4/3/2020


Afinal os transportes públicos são essenciais?

A crise que estamos a viver relacionada com a pandemia que nos invadiu, tem sido, e certamente continuará a ser nos próximos tempos, muito marcante e muito desafiante para todos, pelas razões de todos conhecidas, pelo que me dispenso de as desenvolver.

O que gostaria de destacar é a forma como a sociedade, nos dias de hoje, tem valorizado muito daquilo que anteriormente dava por adquirido, e dada importância a tantos aspetos da vida que ainda há poucas semanas lhe passava despercebidos.

O mesmo se passou com algumas atividades económicas que, nestes tempos de exceção, acabam por ter maior visibilidade, e que antes passavam pela vida das pessoas quase sem a população dar por isso.

E não se apercebiam delas exatamente porque toda a sociedade funcionava normalmente. E quando assim é, quando não existe nenhuma perturbação funcional e os cidadãos têm acesso a todos os serviços sem nenhuma restrição, acabam por desvalorizá-los ou, o que é pior, esquecer-se deles e da sua importância vital para as suas vidas.

Estou a falar das atividades habitualmente classificadas como de interesse geral, indispensáveis à sociedade porque fundamentais para garantir o funcionamento de todos os outros setores de atividade, entre as quais os transportes públicos.

Mesmo com frequências reduzidas, face à redução de procura devido ao recolhimento generalizado que agora se verifica, mesmo com horários de fim de semana ou de verão, os transportes públicos não pararam. Porque não podem parar. Por isso é que são uma atividade económica de interesse geral. Porque nem todos têm ou podem usar transporte individual. Porque todos temos o direito de optar por usar o transporte coletivo, mesmo tendo alternativas, como um serviço público, como algo que os poderes públicos e as autoridades garantem à população.

E é esta característica que nem sempre é detetada pela população, sobretudo em tempos de normalidade.

Mas o que é mais interessante (e preocupante!) é que na mente de muitos políticos, agora à frente das novas autoridades de transporte, essa relevância, essa indispensabilidade do transporte público, ainda não tinha sido percecionada.

Efetivamente, um dos méritos que esta situação de pandemia teve na nossa vida comunitária, é que fez compreender àqueles responsáveis que ainda o não tinham percebido, a importância dos transportes públicos para a vida de todos nós.

O trabalho que tem vindo a ser feito entre autoridades de transporte e operadores de transporte público com vista à adaptação da oferta de transporte ao momento tão excecional que vivemos – mas sem nunca deixar de garantir o serviço público – é disso um belíssimo exemplo.

Faço votos para que, depois de ultrapassarmos esta crise, possamos todos ter aprendido alguma coisa, e aproveitar esses ensinamentos para construirmos um sistema de transportes públicos que sirva adequadamente a população dentro de princípios de rigor e de sustentabilidade.

Por: Luís Cabaço Martins
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