1/9/2018


A tragédia dos incêndios
Vidas na mão

2017 fica marcado como o pior ano em matéria de incêndios em Portugal, desde 2005. Milhares de hectares ardidos, mais de uma centena de mortos, famílias desalojadas, fábricas e complexos industriais consumidos pelas chamas, gado queimado... Os ventos fortes e as temperaturas invulgares - acima dos 30 graus no outono – aliados a situações de criminalidade (fogo posto) e trovoada seca, provocaram cenários catastróficos em todo o território nacional, levando o Governo a decretar por duas vezes, três dias de luto nacional. Num cenário apocalíptico, quatro “heróis” do volante salvaram duas centenas de vidas do inferno das chamas. A eles, todos, o País agradece.



Eduardo Botto, António Castro e Fernando Alves são os rostos mais conhecidos da trágica noite de 15 de outubro de 2017. Cara a cara com as chamas, os três motoristas guiaram 150 vidas para segurança, no meio de um inferno que poucos ousam enfrentar.

Um mês depois da fase mais crítica dos incêndios em Portugal, a Transportes em Revista esteve em Viseu e falou com os três motoristas que arriscaram as suas vidas para salvar mais de uma centena de pessoas do inferno das chamas no interior do país. Ainda emocionados, os três profissionais descartam o rótulo de heróis, explicando, contudo, que foi uma experiência «muito marcante».
Com mais de 30 anos de experiência em transporte de mercadorias e passageiros, Eduardo Botto, natural de São João da Pesqueira, revela que «nunca pensei que iria passar por uma coisa destas na vida». Na noite de 15 de outubro, Eduardo circulava no IP3, entre Viseu e Coimbra, quando se viu rodeado por fumo e labaredas em ambos os sentidos. Incapaz de inverter a marcha, tomou a decisão de encarar as chamas e seguir em frente, sem visibilidade. «Não via meio metro à minha frente». Perante um cenário tão adverso, «as pessoas ficaram em pânico», relatou. As vozes agonizadas dos passageiros imploravam: «senhor motorista, não nos deixe morrer». Eduardo Botto admitiu que «sempre tive sangue frio» e que «tenho o instinto de que, tomada uma decisão, é difícil fazer-me recuar».

A coragem deste motorista impôs-se ao comando dos próprios bombeiros. «Eu não consigo virar o autocarro. Eu vou em frente e vocês [bombeiros] têm de me ajudar a salvar estas pessoas». Ultrapassando diversas viaturas imobilizadas, várias vezes em contramão e pelas bermas, conseguiu chegar a uma das pontes do IP3 e ganhar folêgo para o resto da viagem que, sem imaginar, mal tinha começado. Confiando no seu instinto, Eduardo disse aos passageiros: «eu vou enfrentar o fogo, eu vou conseguir! Eu posso morrer, mas morro aqui convosco, não vos abandono». Neste momento, garante, os passageiros «ganharam a minha confiança».

Apesar do final feliz, Eduardo disse que «tive mesmo a noção que íamos morrer todos. Eu podia ter fugido para o carro dos bombeiros, mas nunca pensei em deixar aquelas pessoas, nunca as abandonei». O profissional de Viseu confessou ter ouvido «jovens a despedir-se dos pais, dos namorados... que não iam vê-los mais...». Esta foi uma experiência irrepetível para a meia centenas de pessoas que viveram momentos dramáticos, horas a fio, no epicentro de um dos piores incêndios deste ano em Portugal. «Nem acredito naquilo que se passou. Foi um grande milagre. Só quem viveu aquilo é que tem noção do que se passou», admitiu Eduardo Botto.

No final da viagem, «abraçaram-me todos», confessou. «Os pais dos miúdos, todos me agradeceram, todos me abraçaram». Eduardo confessou ainda não ter chorado, «só depois... mas na altura não dei parte de fraco...». O motorista da Transdev disse à Transportes em Revista que não está «à espera de prémios... eu não quero nada. Um simples obrigado, um aperto de mão, um abraço, é o suficiente».

De volta à rotina, Eduardo Botto deixou críticas a algumas decisões por parte das autoridades naquela noite. «Tinha de haver mais autoridades, mais comunicação a priori. Ninguém nos avisou. Não havia informação de lado nenhum». O profissional disse ainda que deve existir «uma força em conjunto» para que não se repitam situações semelhantes e que «há autoridades que têm de colaborar mais». No final, Eduardo foi peremptório e afirmou: «há muitas pessoas que se envaidecem com a farda. Nós motoristas também temos uma farda». Na mesma noite, Fernando Alves, de Condeixa-a-Nova, transportava meia centena de excursionistas no regresso de uma visita a Canas de Senhorim. Entre Vouzela e Tondela, o motorista da Transdev viu-se obrigado, por diversas vezes, a seguir por estradas alternativas e a deslocar a viatura para zonas abrigadas pelo forte vento que insistia em fortificar as chamas. Parado numa área de serviço, e pensando que estaria em segurança, viu-se cercado por múltiplos focos de incêndio que o obrigaram a tomar a decisão de, mais uma vez, fugir do inferno.
«Vamos morrer aqui (na área de serviço) todos. Não temos hipóteses. Vamos fugir para onde?», contou Fernando Alves à Transportes em Revista. A repentina propagação das chamas ameaçou a área de serviço onde centenas de pessoas pensavam estar seguras. «Saímos da área de serviço em contramão. Fomos o último autocarro a sair». Com a traseira da viatura parcialmente queimada, e esgotada mais uma alternativa, Fernando Alves perguntou-se vezes e vezes «para onde é que eu vou levar estas pessoas»?

As decisões de Fernando Alves foram preponderantes, uma vez que grande parte dos seus passageiros eram idosos, com naturais dificuldades de locomoção. «Desmaiaram pessoas», contou. «Não se via mais de cinco metros para a frente». Com o pânico instalado entre os passageiros, Fernando teve de tomar uma decisão. «Vou para o Terminal de Tondela. Não há perigo... pensava eu...». Os gritos de aflição entre os idosos marcaram o motorista: «Tire-nos daqui Fernando, tire-nos daqui para fora que nós vamos morrer queimados...».
Reinava a desorientação entre os populares. Fernando, confessa: «Eu tive de falar mal às pessoas... “à português”... para entrarem no autocarro. Tive de ser brusco com eles porque a determinada altura só metade é que queria entrar no autocarro. Foi uma situação muito complicada». O sangue frio e a coragem guiaram Fernando e os seus passageiros para uma zona mais tranquila, numa rotunda em Tondela. «As pessoas tentaram rezar mas nem isso conseguiam... ouvimos botijas de gás a explodir em vários sítios. Aquilo parecia o fim do mundo, parecia que íamos morrer todos».

Fernando Alves diz que às vezes «parece que é Deus que nos guia, e nos diz para irmos ou ficarmos quietos nos momentos certos». Parado em Tondela, o motorista acabou por não seguir para o terminal, que ficou fustigado pelas chamas. «Alguma vez eu imaginava que o fogo chegava ali»? A viagem só terminou na manhã seguinte, quando Fernando entregou cada passageiro na sua residência em segurança. «(No final) entreguei as pessoas de porta em porta, como no outro dia de manhã tinha recolhido. Graças a Deus correu tudo bem. Foi um final feliz. Mas foi doloroso... muito doloroso...».

À Transportes em Revista, Fernando Alves confessou: «nem fiz questão, na empresa, de dizer o que tinha acontecido. E mesmo quando cheguei a casa, pouco mais adiantei». O reconhecimento público, explica, «só aconteceu porque um passageiro escreveu uma carta à gerência. Esse passageiro descreveu tudo o que vivemos e o que eu fiz para salvar aquelas pessoas». Como profissional do volante, o motorista afirmou que «a gente tenta sempre fazer o nosso melhor, pensando em nós e em cada passageiro». O sucesso dos acontecimentos, garante, deveu-se igualmente ao facto de «eu conhecer muitas daquelas pessoas, e elas a mim, porque já tinha feito vários serviços ocasionais com elas. Nós já somos uma família. Elas confiaram totalmente em mim».

No regresso ao trabalho, Fernando diz ter recebido «vários telefonemas nos dias a seguir», assim como o reconhecimento por parte da empresa. Tal como Eduardo Botto, este motorista critica algumas decisões das autoridades e de quem só trabalha «em cima da mesa», sublinhando que «se há alerta vermelho tem de haver mais prevenção». Apesar de ter sido um «caso invulgar», Fernando acredita que a formação dos profissionais é de extrema importância. «O saber não ocupa lugar. Muitos motoristas ficariam bloqueados...». Já no final da conversa, Fernando Alves confessou: «a minha alma ficou limpa...».
Mais contido nas palavras foi António Castro, natural de Pinhel, do distrito da Guarda. Profissional há cerca de cinco anos, confessou que não passou por tantos «sustos como os colegas», apesar dos incêndios terem interrompido o seu percurso entre Porto e Viseu. Confrontado com chamas, disse ter passado pelo «meio do fogo na A6». Retido em Albergaria das 20h00 até às 10h30 da manhã seguinte, António Castro desabafa não ter vivido para o susto. «As pessoas só me pediam para as levar para casa». Tal como o colega Fernando Alves, a história de António só ficou conhecida publicamente quando os passageiros do seu autocarro destacaram a sua capacidade de liderança, mostrando-se incansável no apoio e conforto prestado aos passageiros ao longo de toda a noite.

Além destes três profissionais, a Transportes em Revista chegou à conversa com outro “herói” da noite de 15 de outubro. Rui Joaquim, da Rodoviária de Lisboa, transportava 50 pessoas num serviço ocasional entre Valença e Lisboa quando também ele se viu envolvo num túnel de chamas na A17. «Éramos um grupo de 50 pessoas», disse. «Quando vínhamos para baixo, já de noite, tivemos a A1 cortada na zona de Aveiro e fomos obrigados a seguir pela A25 e depois pela A17 para Lisboa...».

Rui Joaquim relatou que «começamos a ver vários focos de incêndio mas nunca perto da estrada». Contudo, prosseguiu: «houve uma altura, numa curva em Ílhavo, em que o fumo começou a aumentar e reparei em vários ligeiros a abrandar». A sua reação foi «meter uma (mudança) abaixo e desviar-me para a faixa central, nunca parando». Durante cerca de 500 metros, contou, «à medida que avançávamos por entre o fumo negro, senti o calor e os vidros cada vez mais quentes...».

«O vento forte», explicou, «projetava o fogo e as árvores para a estrada. Foi uma sorte ninguém ter parado à minha frente». Rui Joaquim confessa não ter visto autoridades nesta autoestrada, «só no desvio da A1» e que «as pessoas andavam um pouco à mercê... não sabiam o que haviam de fazer...». O mesmo acredita que «se tivesse parado era pior», apesar de ir «sempre a acelerar ao máximo». O motorista disse ainda que «se tivesse avançado na faixa da esquerda, os vidros teriam estoirado...».

Dentro do autocarro «as pessoas estavam em silêncio absoluto», relatou. Apesar do susto a situação melhorou já a caminho de Lisboa. No resto da viagem, «as pessoas bateram palmas, vieram agradecer-me». Rui Joaquim acredita que «tivemos um bocadinho o fator sorte», mas que fez aquilo «que qualquer colega faria». Sobre os eventos extraordinários daquela noite, Rui disse que «não foi uma coisa normal. Na minha ideia, foi fogo posto».
O motorista da Rodoviária de Lisboa explica que os profissionais têm «apenas formação de condução defensiva», e que nada faz prever acontecimentos deste género. «Nós nunca sabemos tudo, no dia a dia é que vamos aprendendo... apesar da formação, ninguém está preparado para uma coisa destas».
Confrontado com a atuação das autoridades em cenários como estes, Rui Joaquim preferiu alertar que «uma das coisas que as autoridades podiam fazer mais era a fiscalização aos passageiros. Nós avisamos, e os bancos estão assinalados para a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança, mas poucos os colocam. Numa situação de travagem brusca, é complicado...».

Rui Joaquim concluiu na conversa com a Transportes em Revista que «é muita responsabilidade. Eu costumo dizer que a estrada é uma selva». Bem-disposto, sorriu e disse: «tenho um lugar no céu».

Valorizar os profissionais do volante
É preciso não esquecer que um profissional do volante transporta a vida de centenas de pessoas, todos os dias. O contacto faz-se a cada viagem. A empatia entre motoristas e passageiros nem sempre é a melhor e só em situações extraordinárias se dá o valor a estes profissionais. O reconhecimento deve ser dado em cada viagem, pois é a liderança em si depositada que pode fazer a diferença na hora de conduzir dezenas de vidas para segurança.

Estas histórias, e outras que ficaram certamente por contar, devem ser encaradas como atos de coragem, solidariedade e profissionalismo. Fica o apelo às autoridades, às empresas e às operadoras de transporte para o desenvolvimento de estratégias de comunicação conjunta e formação dos seus profissionais para casos semelhantes. Valorizar os profissionais do volante só trará vantagens ao melhoramento do serviço de transporte de passageiros. Não discutimos salários, não discutimos horários. Discutimos a sua formação enquanto motoristas especializados, enquanto Homens e Mulheres responsáveis por centenas de vidas, todos os dias. Se valorizamos um piloto de avião porque não valorizar de igual forma um motorista? A “carga” é a mesma: vidas humanas. Ao falar com estes motoristas, é notável a complacência com que desempenham o seu trabalho em cada turno, em cada viagem. Fernando Alves confessou: «gostarmos daquilo que fazemos, foi meio caminho andado para as coisas terem corrido bem. Tudo isto tem influência».

por Pedro Venâncio

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