sexta-feira, 10 de Abril de 2020

 
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Passageiros & Mobilidade
18-02-2020

Mobilidade partilhada 2.0: Juntar o útil ao agradável
“Mobilidade partilhada”! Uma definição tão clara como termos um amigo a dizer-nos que o seu filho “trabalha em computadores”. Ficamos sem saber realmente o que o filho do nosso amigo faz. Porque é um conceito vasto, que vai do carsharing ao ride hailing e neste artigo gostava de explorar algumas soluções digitais para apoio a sistemas de micromobilidade (bicicletas e trotinetas) e a dicotomia docked e dockless.

Comecemos pelos sistemas docked, que se caracterizam por dispor de locais e equipamentos próprios para parquear os veículos. Estes sistemas, com perfil de transporte urbano, são talvez os mais comuns, pois existem em várias cidades na Europa há já bastantes anos (Paris desde 2007 e Viena desde 2003, só para referir dois exemplos). Para os utilizadores têm a grande vantagem de serem previsíveis, pois os veículos estarão parqueados em locais previamente definidos, funcionando numa lógica de rede, ainda que virtual na medida em que os nós estão definidos, mas as ligações não. Para os operadores têm a desvantagem de, para serem de utilização conveniente, não carecerem de indicação prévia do destino de cada viagem por parte dos utilizadores, tornando o exercício de assegurar bicicletas nas possíveis origens (e docas livres nos possíveis destinos) um desafio hercúleo, de um nível de complexidade exponencial em função das variáveis que possam mudar na cidade em cada dia. Mas este desafio não surgiu agora – estes sistemas já operavam desta forma em Paris e Viena quando foram inaugurados, sendo que não é a “simples” eletrificação dos veículos que altera o perfil destes meios de transporte público – pode aliás exacerbar o fenómeno, pois a orografia passa a contribuir menos para a previsibilidade das viagens, pois toda a cidade passa a ser virtualmente ciclável.

Mas o que a digitalização lhes aporta hoje faz toda a diferença. Destaco duas soluções que podem fazer destes sistemas modos de transporte público efetivamente úteis no contexto da mobilidade urbana. A primeira veio introduzir uma elaborada análise de dados com base em algoritmos de inteligência artificial que permitem modelar o comportamento da procura do sistema na cidade e sugerir, ativamente, a distribuição dos veículos pelas estações. Esta solução chega ao ponto de indicar de onde retirar veículos na rede, em que quantidade, e em que estações devem ser recolocados, sendo portanto um instrumento de balanceamento ativo e inteligente da rede. Hoje é sabido que sem um mecanismo desta natureza, a qualidade de serviço que este tipo de sistemas deve oferecer é virtualmente impossível de atingir, pelo menos assumindo um universo razoável de recursos (homens e veículos), deixando o operador limitado pela desvantagem que enunciei e os utilizadores privados da grande vantagem da previsibilidade da oferta.

O outro exemplo de digitalização que potencia os sistemas docked é a sua integração numa plataforma de gestão da mobilidade. Imaginemos que um passageiro em viagem num percurso troncal (Sintra – Lisboa de comboio, por exemplo), pretende dispor de uma bicicleta para utilizar na última etapa da sua viagem (entre a estação de Entrecampos e a Praça do Saldanha, por exemplo). A integração dos sistemas informáticos permite, tranquilamente, que o passageiro faça a reserva online de um veículo na doca próxima da estação de comboio, de acordo com a política tarifária que possa ser estabelecida, ficando com a certeza de que ao chegar a este ponto da sua viagem poderá fazer o transbordo (de modo) de forma prática e rápida.

Passemos para os sistemas dockless, que se caracterizam pela dispersão dos veículos por múltiplos locais da cidade – virtualmente por toda a cidade. Este paradigma surge fortemente carregado de digitalização, pois toda a experiência se baseia no uso do telemóvel e de uma app, deste a sua génese em 2012, na cidade de São Francisco. Mas também aqui existem novas soluções digitais que permitem reforçar a conveniência e a utilidade destes sistemas.

A primeira é o conceito de doca virtual, em que algoritmos de apoio à operação permitem que o sistema tarifário convide o utilizador a terminar as suas viagens numa doca virtual – uma zona geográfica definida informaticamente e cuja utilização para conclusão das viagens é verificada digital e automaticamente, culminando na correção do preço da viagem quando o utilizador for merecedor. Desta forma, o sistema tenderá a ser regrado pois os utilizadores passam a ter um estímulo positivo para parquear corretamente os veículos.

A outra solução é de cariz mais tático e apoia o operador na distribuição dos veículos pela cidade, partindo da modelação permanente da procura e baseando-se em fontes de informação da cidade às quais aplica algoritmos de inteligência artificial e deles extrai recomendações de localizações de veículos. Estas devem ser, desejavelmente, em docas virtuais que respeitem a política de ocupação do espaço público da cidade.

A combinação destas duas soluções tecnológicas permite simultaneamente eliminar um dos principais inconvenientes dos sistemas dockless – a proliferação desregrada de veículos – e potenciar a sua conveniência e utilidade, aproximando a oferta da procura, mas sempre dentro do espírito flexível inerente a estes sistemas.

Todos os novos modos de mobilidade partilhada, tal como as profissões associadas ao “trabalho com computadores” (recuperando o paralelo com a profissão do filho do nosso amigo) têm a sua razão de ser e o seu valor para a sociedade. Porém, a forma como se consolidam e conquistam a sua representatividade é diversa e, no caso da mobilidade, a solução passará, sem dúvida alguma, pela forma como os “profissionais dos computadores” adicionarão sistemas de apoio a estas operações para as tornar efetivamente úteis no ecossistema em que se inserem, sem prejuízo naturalmente dos aspetos regulatórios e, muito importante, da forma como os clientes da mobilidade irão consumindo estes serviços.

por Miguel Rodrigues, Responsável por Intelligent Traffic Systems na Siemens Mobility Portugal
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