11/9/2017


O “fado” da nossa vida

Continuo triste e desolado.

Voltaram a morrer muitas pessoas e pessoas muito boas.

Continuam a cantar-nos o sofrimento, a saudade de um “amor perdido”, a tragédia, a desgraça, a sina e o destino, a dor, o país e as misérias da vida e a saudade de um tempo futuro, que nunca mais chega.

Depois do anúncio público sobre a pouca importância da bitola, eis que surge a notícia de que Portugal prepara a aquisição de material ferroviário dual, bi-tensão e bitola variável. Estamos assim perante um novo paradigma, deixamos de lado o dos três I’s (Intermodalidade, Interoperabilidade e Infraestrutura) e passamos a conhecer um novo, a POLIVALÊNCIA. Esta passa agora a ser a palavra de ordem, pois a ideia são comboios dual, que tanto podem circular em vias eletrificadas, como ainda através de tração diesel-elétrica em vias não eletrificadas, cobrindo assim toda a malha ferroviária do país e ainda bi-tensão, podendo circular em vias eletrificadas com 3.000w ou 25.000w, podendo assim chegar aos territórios espanhol, francês e, quiçá, à Linha de Cascais.

Desculpem lá a minha falta de senso e o meu pessimismo e esmorecimento, mas para quem ainda, em quase 30 anos, não conseguiu modernizar a Linha do Norte, não adquire material circulante desde a década de 1990, não chegou a acordo com o traçado de Bitola UIC, não construiu um metro de via para Alta Velocidade, não investe em Terminais Rodo/Ferroviários/Marítimos, nem conseguiu definir, por exemplo, o que é um Porto Seco (finalmente parece que foi criado um grupo de trabalho para esta questão), não vos parece ser de um otimismo desmesurado anunciar isto tudo? Ambição sim, mas q.b. Não tenho a mínima dúvida de que seria um enorme passo para a modernidade ferroviária nacional, diminuindo as distâncias, interligando cidades e países vizinhos, ao fim ao cabo, o que todos almejamos, mobilidade integrada. O meu pessimismo não é grátis, nestes anos em que vivo na ferrovia o que me parece ser o grande entrave acaba por ser o nível de colaboração; até onde, cada um de nós, está disposto a chegar? Esta é uma questão que tem a ver com aspetos culturais, como a confiança e com o ”mindset”, nacional. Pode ter várias razões ou apenas a proteção do meu “EU”, do meu território ou então optarmos por atitudes mais abertas de trabalho, de colaboração e de construção conjunta. Esta mudança de atitude é que é difícil conseguir em Portugal, talvez devido à nossa cultura e à mentalidade de cada um ter a sua “quinta”, ou tão só porque somos o País do “FADO”.

Não há forma de dissociar as coisas. Quando queremos falar de algo sério não pode ser contando “estórias”. As mesmas que se sustentam em relatórios e mais relatórios, em legislação, em grupos de trabalho, regulamentação, procedimentos e normas, produzidos para que a nossa vida seja melhor, mais segura, mais democrata, mais social, mais igual entre todos. Servem afinal para não dizer nada e não passam de meras histórias para os nossos ouvidos, tal como se faz com os bebés para adormecerem.

Depois somos ainda o País das vitórias morais. O que não aparece, fica esquecido. O que não nasce, não existe. Para se fazer algo em Portugal tem de se ser resiliente no dobro ou triplo dos outros, continuar a trabalhar arduamente, com esforço dedicação e muita abnegação para chegar à meta atingindo o objetivo (nem sempre definido), obtendo vitórias não morais mas de resultados, ou seja continuar a melhorar o que funciona bem e corrigir o que funciona mal.

Se concordam comigo, então por favor parem de nos contar histórias. Não acham que já perdemos todos tempo demais?

Às vezes apetece dizer “Nunca discutas com alguém que tem uma memória tão grande que nem se lembra do que nunca viu, nunca ouviu e nunca fez acontecer.”

Não vale a pena desesperar, um dia vai acontecer.

por António Nabo Martins

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