7/9/2018


Seminário Interfaces Portugal
Porque existe falta de motoristas em Portugal?

A falta de motoristas para o transporte de passageiros e de mercadorias continua a gerar discussão entre todas as entidades do setor, sejam elas empresas, motoristas, o Governo ou agentes formadores. As reivindicações são muitas mas as soluções e consensos pecam por tardar, descredibilizando cada vez mais um dos setores-chave da sociedade.



A Interfaces Portugal organizou, no passado dia 7 de junho, um seminário “Em nome da mobilidade”, no qual foi discutido, entre outros assuntos, a falta de profissionais motoristas em Portugal. A sessão “Causas, consequências e soluções sobre a falta de motoristas em Portugal” teve como convidados Pedro Gonçalves, representante do departamento de formação da ANTROP, e Nelson de Sousa, vice-presidente da ANTRAM. O debate foi moderado por José Monteiro Limão, diretor da Transportes em Revista. Aceso e aberto a discussão, o debate teve início de forma simples e assertiva: Porque é que existe falta de motoristas em Portugal? Nelson de Sousa afirmou que «se a resposta fosse clara, não estávamos aqui». Na opinião do vice-presidente da ANTRAM, «hoje a classe abandalhou-se e isso nota-se até pelo simples cumprimentar do motorista» (no caso do transporte de passageiros). Para o responsável, «as empresas precisam de profissionais competentes», mas «continuam muito focadas na condução e pouco nos profissionais».

No entanto, Nelson de Sousa acredita que «a profissão está mais fácil hoje em dia e, no geral, existem melhores profissionais». A questão do vencimento auferido pela maioria dos motoristas é o ponto mais vezes apontado para a falta de profissionais em ambos os setores (transporte de passageiros e mercadorias). Nelson de Sousa recordou que «ser motorista não é só conduzir» e que «as relações interpessoais têm ganho maior importância, apesar de ser um fator que tem sido desvalorizado». Segundo o vice-presidente da ANTRAM, «há uma preocupação no terreno para termos, sobretudo, melhores pessoas».

Formação afasta profissionais
Já Pedro Gonçalves, responsável do departamento de formação da ANTROP, começou por reforçar que «o ponto principal da discussão está no custo e tempo da formação» obrigatória dos profissionais. «A formação assusta e afasta pessoas do setor». Uma das consequências é o aumento da faixa etária entre os profissionais do setor, com uma percentagem elevada de motoristas com 50 anos ou mais.

«A faixa etária dos motoristas é elevada» e como tal, «temos de recrutar motoristas jovens, incentivando-os de formas mais apelativas». Este incentivo, segundo Pedro Gonçalves, não passa exclusivamente pelo aumento do vencimento mas também por fatores sociais. «Os motoristas não querem estar tantos dias fora, querem estar no seu país, junto da sua família». Na opinião do responsável da ANTROP, «a imagem do motorista melhorou» nos últimos anos, um paradigma (negativo) que ainda assim subsiste quando o setor é debatido na agenda mediática.



Retomando a palavra, Nelson de Sousa destacou o facto dos jovens quererem «tudo na hora» e de estarmos atualmente a viver na «geração do já». Para o vice-presidente da ANTRAM, a «progressão na carreira passa ao lado da maioria dos empregadores». Quando a formação é apontada como contrapartida à entrada de motoristas para o setor, quer pelo custo, quer pela morosidade e burocratização da mesma, Nelson de Sousa questionou-se também «porque é que a prática não se faz em contexto laboral» durante um período de tempo mais alargado.

Agir o quanto antes...
Confrontado sobre a evolução tecnológica que atravessa o setor dos transportes – nomeadamente a automação, com a prática de platooning, Nelson de Sousa não acredita que estas práticas podem, ainda, «ser vistas como uma ameaça», sublinhando que «é necessário acrescentar valor humano» à prática do transporte e da mobilidade.

O vice-presidente da ANTRAM passou ainda a mensagem de que «as empresas já não são o que as pessoas pensam» e que no caso da ANTRAM, a empresa «tem a mais jovem direção de sempre a trabalhar na apresentação de propostas e soluções para a melhoria do setor». Todavia, ressalvou, «o nosso trabalho não é fácil».

No final do seminário, Fernando Costa, CEO da Interfaces Portugal, rematou que a formação é um elemento fundamental para a profissionalização dos motoristas que não deve ser descredibilizada. Por outro lado, o responsável afirmou que «a mentalidade das empresas em adaptar-se tem de ser imediata», ao mesmo tempo que a formação deve ser «personalizada a cada motorista». Em jeito de conclusão, Fernando Costa reiterou que «não há mobilidade se não houver motoristas».


A mais-valia da mulher ao volante
O seminário da Interfaces Portugal teve ainda como keynote speaker Elisabete Jacinto, piloto de camiões de competição e o rosto nacional feminino mais conhecido ao volante de um veículo pesado. Sob o tema “Capacidade de adaptação das mulheres à profissão de motorista”, Elisabete Jacinto contou na primeira pessoal os desafios que se colocaram para tirar a carta de veículos pesados e chegar à alta competição.

Elisabete Jacinto associa a fraca adesão das mulheres ao mundo do veículos pesados pelo «grande preconceito que criámos na sociedade, de que os camiões são para homens». Ao mesmo tempo, aponta que «a culpa é sobretudo nossa, mulheres. De facto, somos nós que educamos os nossos filhos e que transmitimos os princípios e os valores».

A piloto é da opinião que nas últimas décadas assistimos a uma (r)evolução tecnológica e digital, ainda assim, os valores mantêm-se os mesmos, passando de geração em geração sem nos questionarmos da sua atualidade. Perante a plateia, Elisabete Jacinto questionou: «que motivo há para que as mulheres não conduzam camiões?».

A piloto recordou a dificuldade de outros tempos da mulher se sentar ao volante de um veículo pesado, rodar a direção ou colocar as mudanças, pelo simples facto das viaturas serem rígidas e pesadas. Todavia, hoje, a realidade é outra: «os camiões são absolutamente desenvolvidos; a tecnologia de ponta é primeiro aplicada nos camiões e só mais tarde nos automóveis; basta quase ligar o motor que o camião anda sozinho; não é preciso força física para conduzir um camião», atirou Elisabete Jacinto.

Na sua opinião, «existem alguns pontos que nos são favoráveis: as mulheres são muito concentradas, conseguem estar horas a fio concentradas numa tarefa, sem se deixar levar por distrações».

A questão da segurança é outro ponto a favor das mulheres, segundo Elisabete Jacinto. Para si, a mulher tem uma aptidão e zelo pela sua segurança e pelos que a rodeiam, superior ao homem. Além disso, «a mulher está numa fase de conquista, de provar que é capaz de ascender a cargos que antes não eram ocupados por si».

por Pedro Venâncio
 

Por:
Fonte: