sexta-feira, 14 de Agosto de 2020

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
03-04-2020

A criatividade económico-matemática e a triste realidade
Desde há alguns anos criou-se uma enorme expetativa sobre o que iria acontecer no mundo dos transportes, sobretudo com a sua contratualização. Se, por um lado, havia aqueles que estavam em situações difíceis, em plena gestão de cortes e a adiar investimentos, numa tentativa desesperada de aguentar e confiando que com a contratualização melhores dias viriam; outros pensavam que essa ocasião seria uma excelente oportunidade de mudar de operador, de adotar viaturas amigas do ambiente e de ter um serviço que respondesse a todas as necessidades, a um custo inferior. E, foram-se passando anos, cada um gerindo como podia as necessidades e expetativas próprias de cada negócio, independentemente do seu papel.

Chegados aos dias de hoje, vemo-nos perante uma situação deveras curiosa: começaram a ser lançados os concursos – aqueles, os tão esperados! – que iriam resolver os problemas de uns e possibilitar a muitos dos outros livrar-se dos parceiros de até então.

Após alguma preparação das Autoridades de Transporte, nomeadamente com a contratação de técnicos e especialistas, anuncia-se com pompa e circunstância a nova fase da vida do transporte, com o regime de contratualização, ainda que de primeira geração (sim, porque na segunda tudo será diferente). Na realidade, muitos de nós, eu incluído, saem impressionados com os montantes anunciados. Mas, pouco a pouco, vai-se fazendo luz e começamos todos a chegar às mesmas conclusões: 1.ª) a rentabilidade do projeto será negativa; 2.ª) o risco associado à exploração, com base nas regras ditadas, é enorme. Isto porque muitos dos estudos não tiveram em conta as evoluções dos custos de condução e ainda a evolução dos custos dos combustíveis; 3.ª) a fórmula de atualização não reflete a realidade, o que leva a desvios de vários pontos percentuais por ano; 4.ª) são tidas em conta “possíveis receitas”, normalmente resultado do ocasional/turismo, sem que possam ser asseguradas de nenhuma forma num modelo aberto. Só que utilizam estes pretensos valores, com base em nada, sendo que na maioria das vezes esse mercado nem sequer existe ou está longe de ser o necessário para se atingirem os montantes indispensáveis a equilibrar a equação; 5.ª) o nível de exigência quer a nível de rotas, quer de equipamentos, faz com que com uma equação já de si deficitária incremente os riscos e piore ainda mais o problema.

No entanto, estão claramente definidos os pressupostos, as informações têm sido prestadas pelos operadores, de forma regular e possível, respondendo sempre às necessidades das variadas autoridades. Associado a tudo isto, os processos são validados centralmente, com um estudo económico que assegura a viabilidade do projeto. Isto faz parecer que muitos de nós têm andado distraídos e não têm feito o seu trabalho. É que na realidade bastará estar atento ao que se tem passado nas respostas aos concursos lançados.

Por que razão os concursos têm tido tão poucos concorrentes? Por que razão os processos que estão em curso e não ficaram vazios, ainda não avançaram? Será que os operadores não sabem fazer contas? Ou andamos todos num mundo virtual, completamente desligado do terreno, e os concursos lançados permitem, a quem faça meia dúzia de cálculos, perceber rapidamente os desastres que têm acontecido? Onde está a responsabilidade social? Não será tempo de corrigir as inúmeras asneiradas e tomar decisões sérias e objetivas? Creio que sim!

Deixemo-nos de brincar com tudo isto – quem o faz –, acabemos com os joguinhos de exercícios irrealistas, com brincadeiras matemáticas e, pelo menos, respeitemos aqueles que ainda nos privilegiam com a sua presença nos nossos autocarros.
por: João Queirós Lino
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