segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
19-11-2018

A resposta dos transportes públicos
Recentemente foram conhecidos os resultados de mais um inquérito à mobilidade, agora nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, realizado pelo INE com o apoio da AML e AMP.

E, no que se refere ao peso da utilização do transporte individual relativamente ao transporte coletivo, e às razões das escolhas de mobilidade das populações, os resultados são os mesmos de sempre.

Efetivamente, constata-se um forte pendor na utilização do transporte individual como meio de transporte principal usado nas deslocações diárias nas duas áreas metropolitanas, assim como se repetem, no essencial, as razões dessas opções.

Isto é, mais uma vez, mais do mesmo. Como já tive ocasião de dizer por diversas vezes, em Portugal persistimos em laborar num conjunto de equívocos que nos têm impedido de resolver os graves problemas de mobilidade.

Ao longo das últimas décadas, e de forma consistente, a perceção de um serviço de transporte público deficiente e desorganizado tem-se vindo a consolidar na sociedade portuguesa, e o transporte individual vai sendo cada vez mais a opção natural e maioritária das populações.

A sucessão de inquéritos à mobilidade, em vez de servir para, com toda a informação que disponibiliza, apontar os melhores caminhos e as soluções mais adequadas para os problemas de mobilidade das pessoas, a maioria das vezes não cumpre esse desiderato.

É que, num país sem planeamento nem pensamento estratégico, useiro e vezeiro em decisões pontuais sempre motivadas pelas conjunturas político-económicas de cada momento, a gestão dos resultados dos inquéritos à mobilidade é sempre condicionada pela chamada ‘ditadura da conjuntura’ que, sistematicamente, gera decisões inconsequentes.

Penso que é chegada a hora de inverter esta tendência de muito discutir e de nada fazer.

E teremos sempre de partir de dois pressupostos fundamentais:
(i) O automóvel particular terá sempre muito mais vantagens do que a concorrência modal;

(ii) Os transportes públicos, por melhor organizados que estejam, nunca serão capazes de resolver todos os problemas de mobilidade de todos.

O que poderemos então fazer para tornar os transportes públicos mais competitivos face à fortíssima concorrência do TI?

Que resposta poderão dar os transportes públicos perante a péssima imagem percecionada pela maioria da população, incluindo muitos dos seus utilizadores regulares?

Uma primeira conclusão a que facilmente se chega é que o shift modal pretendido do TI para o TC só se alcançará com incentivos para utilização dos transportes públicos e com restrições ao uso do transporte individual.

Num país em que a utilização do transporte particular é um fator distintivo do posicionamento social, é sinal de estatuto, a mudança na opção de mobilidade jamais se fará naturalmente. Terá de haver incentivos (materializados, por exemplo, através da criação de tarifários sociais ou outros benefícios, facilidade na aquisição e utilização dos títulos de transporte, modernização dos suportes de comunicação e informação).

Por outro lado, as restrições e limitações, ao uso do transporte individual são absolutamente críticas para o êxito do processo. Existem vários segmentos de intervenção possíveis, designadamente ao nível do estacionamento tarifado (alargamento das zonas e incremento de preços), aumento das zonas de utilização exclusiva de transporte público e áreas pedonais, prioridade de passagem para o transporte público, agravamento das taxas de entrada nas cidades nos casos de veículos apenas com o condutor, entre outras.

Se, paralelamente a estas medidas de enquadramento, as autoridades de transporte intervierem ao nível da melhoria das condições de transbordo e circulação urbana dos transportes públicos, servindo melhor e com mais qualidade o utilizador frequente, e se se trabalhar numa melhor articulação entre as várias ofertas de TP, nomeadamente ao nível das ligações e dos horários, teremos seguramente um incremento da qualidade real e percecionada dos transportes públicos, com vantagens para todos.

Só assim teremos um caminho seguro e eficaz para uma boa solução para o problema da mobilidade.

Mas para que o caminho nos leve para onde queremos, é preciso ainda o mais difícil: vencer a inércia de muitos anos de inação, combater as resistências e interesses da fortíssima indústria do automóvel, afastar as tentações de receber mais uns euros por via de uma política fiscal muito dependente do consumo dos combustíveis.

Teremos coragem para isso?

Estamos preparados para ouvir a resposta dos transportes públicos?

por Luís Cabaço Martins
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