segunda-feira, 1 de Junho de 2020

 
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Passageiros & Mobilidade
03-04-2020

COVID-19 e Mobilidade Urbana
Há cinco anos Bill Gates defendeu a tese numa conferência da fundação Sapling nos EUA, de que a humanidade não estava preparada para enfrentar uma pandemia viral. Segundo ele, quando há décadas o maior perigo estava associado a uma possível guerra nuclear, atualmente, a maior ameaça seria uma infecção generalizada provocada por um vírus desconhecido. O problema é que, ao contrário do verificado no passado perante a eventualidade de um holocausto nuclear, hoje não temos os sistemas e os protocolos necessários para enfrentar o novo perigo, nem sequer a sociedade está preparada para o enfrentar em tempo útil. A possibilidade de solução passaria, ainda de acordo com Bill Gates, pela implementação de um conjunto de medidas, desde o reforço dos serviços nacionais de saúde, a articulação entre sistemas civis e militares na contenção e combate ao vírus, passando pelo reforço da investigação no domínio epidemiológico. Foi há cinco anos e, tanto quanto nos é dado perceber, pouco se avançou desde então. Estamos assim agora perante um problema que está longe de ser solucionado, apesar das medidas drásticas que têm sido tomadas.

Que consequências podemos retirar desta situação extrema para refletirmos sobre o futuro da mobilidade urbana? O fecho de escolas, centros comerciais e espaços de recreio e lazer, a que se somou com a declaração do estado de emergência, o confinamento de grande parte da população à sua residência, teve já um enorme impacte na mobilidade de pessoas e bens. Assistiu-se a uma diminuição brutal do número de deslocações quotidianas e consequente redução da utilização dos transportes – fossem públicos ou privados – como também no que se refere à logística e ao transporte de mercadorias, em resultado das consequências da pandemia ao nível da economia, muito acima do que se antecipava apenas há duas semanas.

Em Lisboa houve quem exultasse com esta diminuição do tráfego motorizado, apontando para os bons níveis da qualidade do ar registados e as ruas e praças sem automóveis, embora não deixando de apontar que continuaria a existir circulação automóvel não necessária… Será este o futuro desejável? Será com este tipo de medidas que se pretende resolver o problema da pressão do automóvel sobre os espaços urbanos centrais e nos seus acessos? A alternativa será continuar a apostar apenas no transporte colectivo, na mobilidade partilhada e nos modos ativos? É este o novo modo de vida com que nos acenam os “politicamente corretos”? Parece que estamos no domínio da anedota do “cavalo do inglês” que, quando quase não comia, acabou por morrer.

Pelo contrário, o que esta situação extrema nos veio mostrar é que, quando a mobilidade de pessoas e bens é reduzida ao mínimo indispensável, a economia soçobra e a sociedade, mais dia menos dia, se deslassa. Medidas drásticas como as atuais só podem ter uma duração temporal reduzida, sob pena de não nos reconhecermos na nova sociedade e não conseguirmos sobreviver social e economicamente. Será por isso útil aproveitarmos este tempo de crise para deixarmos de lado as ideologias que negam a realidade dos factos e pensarmos em alternativas exequíveis no contexto cultural, social e económico em que vivemos.

Significa isto que nada deve mudar e que o business as usual deve continuar a ser o alfa e ómega da nossa vida em comum? De todo! Mas é bom aprendermos com uma observação objetiva dos factos e entendermos os limites que as pessoas e a economia não estão preparadas para ultrapassar, pelo menos por agora. A nosso ver, as alternativas, no que respeita à mobilidade urbana, passam por uma maior articulação entre as políticas urbanas e as de acessibilidade e transportes, pela maior integração e complementaridade entre todos os modos, pelo potenciar do urbanismo de proximidade e por uma educação cívica mais centrada na pessoa humana e na solidariedade do que na competição e no sucesso individual a qualquer custo. A isto voltaremos em próximo texto.
por: Fernando Nunes da Silva
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