quinta-feira, 9 de Abril de 2020

 
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Carga & Mercadorias
12-02-2020

Os ventos da ferrovia
Os ventos na ferrovia portuguesa parecem soprar de feição. Mesmo com os atrasos na execução do programa Ferrovia 2020, mesmo com o Plano Nacional de Investimentos 2030 em fase de consulta e mesmo com a reabertura da oficina de manutenção ferroviária de Guifões, uma brisa de esperança tem soprado nestes últimos tempos. Dirão os céticos que muito está por fazer e que tudo não passa de uma encenação muito bem montada que apenas serve outros propósitos e outros interesses. Já os adeptos fervorosos da ferrovia veem nesta brisa o reforço e alento das suas convicções, reforçando assim o sonho de verem toda a mobilidade de bens e mercadorias transportadas por comboio.

Como na gíria se diz “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Com as devidas adaptações na terminologia usada pela sabedoria popular, uns e outros terão razão em parte, mas descuram, cada um no seu campo, a falta dela em muitas outras partes.

Passo a explicar: De facto tem havido muitos anúncios e alguns lançamentos de concursos para obras em linhas ferroviárias, mas a realidade é que os atrasos no cumprimento dos calendários anunciados são muitos e os níveis de execução dos programas ficam muito aquém do desejável. Por outro lado, a verdade é que há décadas que não se via uma vontade política tão determinada em conferir às infraestruturas ferroviárias um papel tão importante no desenvolvimento da mobilidade, da competitividade económica e no papel de fator de coesão nacional que a ferrovia comporta. Mas em cima da mesa e na realidade próxima, estão ainda muitos “ses” que conferem aos agentes económicos fatores de preocupação e de grande dúvida.

No que ao transporte ferroviário de mercadorias diz respeito, poder-se-á perguntar de que serve ao país ter boas linhas ferroviárias se a oferta instalada fica aquém do que o mercado precisa? De que serve ao país ter linhas ferroviárias com boa capacidade se não existem políticas públicas para a implementação de infraestruturas logísticas multimodais e que com estas promovam a captação de investimentos nesta área, alavancando assim a economia e o uso das infraestruturas?

Ao observarmos a estratégia das politicas públicas de âmbito ferroviário na vizinha Espanha no que diz respeito aos grandes “nós” ferroviários (Madrid, Valladolid, Placencia, Zamora e Léon), percebemos o que nos falta de visão e de estratégia. Estes grandes “nós” ferroviários que têm na sua área de influência cerca de trinta e quatro terminais ou plataformas logísticas de mercadorias – já construídas ou previstas - formaram um “braço logístico” junto à fronteira portuguesa que poderão captar o valor acrescentado que as cadeias logísticas contêm. Por cá, descuramos o valor estratégico do transporte ferroviário de regiões como a Guarda - onde haverá a concordância das linhas da Beira Baixa e Beira Alta - ou do Douro e Trás os Montes, com a ligação da linha do Douro a Vilar Formoso (70 km), entre outras.

Se é verdade que hoje as lideranças políticas interiorizaram, e bem, a importância e valor da ferrovia, é também verdade que a resposta dada através do investimento nas infraestruturas, é suportado num vazio estratégico fruto da inexistência de um Plano Ferroviário Nacional.

Como alguém escreveu, “a estratégia não é a consequência do planeamento mas o seu contrário, o seu ponto de partida".

por José Monteiro Limão
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