segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018

 
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19-11-2018

O Marxismo-Empreendedorismo
Diversos pensadores do século XIX sentiram alguma frustração quanto à capacidade humana para conhecer o mundo. De facto, o século XVIII foi pródigo em avanços na compreensão da natureza, em grande medida já sem os dogmas que anteriormente condicionaram esse progresso, o que levou à convicção de que se estaria a trilhar rapidamente o caminho do conhecimento universal. Mas sempre que a ciência encontrava boas explicações, acabava por levantar novas questões.

Karl Marx foi um dos pioneiros da racionalização deste desafio, defendendo que era possível conhecer a realidade, mas de uma forma continuamente evolutiva. Convém esclarecer que estamos no campo da filosofia, como interpretação de alto nível do universo. Existem diversas interpretações quanto à sua aplicação, em particular no campo das ciências sociais, que cada um pode julgar como mais ou menos corretas, mais ou menos realistas e mais ou menos datadas.

A filosofia marxista define então os quatro aspetos fundamentais para a compreensão dos processos evolutivos: como a mudança é contínua, como tudo se relaciona, como as contradições alimentam as transformações e como se evolui da quantidade para a qualidade. Será que podemos usar estes quatro princípios para perspetivar as evoluções de base tecnológica e o empreendedorismo que lhe tem estado subjacente?

Vamos tentar, admitindo que a inovação e o empreendedorismo neste campo já ultrapassaram o estado em que a ciência se encontrava no século XVIII, isto é, que já não são vistos como a chave simples e infalível para a felicidade humana.

Mudança contínua
A omnipresença da mudança é hoje consensual, embora nem sempre bem interiorizada, mas reconhecida em todos os campos, desde as artes (“Todo o mundo é composto de mudança”, Luís de Camões), passando pela ciência (“A inteligência é a capacidade de adaptação à mudança”, Stephen Hawking), continuando pela política (“A mudança é a lei da vida”, John F. Kennedy) e terminando nos negócios (“Muda antes de seres obrigado a fazê-lo”, Jack Welch).

No que respeita à tecnologia, tudo isto não podia ser mais evidente, dado o seu crescente impacto na vida quotidiana, com ciclos evolutivos cada vez mais curtos. Isto levou a que, no tempo de vida de uma pessoa, seja corrente assistir-se ao aparecimento, generalização e extinção de novas ferramentas, paradigmas e até profissões, com todas as euforias e dramas que isso acarreta.

Tudo se relaciona
A evolução da própria ciência ditou pontes entre saberes. Da medicina passou-se à biologia e desta à química, que recorreu à física sustentada pela matemática. O mesmo se passou com as tecnologias de informação, primeiramente baseadas na eletrónica, para o hardware, e no raciocínio matemático, para o software. Vários outros ramos entraram depois em ação, com o desenvolvimento das bases de dados, das redes de computadores e dos requisitos de segurança a elas inerentes. Quando os principais desafios informáticos deixam de ser técnicos para se centrarem na utilização, outras áreas do conhecimento têm vindo a ser agregadas, como o design para tornar a interação mais efetiva ou psicologia e a antropologia na análise de comportamentos. A multidisciplinaridade passou a ser um requisito obrigatório na abordagem de qualquer tema minimamente complexo.

Contradições alimentam transformações
Os conflitos, com manifestações mais ou menos violentas, sempre foram determinantes na história da humanidade. A evolução dá-se através das dinâmicas contraditórias que todas as coisas encerram em si próprias – sem antagonismos não há progresso. O conhecimento gera continuamente novas teorias, os mercados desenvolvem-se impulsionados pela concorrência, a tecnologia potencia novas soluções com modelos de negócio disruptivos. Um aspeto subtil deste princípio é que uma mesma coisa pode assumir aspetos contraditórios, evoluindo dessa forma. Na era dos mainframes tudo era centralizado. A dispersão geográfica levou a bases de dados centrais com aplicações inteligentes distribuídas por PCs periféricos. Depois, a web voltou a centralizar a inteligência e, agora, a tecnologia block chain aposta na distribuição massiva.

Evolução da quantidade para a qualidade
O que aconteceu na computação móvel é paradigmático. Primeiro, apareceram os chamados palmtops, com email e agenda digital. Daqui evoluiu-se para os PocketPC, telemóveis com um Windows “miniatura”, que se usava com um estilete e que permitia (com algum custo...) carregar novas aplicações. A adesão foi crescente, mas muito limitada. Depois, os smartphones tornam tudo mais intuitivo e dá-se o grande salto, chegando hoje a milhares de milhões de utilizadores. O que faz um atleta ter 300 milhões de seguidores nas redes sociais? O que é que torna um vídeo viral, quando são publicadas centenas de milhar de vídeos por dia? Em geral, é a acumulação gradual da quantidade de valor percebido pelos seus destinatários que, uma vez atingido um determinado limiar, gera uma evolução exponencial para um novo patamar qualitativo.

Mas há aqui dois “segredos” fundamentais, para os quais não há “receita científica”. O primeiro, é que não existe uma relação direta e evidente entre o valor percebido e o esforço empregue ou o desempenho alcançado. O segundo, é que não se sabe à partida a quantidade correspondente ao limiar que permite alcançar o patamar qualitativo seguinte. É nestes dois fatores que entra a intuição, a fé, a teimosia, ou seja lá o que for, dos grandes visionários que têm a sorte de vingar.

por Manuel Relvas
 
Tags: Manuel Relvas   Opinião  
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