sábado, 18 de Agosto de 2018

 
Passageiros & Mobilidade
24-04-2015

Plano de Transportes em marcha
Câmara de Braga quer implementar Busway na cidade
Braga pode vir a ser a primeira cidade portuguesa a implementar um sistema de BRT – Bus Rapid Transit. A autarquia pretende levar a cabo um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável para responder às necessidades de mobilidade da população. Este plano, que inclui a construção de uma Busway entre as zonas este e oeste da cidade, irá ser complementado com um sistema de Bike sharing, garantindo melhores acessibilidades aos principais polos de desenvolvimento da cidade.





O professor universitário e administrador dos TUB – Transportes Urbanos de Braga, Baptista da Costa, salienta que um dos principais objetivos deste plano é fazer com que a procura nos transportes públicos passe dos atuais dez milhões de passageiros/ano para 15 milhões em cinco anos e para 20 milhões numa década. Para tal, a Câmara Municipal de Braga irá candidatar-se a fundos europeus na ordem dos 120 milhões de euros, uma verba que não só irá permitir a construção de canais rodoviários dedicados ao transporte público, como também a adaptação dos arruamentos e interfaces e a modernização da frota dos TUB.
A Transportes em Revista falou com Baptista da Costa e ficou a conhecer os planos que a autarquia e a empresa de transportes municipais têm para a cidade.

Transportes Em Revista - Os TUB vão fechar o ano com um aumento na procura na ordem dos 0,8 por cento, contrariando assim uma tendência decrescente que se tem verificado nos últimos dez anos. A que se deveu este aumento?
Baptista da Costa -
Os TUB - Transportes Urbanos de Braga perderam 270 mil passageiros por ano nos últimos dez anos. Em 2014, não só não os perdeu, como ainda transportou mais cem mil passageiros. O aumento de passageiros transportados em 2014 foi superior a um por cento relativamente a 2013. Este aumento de passageiros transportados deve-se às melhorias incrementais do serviço ao cliente, tais como a melhoria de frequências de algumas linhas, o alargamento da oferta no serviço noturno, a criação de novos serviços sazonais e de apoio a eventos da cidade, o ajuste de alguns traçados e a criação de novas paragens. Passou a ser possível pagar os passes mensais por Multibanco, facilitando assim o acesso aos títulos de transporte.
Houve também um maior esforço na promoção e divulgação das atividades dos Transportes Públicos de Braga, recorrendo a diversos canais de comunicação, tais como as redes sociais, jornais, revistas, rádios e televisões. Existiu ainda uma maior aproximação à população através dos diversos eventos criados ao longo deste ano pelos TUB e pela presença dos mesmos em atividades chave da cidade e das suas instituições. Foi dada uma maior atenção à imagem e ao asseio dos veículos.

TR - Quais são os principais constrangimentos a nível operacional dos TUB?
BC -
O reduzido número de viaturas, com uma idade média superior a 16 anos, que fazem parte da frota dos TUB leva a que não seja possível aumentar as frequências das linhas, tanto quanto desejaríamos, ou criar novas linhas que são necessárias para satisfazer as necessidades da cidade. Ao contrário de várias cidades europeias com centros históricos delicados, Braga tem uma falta de linearidade de algumas linhas - be on the way - e o transporte coletivo não coexiste com os modos suaves. Por outro lado, dispomos de apenas sete pontos de venda fixos, limitados ao centro da cidade, o que dificulta o acesso à aquisição dos títulos de transporte de uma maneira cómoda e fácil.

TR – Recentemente, foi anunciado pela autarquia a existência de um Plano Estratégico para os Transportes…
BC -
Não podemos ainda falar na existência de um Plano Estratégico para os transportes. Podemos, sim, referir que existe uma Visão Estratégica para a cidade de Braga que o presidente Ricardo Rio tem vindo a construir, envolvendo diversos aspetos, e onde a mobilidade ocupa lugar de destaque. Nessa visão de uma cidade mais inclusiva, sustentável e inteligente, os Transportes terão uma palavra fundamental a dizer e os TUB estarão plenamente ativos e colaborantes para a atingir. Uma das principais ferramentas para a implementação dessa Visão Estratégica será o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) da cidade de Braga, que os TUB vão liderar e que estará concluído ainda em 2015.

