sábado, 18 de Agosto de 2018

 
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03-04-2018

Ferrovia 2020 tinha apenas 15% das obras no terreno
Governo avança com obras nos troços Évora-Elvas e Covilhã-Guarda
Dos 528 quilómetros de ferrovia que deveriam atualmente estar em intervenção, apenas 79 estão a ser alvo de empreitadas. Contudo, com o início das obras entre Évora e Elvas e entre Covilhã e Guarda, o Governo parece encarrilhar numa realidade há muito prometida. “Momento histórico” e “coesão territorial” são as expressões usadas pelo Executivo para caracterizar os trabalhos.



Somente 15% das obras projetadas para a ferrovia, no âmbito do Ferrovia 2020, estão atualmente em execução. Atrasos na realização de estudos e projetos, adiamento de prazos, orçamentos chumbados. A análise do jornal Público revelou que o plano do Governo, apresentado em 2016, só avançou em 79 quilómetros de via, num total de 528 quilómetros que deveriam estar em intervenção.

A presença da comissária europeia da Mobilidade e dos Transportes, Violeta Bulc, no arranque das empreitadas nos troços Évora-Elvas e Covilhã-Guarda parece, contudo, ter alavancado a aposta do atual Governo na ferrovia. No passado dia 5 de março, Violeta Bulc esteve presente em Elvas, juntamente com António Costa e Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, para dar início às obras do troço que fará a ligação entre Évora e Elvas e posteriormente ao hinterland da região da Extremadura espanhola, entre Elvas e Caia (troço de 11 quilómetros).

A construção da nova linha deverá iniciar-se até março do próximo ano, com conclusão prevista para o primeiro trimestre de 2022. Orçamentada em 509 milhões de euros, será comparticipada em cerca de metade por fundos europeus. Ainda de acordo com os dados do executivo comunitário, a modernização do troço Évora-Caia custará aos cofres do Estado 388 milhões de euros, amortizado em 56% pela União Europeia (184 milhões de euros).

A linha entre Évora e Elvas será construída de forma faseada. Para já, são apenas 20 quilómetros, mas se pensarmos que esta é a maior construção no setor ferroviário do último século, é um marco notável. Mais ainda quando olhamos para as vantagens desta ligação: os 80 quilómetros entre Évora e Elvas vão permitir a ligação dos portos de Sines, Setúbal e Lisboa à Península Ibérica e à Europa, reduzindo os tempos de trânsito de oito horas para quatro horas e meia (e o custo de transporte em cerca de 30%).
 
Violeta Bulc esteve presente, na mesma tarde, no lançamento dos trabalhos de modernização do troço Covilhã-Guarda na linha da Beira Baixa. Juntamente com Pedro Marques, ministro do Planeamento e das Infraestruturas, a comissária europeia colocou literalmente “mãos-à obra” para dar início à empreitada. Adjudicado por 52 milhões de euros, o troço tem conclusão prevista para 2019 e, uma vez terminado, permitirá a reabertura à exploração ferroviária da linha com 46 quilómetros, que se encontra encerrada à circulação desde 2009. Violeta Bulc deixou uma mensagem muito clara nesta cerimónia: “A Europa veio até junto de vocês. Usem bem a oportunidades que vos abre o maior mercado do mundo: o europeu”.

A visita da comissária europeia vem no seguimento da reunião da Infraestruturas de Portugal com representantes das autarquias de Belmonte, Covilhã e Guarda, com vista à modernização do troço em questão Entre as intervenções a executar, a IP aponta a renovação integral de 36 quilómetros de via; a eletrificação total do troço; a reabilitação de seis pontes ferroviárias; a remodelação de estações e apeadeiros, nomeadamente em Maçainhas, Benespera e Barracão; a automatização e supressão de passagens de nível; e a ainda a construção de sistemas de drenagem e execução de trabalhos de estabilização de taludes.

Esta obra integra a construção da concordância das Beiras entre a linha da Beira Baixa e a linha da Beira Alta, estando igualmente prevista a construção de uma “via única eletrificada, com 1.500 metros de extensão, a execução de uma nova ponte ferroviária sobre o rio Diz, com uma extensão de 237,8 metros” e ainda a “instalação de sinalização eletrónica e telecomunicações”, informa a IP.

O “interminável” Ferrovia 2020
Pedro Marques apresentou há dois anos o Plano de Investimentos em Infraestruturas Ferrovia 2020, no qual está delineada a modernização e construção de novas vias férreas. Ao todo, o Governo prevê a intervenção em 1.193 quilómetros de linha, entre modernização e construção de novos troços. Até ao arranque destas duas grandes obras, apenas a empreitada de modernização da linha do Minho estava em execução – extensão de 43 quilómetros entre Nine e Viana do Castelo – assim como os trabalhos no troço entre Alfarelos e Pampilhosa. Estes dois projetos eram os únicos, num cenário de dez, que deveriam estar realmente em obras. Destes dez, quatro projetos – num valor de 165 milhões de euros – já deveriam inclusive estar terminados.
De norte a sul do país, existem outras linhas que dificilmente terão comboios a circular, pelo menos a curto ou médio prazo. O destaque vai para o atraso das obras na linha da Beira Alta, onde o Governo prevê um investimento de 691 milhões de euros, no âmbito do Corredor Internacional Norte. Sem nenhuma adjudicação assinada entre as partes, os 251 quilómetros do troço ferroviário continuam a ser uma miragem. Ao Público, fonte do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas disse que “à semelhança do que ocorre na globalidade dos projetos do Ferrovia 2020, este projeto, ao contrário do que seria expectável, não tinha os respetivos estudos desenvolvidos, nomeadamente ao nível técnico e ambiental”.

Relativamente à construção de uma nova linha entre Aveiro e Mangualde, o projeto já foi chumbado duas vezes por Bruxelas “por ter uma taxa interna de rentabilidade negativa”, uma vez que representa um investimento de 675 milhões de euros (um quarto de todo o orçamento do Ferrovia 2020). Já o troço entre Marco de Canavezes e a Régua, na linha do Douro, orçamentado em 47 milhões de euros, encontra-se também ele atrasado. Com conclusão prevista para finais de 2019, o projeto pode ver alargado o calendário até 2022. Entre Meleças e Caldas da Rainha, na linha do Oeste, a eletrificação e modernização da via – no valor de 107 milhões de euros – tem já um atraso de dois anos. Inicialmente, as empreitadas deveriam ter arrancado no último trimestre de 2017, para ver cumprido o prazo de conclusão em 2020.

“Na maioria dos casos, o Ministério justifica o não cumprimento da calendarização com atrasos ocorridos na fase de estudos e projetos, bem como na avaliação de impacto ambiental”, escreveu aquele jornal. Contudo, a fonte constatou que estes atrasados devem-se, sobretudo, “à paralisação a que a antiga Refer esteve sujeita quando se procedeu à sua fusão com a Estradas de Portugal”. Perante este cenário, dificilmente os projetos passarão do papel para os carris.

por Pedro Venâncio
 
Tags: Ferrovia 2020  
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