segunda-feira, 9 de Dezembro de 2019

 
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Passageiros & Mobilidade
22-11-2019

Reino do improviso ou o habitual “correr atrás do prejuízo”.
Quando foi anunciado pelo governo a integração tarifária dos vários modos de transporte coletivo na AML e a significativa redução do custo dos respetivos passes mensais – dando assim seguimento a antigas reivindicações dos municípios da área metropolitana e em particular da presidência da CML de António Costa – referi o facto dessa medida ser não só a mais importante quanto ao aumento do rendimento das famílias em toda a legislatura, como alertei para o expectável aumento da procura que se lhe seguiria. A mesma posição foi manifestada sobejas vezes pelos operadores privados de transportes, em particular pelo seu dirigente associativo, Dr. Cabaço Martins.

Na altura, alguns responsáveis minimizaram as repercussões da medida ao nível da procura, chegando a estimar um aumento na ordem dos 20%, perfeitamente acomodável na oferta existente. Assim, além da compra de umas dezenas de autocarros para a Carris e de anúncios do futuro lançamento de concursos para aquisição de material circulante para o Metropolitano de Lisboa e a CP, bem como de barcos para a TT/Soflusa (só operacionais daqui a quatro anos), não se conheceram outras medidas no sentido de preparar o sistema para responder, no curto prazo, ao acréscimo de procura previsível. Como se veio a verificar, esta excedeu em muito as previsões das entidades oficiais, duplicando em alguns casos o número de passes vendidos, de acordo os dados disponibilizados por alguns operadores e a própria AMT.

As consequências desta falta de visão (ou preparação?) está visível aos olhos de todos, apesar de apenas poucos meios de comunicação darem o devido relevo à verdadeira degradação das condições de transporte que se registam nos eixos mais carregados, nomeadamente os que ligam os concelhos periféricos a Lisboa e no ML. Desde cais a abarrotar de utentes, barcos retidos ou atrasados por excesso de pessoas a procurar entrar e sem lugar, até à supressão de lugares sentados em serviços suburbanos (contrariando todas as regras de transporte para deslocações deste tipo e recuando décadas no conforto que se foi conquistando) ou a espera por mais de um serviço até que se consiga entrar no transporte, de tudo se tem assistido perante a passividade das autoridades responsáveis. Por outro lado, o enorme acréscimo de turistas em Lisboa, veio aumentar ainda mais a procura, sendo que, nos serviços mais utilizados por estes, ser frequente a população ter de esperar por um segundo veículo para poder ser transportada.

Aquilo que foi uma das medidas estruturais mais importantes para a mobilidade na AML, acaba deste modo por ver o seu alcance diminuído pelo improviso com que foi preparada (?) a sua operacionalização em termos de oferta. Estamos assim em risco de voltar a assistir a uma fuga para o transporte individual, mal as condições económicas das famílias os permita.

Como foi possível chegar a esta situação? Os operadores privados cedo alertaram para o problema e apontaram a necessidade de reestruturar ofertas e reforçar os meios de transporte, além de já estarem a reclamar o pagamento do diferencial do valor dos passes, que tarda a ser transferido para as empresas.

Mas a estruturação da sua oferta depende agora da AMT. Do lado dos operadores públicos assiste-se a um silêncio ensurdecedor e ao “empurrar com a barriga”, até que os novos meios de transporte estejam operacionais. Será que é assim que vamos responder à situação atual? Não haverá nada que se possa fazer no entretanto? Onde estão os operacionais competentes que sabiam adequar a oferta à procura em situações de emergência?

Percebe-se agora o preço que se paga por ter comissários políticos à frente das empresas de transporte e se ter optado pelo outsourcing de competências técnicas que antes existiam nessas empresas. Depois queixem-se...

por Fernando Nunes da Silva
 
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