sexta-feira, 23 de Agosto de 2019

 
STCP
Carga & Mercadorias
17-12-2018

Reduzir custos e aumentar a eficiência
A tecnologia ao serviço dos portos
Durante a última década, a indústria marítima tem olhado para o futuro do transporte de cargas contentorizadas, procurando a alteração do paradigma da sua movimentação ao longo da tradicional cadeia de abastecimento, depois de séculos de movimentação de carga geral e desde o advento da contentorização.



A onda da digitalização tem tido um desenvolvimento enorme, sendo agora muito mais influente, no controlo e movimento dos bens, desde as fábricas até ao consumidor final. Do lado operacional, sensores mais baratos e o aumento da conectividade levaram a um aumento significativo do volume de dados, que em conjunto com o aumento da capacidade computacional, tornaram mais rápida e eficiente a análise desses dados.

Uma cadeia de abastecimento eficiente, que fizesse o transporte dos bens em tapetes rolantes desde as fábricas até ao seu destino, ou outros modelos emergentes como o hyperloop, podem ser alguns dos avanços a ter em conta no futuro.

Estas alterações vão ao encontro do paradoxo da redução de custos, sempre em voga do lado dos consumidores finais e dos transportadores, enquanto todos os elos da cadeia lutam pelo controlo da mesma. Recentemente, assistimos a mais algumas mudanças de visão, com a aquisição da DP World (operador de terminais) do armador de topo do tráfego do short sea shipping europeu, a Unifeeder, ou a integração efetiva da Damco com o gigante armador e operador Maersk. A indústria do transporte contentorizado está a passar por um momento interessante, onde estão a ser testadas constantemente novas soluções, na procura incessante da fórmula vencedora que traga o ambicionado valor adicional ao transporte. Desde soluções paperless, big data, IoT, automação, controlo de frotas, cibersegurança, blockchain – há pouco mais de um ano, a Maersk e a IBM anunciaram um projeto piloto, onde se seguiram outros da PSA International, PIL e do Porto de Antuérpia, no entanto, a CMA CGM e a Hapag-Lloyd rejeitaram este ano a participação no desenvolvimento conjunto do projeto da Maersk/IBM aclamando à necessidade de definição de um standard para a indústria no uso destas ferramentas – ao mais recém-chegado desenvolvimento tecnológico, os digital twins, ou gémeos digitais (já usados noutros setores há mais de duas décadas segundo a consultora Gartner). Todos estes novos conceitos surgiram em catadupa, podendo ter tido origem com o abatimento de alguns navios com menos de uma dezena de anos, levando à construção de outros navios que contemplassem já alguns desses desenvolvimentos tecnológicos.

O que estará a ser criado neste momento no shipping? Soluções baseadas em testes-piloto ou baseadas em necessidades da indústria, ou por outro lado, a aplicação de inovações tecnológicas, importadas e testadas noutros mercados que por vezes não passam apenas de tentativas falhadas. As empresas que vendem tecnologia tentam impor e ajustar os seus produtos aos navios, terminais e a todos os equipamentos e negócios do setor, tal como o fizeram no passado para o mercado bancário e das telecomunicações, entre outros.

Enquanto hoje em dia se fala em todo o mundo das iniciativas digitais, algumas futuristas ou abstratas, todas elas são norteadas por um denominador comum: usar a tecnologia como forma de reduzir custos e aumentar a eficiência. Os consumidores querem hoje saber em que ponto estão as suas encomendas, querendo por vezes estar envolvidos até na gestão do percurso das mesmas. No entanto o princípio norteador permanece intacto, comprar ao mais baixo preço, garantindo o melhor serviço. Para que tudo isto se torne possível, a digitalização tem dado um passo importante. O consumidor procura rapidamente por preços e alternativas online, em plataformas que se querem flexíveis e que transmitam confiança ao comprador.

Ao fazer uso nos navios e contentores de sensores e outros equipamentos que recolham dados sobre pressão, vibrações, temperatura e muitas outras informações, os seus operadores conseguem deste modo optar por serviços de manutenção baseados na condição dos equipamentos (CBM) em vez da manutenção programada, ou controlar as cargas durante todo o seu processo de transporte.

Este aumento exponencial do lado da informação gerada e guardada provém da tecnologia aplicada. Do armazenamento nas “nuvens” (cloud) usado no passado muito recente, de repente somos obrigados a criar mais camadas de armazenamento para lidar com toda esta inundação de dados. Junto aos sensores temos agora a camada edge, resiliente a falhas de rede. Apenas registam os dados dos sensores, não necessitando neste nível do suporte computacional das outras camadas. Esse processamento é feito noutra camada mais segura e eficiente, que agrega as principais informações da anterior, chamada fog. Aqui é feito o tratamento da informação recolhida, e apenas segue para a cloud a informação tratada e relevante para o negócio. Estima-se que cerca de 10% do volume de dados de uma empresa é criado e processado fora da cloud. Segundo a consultora Gartner, as camadas edge e fog podem chegar em 2022 a cerca de 75% desse volume. A Maersk equipou recentemente cerca de 300 mil unidades refrigeradas com sensores, posicionamento GPS e modems com cartões de telemóvel para, em comunicação com os navios ou por GSM, transmitirem dados relativamente à carga que transportam e o estado dos equipamentos. É hoje possível fazer o rastreamento de cargas mais facilmente e a um custo mais baixo que nos últimos cinco anos.

