1/10/2018


Mobility on the Move 2017
“O carro pode usar a cidade, não pode é abusar dela” - José Manuel Viegas

Na emergência das novas formas de mobilidade sustentável, decorreu no passado mês de outubro, no Grande Auditório do ISCTE, o Mobility on the Move 2017. O evento promoveu o debate sobre a digitalização, a revolução energética e a partilha, conceitos que transformam, grosso modo, os novos modos de mobilidade.



O Mobility on the Move 2017 reuniu um painel de oradores para debater a temática da mobilidade sustentável e os desafios que se avizinham para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos nos grandes centros urbanos. No painel de convidados, estiveram presentes José Mendes, secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, Vasco de Mello, presidente do Grupo Brisa, o professor José Manuel Viegas, secretário geral do ITF – Internacional Transport Forum, Pedro Barradas, ‘Policy Officer’ da ‘DG Mobility and Transport’ da Comissão Europeia e Luís D’Eça Pinheiro, diretor de Marketing e Relações Internacionais da Brisa, entre outros.

Houve ainda tempo para a apresentação de novos serviços e negócios de mobilidade de diversos operadores nacionais ligados ao setor dos transportes, assim como foram apresentadas ideias inovadoras de startups nacionais que pretendem dar resposta aos crescentes desafios do setor.

Em “cima da mesa” a Brisa tem o projeto Via Verde Boleias, uma forma mais económica de viajar em modo partilhado com outros utilizadores da plataforma. Em declarações à Transportes em Revista, Luís D’Eça Pinheiro disse que «relativamente ao Via Verde Boleias, o que temos estado a fazer é conseguir uma solução robusta. O ‘timing’ de lançamento vem ao encontro da análise de qual será, de uma perspectiva comercial, a melhor altura para lançar». O responsável adiantou que «ainda não temos um produto como gostaríamos de ter, mas estamos a trabalhar. Até ao primeiro semestre do próximo ano estaremos em força no mercado». Confrontado sobre a multiplicidade de soluções de mobilidade oferecidas pela Brisa, Luís D’Eça Pinheiro diz existir «um atropelamento saudável» entre o carsharing DriveNow ou o Via Verde Boleias, por exemplo. «Cada iniciativa vale por si própria. O todo [da Brisa] é maior que a soma das partes».

O diretor de Marketing e Relações Internacionais da Brisa revelou que «estamos a olhar para todas as áreas e a trabalhar, não só do ponto de vista de situações operacionais, mas também situações tecnológicas». Contudo, não deixou antever datas de lançamento, apenas que «a única coisa que nós acreditamos é que no ano de 2018 iremos ter novidades em diversas frentes». Luís D’Eça Pinheiro revelou que os próximos projetos de mobilidade da empresa «passam por parcerias», pelo que «a velocidade a que aparecem novidades está dependente da velocidade dos próprios parceiros». Sobre estas “novidades”, o mesmo adiantou que «estamos abertos a qualquer tipo de solução», seja ela «mais próxima da chamada ‘shared economy’ ou da tradicional cobrança. Não temos restrições, desde que haja parcerias e modelos viáveis». E conclui: «o importante é termos soluções úteis para os clientes e que tenham sustentabilidade do ponto de vista económico. O setor da mobilidade vai beneficiar da Brisa e de outros ‘players’».

A mobilidade foi o tema transversal de todo o painel convidado no ‘Mobility on the Move 2017’. À Transportes em Revista, o Professor José Manuel Viegas, questionado sobre o papel dos operadores de transporte público em relação ao aparecimento contínuo de novas formas de mobilidade, inclusive, ligadas ao automóvel ligeiro, esclareceu que estes «já perceberam que o jogo vai mudar» e que «há muitos poucos atores que estão numa posição rígida». Contudo, alertou que «cada um deles tem de encontrar a sua estratégia para não tentarem fazer todos a mesma coisa». Em relação ao automóvel, José Viegas afirmou que «há uma movimentação no sentido de que o carro seja utilizado de forma mais eficiente» e que muitos construtores já planeiam «como é que podem passar a ser um operador de transporte público em veículos de pequena dimensão».

Sobre a continuação da utilização do automóvel nos centros urbanos, agora de forma mais sustentável, partilhada e amiga do ambiente, ainda existem vozes discordantes. José Manuel Viegas sublinhou que «sempre houve pessoas mais radicais e que não perceberam em tempo útil a inércia do sistema. O carro pode usar a cidade, não pode é abusar dela. As pessoas hoje percebem que a cidade funciona mal e muitos dos cidadãos não têm a capacidade de diagnóstico para perceber que eles também contribuem para que funcione mal». A solução, avisou, passa pela «liderança política e das empresas, mostrando como e o que é que se pode fazer».

Na apresentação sobre a transformação da mobilidade nos centros urbanos, José Manuel Viegas, referiu que «a maior dificuldade são as barreiras à mudança» e que «nestes últimos 70 anos, as cidades e as nossas cabecinhas foram-se alinhando à presença do automóvel nas cidades». O docente afirmou que estamos perante um grande ciclo de mudanças, nomeadamente no que à conectividade digital, à eletrificação da rede, à automação e à mobilidade partilhada diz respeito, indicando que «o foco tem de ser o acesso das pessoas e dos produtos» à mobilidade.

José Manuel Viegas terminou a sua apresentação dizendo que «a coerência é uma dificuldade», uma vez que «estamos com um sistema em que há múltiplos níveis de decisão». Na sua opinião, as decisões de vários ministérios, com ideias e poderes separados, assim como a influência exterior de ‘stakeholders’ e entidades públicas vêm dificultar a necessária coerência de decisões uniformes nesta matéria. E sublinhou: «além do problema da coerência vertical e transversal, temos o problema de uma coerência longitudinal, ou seja, nada disto se faz no tempo de uma legislatura. Esta é uma área em que precisamos de uma fortíssima liderança inclusiva».

No painel de oradores do esteve ainda presente o diretor de Desenvolvimento Sustentável da Michelin, Bertrand Bonhomme, que falou sobre o compromisso da empresa ao nível da sustentabilidade ambiental. À Transportes em Revista, o responsável afirmou que «todas as fabricantes de pneus podem fazer parte de uma mobilidade mais sustentável. Cada pneu que a Michelin lançar vai ajudar a diminuir os níveis globais de CO2. Até 2030, queremos reduzir estes valores até 30%». Bertrand Bonhomme explicou que o posicionamento da Michelin evoluiu significativamente em termos ambientais pelo que, «através do ‘Michelin Solutions’ dizemos às empresas parceiras que não vendemos somente pneus, mas sim quilómetros».

Na sua opinião, este posicionamento traz benefícios para toda a cadeia do setor. «Se vendermos menos pneus, reduzimos os encargos das empresas, reduzimos os nossos níveis de emissões de fábrica e reduzimos, consecutivamente, os níveis de emissões de CO2 à escala global». O responsável pelo Desenvolvimento Sustentável da Michelin sublinhou que «temos de ser parte da solução, não somente uma empresa de pneus. Como agentes na cadeia de transporte, temos essa responsabilidade».

por Pedro Venâncio
 

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