TR – Em que consiste este Plano de Mobilidade Urbana Sustentável e quanto tempo demorou a ser elaborado?
BC -
O Plano obriga a uma coordenação intensa com os diversos “stakeholders”. Teve origem em março de 2012, altura em que o então pré-candidato Dr. Ricardo Rio nos lançou o desafio (a mim, ao Arquiteto Tomás Allen e ao Engenheiro Mesquita Ramos) para organizar uma palestra sobre mobilidade e transportes na cidade. O facto de este tema ter sido escolhido para a primeira de uma série de palestras sobre diversos temas, organizadas pelo candidato à autarquia, ainda antes do lançamento oficial da sua candidatura, reflete a importância que este tema tem dentro da sua Visão de cidade. Para a elaboração do PMUS, os TUB estão a seguir as linhas de orientação da Comissão Europeia, da UITP - União Internacional de Transportes Públicos e do Banco Mundial. O primeiro passo foi realizar uma análise muito completa da situação da Mobilidade em Braga. Após a conferência de 2012, outras iniciativas se seguiram, envolvendo diversos intervenientes na cidade e a população. Culminando esse trabalho, foi publicado, em setembro de 2014, um suplemento sobre Mobilidade na imprensa local, documento que, para além de apresentar a Visão de cidade a longo prazo transmite ao público, de forma sintetizada, a análise realizada. O documento apresenta ainda alguns cenários que desenvolvemos, dentro dos quais surge o conceito Bus Rapid Transit (BRT).

 
TR - Quais são as principais caraterísticas do sistema de BRT que os TUB pretendem implementar?
BC -
Pretendemos implementar um transporte coletivo moderno e atrativo, que circule em canal próprio de modo a ser fiável, confortável e rápido. Circular em canal próprio é fundamental para obter a desejada fiabilidade e rapidez capaz de convencer a população a utilizar o transporte coletivo. No entanto, não se trata apenas de instalar faixas BUS, pretende-se que o sistema seja delicadamente inserido no tecido urbano de Braga, salvaguardando o património riquíssimo da cidade, eliminando barreiras e contribuindo decisivamente para a regeneração do centro da cidade. Apesar da nossa preferência pela alimentação elétrica, ainda não há uma definição concreta da tecnologia que iremos adotar.

TR – A concretizar-se, será a primeira vez em Portugal que se opta por um sistema deste tipo. Porquê um sistema de BRT e não um metro ligeiro?
BC -
Sendo um aspeto para nós fundamental a criação dum transporte regrante e circulando em canal próprio, e considerando a dimensão e a população da cidade de Braga, o BRT afigura-se como a opção mais sensata. De facto, observando exemplos em funcionamento pelo mundo fora, vemos que o BRT pode atingir a capacidade de transporte de um metro ligeiro (LRT), mas custando um terço do valor do LRT (mesmo considerando a inserção urbana).
Será, de facto, inovador em Portugal, mas é uma tecnologia de transporte com provas dadas em todos os continentes. Esta solução é, talvez, aquela que mais tem evoluído nos últimos anos, tendo vindo a conseguir captar cada vez mais utilizadores.

TR – Já foi feito algum estudo comparativo, em termos financeiros, sobre estes dois modos?
BC -
Estudos de detalhe em relação ao investimento ainda não estão feitos, mas, conforme disse, o benchmarking europeu leva-nos a assumir que um sistema BRT custará na ordem dos seis a sete milhões de euros por quilómetro, enquanto um metro ligeiro (como a experiência do Metro do Porto nos confirma) andará pelos 21 a 23 milhões de euros por quilómetro – isto considerando, em ambos os casos, a inserção urbana.
 
TR - Inspiraram-se em algum sistema já existente?
BC -
A tecnologia BRT tem tido uma evolução notável. Encontramos hoje exemplos extraordinários que demonstram que este modo será muito importante para a sustentabilidade das cidades. O Brasil é reconhecido como tendo sido o pioneiro dos BRT. Este surgiu em Curitiba, há mais de 30 anos, cidade que continua a ser uma referência mundial em termos de transporte coletivo associado ao desenvolvimento urbano. Hoje, o Brasil já ultrapassa as três dezenas de cidades com sistemas BRT.
Outro país que aposta fortemente em BRT é a China, atualmente a mais forte economia mundial. Por todo o mundo surgem constantemente novos e melhores exemplos. Na Europa, a França tem vindo a implementar o BRT em diversas cidades e, no último ano, surgiu esta tecnologia em Espanha, na cidade de Granada. Mas, para além dos aspetos operacionais, a estética também é importante: o veículo terá de ser muito bonito. É a “cara” do sistema e será um dos aspetos mais importantes para cativar novos passageiros. Também no aspeto estético têm surgido excelentes exemplos, como o de Metz ou o de Eindhoven. Em termos de Inserção Urbana, aí não precisamos de ir buscar exemplos lá fora, basta-nos ver o trabalho que fizemos no Metro do Porto e que tem sido premiado internacionalmente.

TR - A cidade de Braga tem as caraterísticas geográficas ideais para a instalação de um BRT?
BC -
Sim, pensamos que sim. E sendo a área abrangida pelo “Anel” uma área muito plana, será extremamente propícia a ser complementada pelo uso de bicicletas criando uma verdadeira rede de ciclovias e bike sharing associados ao sistema.

