6/5/2018


Os transportes públicos e as pessoas: podemos viver sem carros?

Dado o seu interesse para a nossa reflexão sobre ‘que transportes públicos deveríamos ter em Portugal’, numa altura em que tanto se fala do tema a propósito da contratualização dos serviços, vou analisar as principais conclusões de um recente inquérito promovido pela DECO aos utilizadores de transportes públicos das cidades de Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra e Setúbal.

Uma das principais conclusões do inquérito, é a de que as pessoas não utilizam mais os transportes públicos porque eles não respondem, no essencial, às suas necessidades de mobilidade. E dão o exemplo de uma família que faz o percurso casa-trabalho-casa passando pela escola para deixar e trazer os filhos. Têm de utilizar o seu carro particular porque os transportes públicos não lhes permite fazer este percurso em tempo útil.

Esta questão das necessidades de mobilidade das populações e a resposta que os transportes públicos têm para dar é muito interessante e muitas vezes deficientemente analisada.

Em primeiro lugar, o transporte público (TP) não se substitui integralmente ao transporte individual (TI), isto é, o TI tem e terá sempre muitas vantagens relativamente ao TP, designadamente no que se refere ao conforto e à flexibilidade no seu uso.

Costumo até dizer que o transporte individual, em muitas situações, é imbatível, quando se compara com o transporte público.

Por outro lado, e por definição, os transportes públicos dificilmente resolverão sempre e de forma satisfatória, todas as nossas necessidades de mobilidade. Não podemos ter um sistema de transportes moldado, construído a pensar em todos e em cada um dos cidadãos. Por isso, esta comparação direta que é feita entre TP e TI sobre quem responde melhor às necessidades de mobilidade é falaciosa. Até porque esta comparação tem sempre como referência-padrão o automóvel particular.

No inquérito a que fizemos referência, quase 80% dos inquiridos diz que usa o TI em detrimento do TP porque “as soluções (de transporte público) existentes nas suas cidades não respondem de todo às necessidades que têm para se deslocarem diariamente”, e também porque não há “uma rede de transportes públicos que supra necessidades reais”.

A resposta das pessoas está obviamente condicionada à expetativa que foi criada relativamente à satisfação das necessidades de mobilidade tendo como exemplo a resposta que a utilização do carro particular nos dá. Assim, o transporte público perderá sempre.

Mas terá de ser necessariamente assim? Tendo em conta os bons exemplos com bons resultados que muitas cidades e regiões da Europa e fora da Europa nos dão, sou tentado a responder esperançosamente que não, não tem que ser necessariamente assim.

A este propósito, olhemos para outra conclusão interessante do inquérito: “a opção pelo meio de transporte é decidida a partir de fatores como a duração da viagem, o custo e o conforto, por esta ordem, e que para a opção pelo automóvel concorrem o tempo usado na deslocação, a flexibilidade, o conforto e o custo”.

O fator mais importante para as pessoas e que é decisivo para a escolha entre TP e TI é a duração/tempo usado na viagem.

Aqui o transporte público pode ser competitivo e ter até melhores performances que o carro particular. Basta que se criem condições mais favoráveis de circulação para o transporte público, reforçando os constrangimentos para o uso do transporte individual (vias dedicadas para o TP versus redução do espaço para o TI; agravamento dos custos de estacionamento, etc.).

Naturalmente que, a par destas iniciativas, teremos de ter um sistema de transportes públicos organizado, integrado e que funcione, dando aos seus utilizadores, frequência, fiabilidade e segurança. É que, neste mesmo inquérito, as falhas e os atrasos dos transportes públicos são um dos fatores determinantes para a opção de mobilidade das pessoas recair no automóvel particular.

Mas este trabalho da DECO termina com uma nota de esperança: de entre os cidadãos inquiridos utilizadores de carro, “cerca de 85% estariam disponíveis para abandonar o transporte individual, caso houvesse uma articulação maior entre os transportes públicos e as suas necessidades”.

Por isso, continuo sem saber porque tardam em ser aplicadas em Portugal soluções que foram usadas em muitos países e com muito sucesso.

Mas uma coisa eu sei: A contratualização não é a panaceia de todos os males, nem a solução para tudo aquilo que ainda não foi feito.

por Luís Cabaço Martins

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