segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

 
CP_2017
Passageiros & Mobilidade
20-10-2017

Acessibilidade e mobilidade: Conceitos complementares ou excludentes?
A facilidade com que acedemos a pessoas, bens e serviços é hoje uma das características mais importantes das sociedades urbanas contemporâneas. Sem acessibilidade, seja esta assegurada por meios de deslocação ou pela internet, ficamos isolados do mundo que nos rodeia, incapazes de fazer face às nossas necessidades e de melhorar as nossas condições de vida. Hoje é inimaginável viver sem interagirmos uns com os outros ou sem acedermos ao que a sociedade nos oferece.

O problema é que, ao vivermos em espaços urbanos onde as atividades se dispersam por vastos territórios, ao termos mais acesso a meios de transporte, ao repartirmos o nosso quotidiano por vários locais, a facilidade com que acedemos às pessoas e às coisas depende também da facilidade com que nos movemos. Por isso é que atualmente, salvo situações particulares, é cada vez mais difícil separarmos a acessibilidade da mobilidade. Mais uma vez, o problema é que, com o aumento da motorização individual (na Área Metropolitana de Lisboa, são já hoje as famílias com mais de um automóvel do que aquelas que não possuem nenhum) e as crónicas insuficiências dos sistemas de transporte público, as nossas deslocações têm vindo a processar-se sobretudo através do automóvel.

Ora, as nossas cidades e áreas metropolitanas não foram construídas a pensar na generalização do uso do automóvel, nem tal seria uma solução de futuro (como o demonstra a falência das cidades americanas, onde foi essa a política adoptada desde 1950) e menos ainda desejável, face aos impactes ambientais, sociais e económicos que tal implicaria. Por outro lado, os congestionamentos diários de tráfego infernizam a vida a centenas de milhares de pessoas que todos os dias aí se deslocam.

O grande desafio que se coloca com cada vez mais acuidade é pois o de conciliar os nossos modos de vida e a crescente necessidade de acessibilidade que lhe está associada, com o desenvolvimento de uma mobilidade sustentável, onde os efeitos negativos da utilização dos modos motorizados sejam minimizados, tanto no que se refere às emissões de gases com efeito de estufa, como no tocante aos congestionamentos de tráfego e à segregação espacial de importantes estratos sociais da população, nomeadamente para quem não possua automóvel ou o custo do seu uso quotidiano é incomportável para o seu orçamento familiar.

A superação deste desafio não é de modo algum uma tarefa fácil nem decorre de um processo rápido, e por isso não é compaginável com ciclos eleitorais curtos. De facto, raras são as situações em que um bem fundamentado e correto diagnóstico, a enunciação de objetivos viáveis, socialmente aceites (mesmo que com compromissos) e a sua tradução em diferentes horizontes, se conseguem concluir em três anos, o que, associado ao cumprimento dos formalismos legais, leva a que, num mandato autárquico, poucas sejam as propostas estruturantes ou estratégicas que se conseguem concretizar, acabando-se por privilegiar ações de mais fácil e rápida implementação, mesmo que não constituam soluções para os problemas diagnosticados, ou até que, no pior dos casos, vão ao arrepio dos objetivos enunciados. Deste modo, saber conciliar o tempo da definição de uma estratégia de médio e longo prazo, com a concretização de ações que, no curto prazo, potenciem as necessárias dinâmicas de mudança e ilustrem o caminho que se pretende percorrer, é hoje uma das maiores exigências ao nível político, nomeadamente numa sociedade marcada pelo efémero e a sobrevalorização das vivências do presente em detrimento de uma hipotética, ainda que mais perene e promissora, melhor vida futura. Talvez seja por isso que nos encontramos tão atrasados em relação ao que é a praxis corrente por essa Europa fora.

por Fernando Nunes da Silva
 
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