TR - Qual é o investimento previsto?
BC -
Ainda é cedo para adiantar números concretos, mas devemos dizer que iremos considerar tanto a instalação do sistema, como a inserção urbana do canal e os interfaces.

TR - Quais são os fundos europeus a que vão candidatar-se?
BC -
Os fundos europeus estão muito orientados para soluções inteligentes, inclusivas e sustentáveis. Gostaríamos de ter alguma participação em projetos de I&D - Investigação e Desenvolvimento por forma a dar-nos a confiança de que o sistema representará o estado da arte.

TR - Qual será a percentagem de investimento da autarquia neste projeto?
BC -
Os regulamentos e os avisos ainda estão a ser elaborados, pelo que ainda não sabemos qual o esforço que será exigido à autarquia.

TR - Este é um plano a médio prazo (dez anos). Quando é que pensam que o novo sistema de BRT estará operacional?
BC -
Operacionalizar a Visão é um processo, cuja primeira fase, dentro do atual Quadro Comunitário de Apoio 2014 - 2020, inclui o sistema regrante de BRT. O plano de execução será alinhado não só com as disponibilidades financeiras, mas também com a necessidade de minimizar os impactos negativos durante a execução da obra sobre a economia da cidade. Mas talvez tão importante quanto o “Anel” será a prioridade dada aos modos suaves, neles se incluindo os percursos pedonais e os 76 quilómetros de vias cicláveis já planeados para executar na cidade nos próximos dez anos, com vista a servir cem mil habitantes e com a meta de dez mil utilizadores regulares da bicicleta como meio de transporte.
 
 
“Anel” irá ligar zonas Este e Oeste de Braga
O cenário para a construção de um sistema de BRT que foi apresentado compreende a construção de um “anel” constituído por duas linhas que se unem nos topos, onde ficarão localizados dois interfaces multifuncionais. Estes interfaces, localizados nas “portas” Este e Oeste da cidade irão constituir um aspeto fundamental para o sucesso do novo sistema e para a mobilidade de Braga. Quem chegar à cidade, encontrará um interface onde pode deixar o seu carro em segurança, aproveitar o comércio de conveniência e depois escolher uma das duas linhas que, no fundo, tocam os destinos mais procurados no centro. O “Anel”, complementado por uma rede de bike sharing, com vias cicláveis seguras e de malha fina, permitirá garantir elevados níveis de mobilidade em todo o centro urbano de Braga, desde Ferreiros a Gualtar, incluindo os principais equipamentos e serviços públicos, bem como o Campus Universitário, o Centro Histórico e estação de comboios.

 
As vantagens do BRT
O BRT consiste numa operação em autocarro que utiliza uma infraestrutura dedicada para oferecer um serviço de qualidade aos utilizadores. Tipicamente, um BRT ou Busway deverá operar num corredor exclusivo para evitar congestionamentos de trânsito, além de circular ao centro da via.
As estações devem ter cobrança de tarifa fora do veículo para diminuir atrasos no embarque e desembarque dos passageiros, a altura do piso deve estar ao nível do passageiro e os autocarros devem ter prioridade nos cruzamentos. Segundo Baptista da Costa, «um sistema BRT consegue ser tão bonito e tão eficaz como um metro ligeiro, mas com um terço dos custos e com maior flexibilidade. Dificilmente conseguiríamos justificar o investimento necessário para um metro ligeiro numa cidade com a população que Braga tem».


Investimento de 15 a 20M€ na renovação de frota
Outro dos projetos que faz parte do PMUS é a remodelação da atual frota de autocarros dos TUB. A empresa prevê que será necessário uma verba na ordem dos 15 a 20 milhões de euros para renovar grande parte da frota de 120 autocarros. Com uma idade média de 16 anos, quando o máximo europeu é de 12, Baptista da Costa ressalva que «daremos resposta a necessidades urgentes que têm que ser supridas no imediato, com recurso a viaturas convencionais. A médio prazo, o “Anel” será a resposta inovadora às necessidades da cidade do século XXI - Braga, My Place in XXI».


TUB celebram parceria com Universidade Católica
Os TUB e o Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa assinaram um protocolo, que visa uma parceria em áreas como a comunicação, apoio ao recrutamento de pessoal e realização de inquéritos de satisfação. Este protocolo, que formaliza uma colaboração já existente nos últimos meses, traz consigo o objetivo de realizar “novos projetos para a melhoria do desempenho dos TUB”, refere a empresa. De acordo com Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga, a aproximação da Câmara aos centros de conhecimento “é fundamental para a injeção de inovação”. Ricardo Rio defendeu ainda que, quanto ao setor dos transportes, “é impossível admitir que os bons resultados possam ser obtidos apenas com base em questões empíricas”, sublinhando que tal se obtém “pelo conhecimento profundo da realidade, pela análise das dinâmicas de mercado e daquilo que são as verdadeiras aspirações das pessoas”.

Pedro Costa Pereira
in TR 142
 
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