energética para o Gás Renovável (biometano), para o Gás Sintético (obtido através de hidrogénio e captura de CO2), pois as infraestruturas e os equipamentos são os mesmos».

O responsável associativo considera ainda que «atualmente, a solução elétrica para o transporte pesado de mercadorias ainda apresenta muitas limitações, não sendo expectável que essa situação se altere nos próximos anos. Relativamente ao hidrogénio, as questões tecnológicas e económicas estão longe de estarem num nível adequado a uma larga difusão, embora seja na nossa opinião, uma das soluções com maior interesse e potencial».

Nuno Afonso Moreira, da Dourogás, relembra ainda que a Dourogás acredita «muito» no biogás porque «sendo Portugal um país com abundantes recursos em biomassa, a promoção de fontes de energia renovável a partir da biomassa, como o biogás/biometano, tem um papel fundamental para o cumprimento das metas nacionais e europeias quanto à quota de renováveis e redução dos GEE».

Infraestruturas são adequadas
As empresas fornecedoras de combustível têm um papel fundamental para alavancar este novo paradigma da mobilidade porque têm a “matéria-prima” e a forma de a distribuir até ao consumidor final. De um modo geral, os nossos entrevistados defendem que a rede de abastecimento está já bem desenvolvida em Portugal. A Gasnam informa que «brevemente, devem existir em Portugal cerca de 20 postos de abastecimento de GNC e GNL», sublinhando que este número responde à procura atual por este tipo de combustível. Victor Cardial, da Gasnam, conclui mesmo que «este é um processo que está em desenvolvimento e os distribuidores estão preparados para dar resposta às novas necessidades que vão surgindo».

Nuno Afonso Moreira, da Dourogás, concorda que as infraestruturas existentes satisfazem as necessidades e destaca que a Dourogás tem, neste momento, «três postos de abastecimento mistos de GNL e GNC, localizados em pontos estratégicos como o Carregado, Elvas e Picoto». A empresa tem também postos exclusivamente de GNC, nomeadamente em Santo António dos Cavaleiros (Loures), Mirandela e Vila Real e ainda a exploração, em regime de concessão, do posto de enchimento dos STCP na cidade do Porto. A Dourogás, em 2019, pretende ainda inaugurar três novos postos mistos de GNL e GNC em Palmela, Maia e Vilar Formoso.

Mais apoio governamental
Os entrevistados foram unânimes em considerar que devem existir mais incentivos para as empresas aderirem à inovação neste campo. Gustavo Paulo Duarte, presidente da ANTRAM – Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias considera que a grande barreira a uma maior adesão dos transportadores aos novos combustíveis está na falta de incentivos, ficando estas empresas, muitas vezes, fora de programas de investimento como o Portugal 2020. «Parece-me completamente mal pensado estrategicamente não incluir o setor dos transportes nestes investimentos de melhoria», diz, acrescentando que «temos de criar estratégias e não podemos ter veículos com 30 ou 40 anos a circular nas estradas portugueses a pagar o mesmo de IUC que um carro novo. Não podemos ter viaturas com 40 anos que paguem o mesmo em portagens do que um carro novo com energias alternativas, mais amigo do ambiente. Não podemos querer que haja investimentos quando continuamos a beneficiar quem menos investe».



O presidente executivo do Grupo Dourogás considera que «existe um conjunto de iniciativas que deveriam ser consagradas na moldura legislativa nacional, em ordem a contribuir ativamente para um roteiro de economia de baixo carbono no setor dos transportes que, como sabemos, é um dos principais contribuintes para a causa das emissões de passivos ambientais». Nuno Afonso Moreira sugere que algumas dessas iniciativas poderiam passar por, «no quadro do Programa Operacional da Sustentabilidade e do Uso Eficiente dos Recursos (POSEUR), ajudas diretas ao custo das viaturas pesadas, numa lógica de substituição de frotas por meios veiculares mais ecológicos». O responsável da Dourogás considera ainda que deveria ser criado «um quadro legislativo e regulatório, a exemplo do que acontece em alguns países europeus, para maior e melhor utilização das fontes renováveis de biomassa que podem ser valorizadas através da produção de biogás e consequentemente de biometano com propriedades adequadas ao respetivo uso como gás veicular renovável».

A Gasnam partilha desta visão de falta de incentivo governamental, considerando que «não existe ainda uma visão favorável ao Gás Natural na mobilidade».

Mix de soluções
O futuro será feito com várias energias a serem utilizadas em simultâneo na mobilidade de pessoas e bens, deixando o petróleo de ter um papel tão preponderante. Victor Cardial, delegado em Portugal da Gasnam, refere que «o cenário atual e num futuro próximo vai consistir numa variedade de fontes de energia e de sistemas complementares na mobilidade, não sendo expectável aproximarmo-nos de panoramas como os verificados na segunda metade do século XX em que o petróleo era o único combustível utilizado». O responsável da Gasnam conclui que o futuro da mobilidade «será caracterizado por um mix de soluções». Pensamento semelhante tem Nuno Afonso Moreira, da Dourogás, que vê «o mercado como um puzzle em que as peças no final do dia encaixam umas nas outras e montam um ecossistema equilibrado nas suas várias vertentes», concluindo que existe espaço para, no futuro, se «acomodar todas as tecnologias que sejam seguras, operacionais, funcionais e que acrescentem valor na fileira do setor transportador».

por Sara Pelicano
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