quinta-feira, 29 de Outubro de 2020

 
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Carga & Mercadorias
20-03-2020

Muda-se o ser, muda-se a confiança
o longo dos anos, e com uma experiência de vida adquirida, vamos deixando de ser surpreendidos pelas coisas mais insólitas e menos lógicas que vão acontecendo, ou que vão sendo tornadas públicas, tomando-as como naturais. Porém, a constatação de uma falta de memória coletiva é algo incompreensível.

Quando se houve falar na deslocalização da atividade atualmente desenvolvida na Bobadela para a zona de Castanheira de Ribatejo, com uma leveza, naturalidade e inconsciência ou desconhecimento da realidade e da importância de todas as operações que ali se desenvolvem, não deixa de ser surpreendente.

Após anos de estudos, projetos e de vários planos, parece que tudo foi em vão e não tiveram qualquer efeito ou utilidade, levando-nos mesmo a questionar porque é que ainda se estudam estes assuntos?

Porque é que se pretende agora fazer mais um estudo sobre esta deslocalização quando nos últimos 20 anos se criaram programas, estabeleceram-se planos e se desenharam estratégias nacionais a que ninguém ligou? Será que os estudos serviram para se poder decidir fazer exatamente o contrário das conclusões e recomendações dos mesmos? Ou para depois qualquer autarquia poder tomar decisões que afetam toda uma região ou mesmo o país e o seu sistema logístico?

O Estudo sobre a Rede Nacional de Plataformas Logísticas, realizado pelo Gablogis em 2002, o qual esteve na origem do Programa Portugal Logístico de 2006, o Estudo da Logística do Porto de Lisboa de 2005, O Plano Estratégico do Porto de Lisboa de 2006, o PET – Plano Estratégico de Transportes 2008-2020, de 2009, podendo-se enumerar muitos mais, foram todos em vão, pois parece que nada se aprendeu, nem resultou numa verdadeira estratégia que permitisse atrair investimento em projetos de médio e longo prazo, que levasse a um desejável, e há muito esperado, reordenamento logístico do território. Das plataformas logísticas previstas apenas uma se desenvolveu, que foi a de apoio ao porto de Leixões, com os seus dois polos, mantendo-se a Bobadela, já existente na altura, que deveria ter sido desenvolvida entre a Bobadela e o Sobralinho e, posteriormente, com menção no PET, o desenvolvimento de Castanheira do Ribatejo o que, em ambos os casos, não chegou a acontecer.

Infelizmente parece que a memória e o conhecimento é algo volúvel e etéreo, tomando-se por vezes decisões com base em dividendos eleitorais imediatos, ignorando-se tudo quanto se estudou e planeou, sem pensar no futuro do país, que somos todos nós, pondo-se de parte um objetivo nacional, macro e mesologístico, por um apenas local.

Os eixos logísticos polinucleados da Bobadela – Sobralinho, assim como o do Carregado – Azambuja, onde se inclui a zona de Castanheira do Ribatejo, são de uma elevada importância estratégica nacional e regional, sendo essenciais para o abastecimento do país e da cidade de Lisboa.

O desenvolvimento da zona de Castanheira do Ribatejo será sempre bem-vindo e necessário para a concentração e reordenamento de atividades logísticas que estão atualmente espalhadas por várias áreas onde não faz sentido existirem, mas a deslocalização da atividade que se desenvolve atualmente na Bobadela para a zona de Castanheira do Ribatejo, embora seja possível, pois tudo é possível, havendo dinheiro para o fazer, não faz, porém, muito sentido, pois a Bobadela é uma zona de concentração de atividade intermodal com infraestruturas e acessos ferroviários e rodoviários únicos, sendo um desperdício desses recursos, além de que terá certamente impactos diretos nos custos de transporte, devido ao aumento das distâncias a percorrer. Terá ainda impactos a nível ambiental, através de um aumento de emissões de CO2, que hoje são tão valorizadas, mas que parece serem ignoradas quando convém.

É certo que se por um lado mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como o nosso diretor mencionou no seu último artigo, por outro lado muda-se o ser e muda-se a confiança.

Como se pode esperar confiança por parte de quem investe se não se cumprem planos e estratégias nacionais de médio e longo prazo, sendo estas alteradas dentro de curtos espaços de tempo ao sabor dos interesses de políticas locais.
por: João Soares
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