Os gémeos digitais são a palavra/tecnologia do momento. Podem ser usados em fábricas, no setor da energia, nos transportes, na mineração e na construção, por exemplo. Equipamentos complexos como motores de aviões (de onde surgiu este conceito inicialmente), comboios, plataformas petrolíferas e navios podem ser desenhados e testados digitalmente antes de serem produzidos fisicamente.

O armador MSC numa parceria com a ABS, criou já gémeos digitais para três dos seus navios. Para cada um deles, será usada informação relativa à manutenção, recolha de dados de sensores instalados no casco do navio e nos equipamentos para espelhar toda essa informação no modelo virtual, criando assim uma base de dados digital da condição do navio.

Estes modelos digitais criam a ponte entre o mundo físico e o digital, tornando possível a otimização das operações, a deteção de problemas, testar configurações, simular cenários e prever a performance com ganhos na eficiência e no custo final dos equipamentos. Permite também que através da análise dos dados recolhidos virtualmente seja encontrada a fonte de possíveis problemas antes de estes ocorrerem, prevenindo o tempo de inatividade dos mesmos, desenvolvendo assim novos modelos, recorrendo a novas simulações.

Segundo a consultora Deloitte podemos encontrar cinco componentes nestes modelos: sensores e atuadores no mundo real, dados e análise do lado virtual e a necessária integração no meio dos dois.



Os sensores estão distribuídos ao longo do processo de fabrico capturando os dados operacionais do processo físico e do ambiente para o gémeo digital.
Os dados capturados são agregados e tratados juntamente com outra informação disponível sobre o equipamento, como informação do fabricante ou os seus desenhos técnicos, possibilitando a visualização e testes em ferramentas 3D, prevenindo assim futuras avarias ou quebras no equipamento. A integração da informação entre os dois mundos é feita através de interfaces de comunicação que seguem protocolos definidos para captura dos dados nas camadas edge, junto dos sensores onde também é possível fazer a monitorização remota dos equipamentos.

A análise dos dados adquiridos é feita com recurso a técnicas que incluem algoritmos para simulação e visualização das rotinas que serão usadas pelos gémeos digitais recorrendo também à inteligência artificial neste processo.
Os gémeos digitais produzem então ações através dos atuadores, derivados do processo virtual de análise. A ideia de gémeo digital é que para cada produto físico, como possa ser um navio, existe uma e apenas uma réplica digital. A evolução do objeto físico durante o seu ciclo de vida será espelhada na versão digital. Se houver lugar a alguma alteração no mundo físico, a versão digital será atualizada.



Edifícios, cidades e portos podem ser reproduzidos digitalmente. De modo a alcançar o título de primeiro porto mundial a poder receber navios autónomos, o Porto de Roterdão está a trabalhar na criação do seu gémeo digital. O Porto de Hamburgo proporciona já vários serviços aos transportadores que o visitam para entrega ou levantamento de cargas, através de sensores colocados em várias zonas do porto que agregam essa informação e a disponibilizam com valor acrescentado. Estes dois portos, apesar de concorrentes em certos tráfegos, têm acordos de partilha de dados para que os seus clientes possam otimizar as escalas no norte da Europa. As iniciativas “SMART” não trarão apenas eficiência, mas também responsabilidade, sustentabilidade e transparência no futuro.

Este modelo vai permitir aos gestores do porto ver e controlar as operações de um modo mais eficiente e em parceria com os stakeholders. Esta nova tecnologia permite obter uma réplica do que se está a passar no porto, desde as condições meteorológicas ao número de navios que estão em porto, a sua velocidade e para onde se dirigem, o calado admitido em cada momento, bem como o plano das atracações. Em 2016, a Gartner apontou os gémeos digitais como uma das “Top 10 Strategic Technology Trends for 2017”. Um ano depois nomeou novamente esta tecnologia como a tendência mais forte para 2018, estimando que existam 21 biliões de terminais e sensores conectados até 2020, e que existirão milhões de gémeos digitais num futuro próximo.

Vamos aguardar pela nova tecnologia de ponta a chegar ao shipping, tendo em mente que desde o início da contentorização, não houve uma grande mudança no processo de carga ou descarga de contentores. Podemos ter a descarga/carga de dois ou quatro contentores ao mesmo tempo, mas continuamos a ter uma zona de grande pressão e onde surgem grandes constrangimentos durante a operação, no interface cais-navio. Não será fácil transformar os portos numa espécie de Sillicon Valley, mas será que existem alternativas a curto prazo? Se os portos não se digitalizarem, alguém na cadeia os irá digitalizar. As iniciativas “SMART” chegam de todos os quadrantes todos os dias, e lembrando os caçadores de tornados num filme sobre as suas aventuras, e os aparelhos voadores que lançavam no ar para estudar estes fenómenos naturais, recentemente a revista Forbes lançou também um artigo sobre o tema “Smart Dust Is Coming. Are You Ready?”, sobre o qual aconselho uma pesquisa. A tecnologia está disponível nas mais variadíssimas formas, chegando já às poeiras inteligentes, e também no shipping o futuro é hoje cada vez mais o passado.

Talvez os contentores voadores se tornem parte da equação num futuro próximo.


por Pedro Galveia
 
2264 pessoas leram este artigo
551 pessoas imprimiram este artigo
0 pessoas enviaram este artigo a um amigo
0 pessoas comentaram este artigo
Comentários
Não existem comentários
  
Deixe o seu comentário!

 


 

  

 
 
 
 
 
 
 
 
 












RSS TR Twitter Facebook TR Transportes em revista

Dicas & Pistas © 2009, Todos os Direitos Reservados

Condições de Utilização | Declaração de Privacidade
desenvolvido por GISMÉDIA