quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

 
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19-09-2018

A geração do “pôr-do-sol” numa aventura 4.0
Muito se tem falado das implicações da quarta revolução industrial, que está em pleno curso, e do impacto disruptor que irá ter em todos os sectores, entre os quais o da logística, no seu sentido mais lato e abrangente, na qual se inclui a logística industrial, as cadeias de abastecimento, a logística inversa, as redes complexas, os transportes em todos os seus modos, em suma, todos os fluxos de informação e os fluxos físicos correspondentes, os quais já são hoje suportados por complexos sistemas de informação, mas que ainda têm uma forte componente humana, leia-se, de mão-de-obra, para que funcionem.

Num futuro muito próximo teremos mais e maior automatismo e robotização dos serviços actualmente prestados por pessoas, maiores e melhores sistemas de informação, uma inteligência artificial (IA) que se encarregará de optimizar os sistemas, sejam eles físicos ou de informação, trazendo maior produtividade com um melhor aproveitamento e optimização dos recursos, sejam eles naturais, energéticos, tecnológicos ou mesmo humanos, com o objectivo de termos uma economia circular, uma economia azul, tudo quanto possa contribuir para melhorar a vida e o ambiente do nosso, hoje pequeno, planeta Terra.

Contudo, não é sem alguma apreensão que cada vez mais se ouvem pessoas de grande experiência profissional e académica, que se encontram a chegar ao “pôr-do-sol” da sua vida profissional, que referem que este é um problema para a próxima geração, havendo certamente um futuro mas não para todos, já não sendo um problema para esta geração mais avançada, pelo menos na idade, de profissionais do sector.

Há que discordar completamente e com veemência, chamando a atenção que é de facto actualmente um problema deste grupo etário, pois se já se esqueceram, talvez devido ao tempo que já passou entretanto, convém lembrar que fomos nós os responsáveis pela forma como decorreu a terceira revolução, onde nos anos oitenta, de uma situação em que tudo o que era urgente e tinha de ficar redigido a escrito tinha de ser feito por telex, que era um luxo, mas muito usado no shipping, ou por correio (leia-se cartas com selos e tudo), confirmando-se o que se tinha entretanto discutido e acertado por telefone (naquela altura ainda havia algo que se chamava “palavra”, “honra”, “ética”, “honestidade”, entre outras coisas que se extinguiram, quais dinossauros do negócio).

Nos finais dos anos oitenta aparecem os faxes que prontamente substituem os telexes e as cartas, revolucionando todo o sistema de comunicações, surgindo logo de seguida a democratização dos primeiros computadores pessoais, tendo muitos operadores começado a sua aprendizagem de programação com os famosos “Spectrum” evoluindo rapidamente para PC’s com o MSDOS (Microsoft Disk Operating System) e memórias, ROM e RAM que hoje fariam rir qualquer um, mas que na altura foram parte importante e fundamental da revolução. Os telemóveis vieram a seguir, também se democratizando no início dos anos noventa, permitindo uma comunicabilidade total, independente do local e do tempo, ao mesmo tempo que o WWW (World Wide Web) e os emails.

Tudo isto acompanhado por uma maior automatização e robotização dos sistemas produtivos e de comunicação.

E o que é que fizemos com tudo isto? Com toda esta tecnologia que foi colocada à disposição do ser humano?

Certamente se recordarão que quando se discutiam os temas da terceira revolução industrial era frequente referir-se que toda esta tecnologia em vez de vir roubar postos de trabalho seria colocada ao serviço do ser humano e fazer com que ao trabalhar de forma mais eficiente pudesse trabalhar menos horas ou menos dias e assim pudesse ter uma melhor qualidade de vida e mais tempo para apreciar a mesma.

O que aconteceu, e que já todos puderam constatar, foi exactamente o inverso.



Hoje, vinte a trinta anos passados, temos no bolso telemóveis com maior capacidade de memória e de processamento do que qualquer computador dos anos noventa, os quais nos permitem estar disponíveis e, se necessário, trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Os actuais computadores portáteis, com desempenhos excepcionais, sempre em contacto com a rede, permitem-nos trabalhar a qualquer hora ou em qualquer local do mundo, fazendo com que actualmente uma pessoa realize o trabalho equivalente a dez pessoas há trinta anos atrás.

Assim, em vez de a tecnologia ter vindo dar-nos uma melhor qualidade de vida e disponibilidade de tempo para disfrutar da mesma, veio tornar-nos escravo dela e obrigar-nos a trabalhar mais, de uma forma viciante, a qual é actualmente muito difícil de ultrapassar, porque parece que não podemos viver sem ela. Quem é que nunca se esqueceu do telemóvel em casa e se sentiu em stress pela falta daquele objecto, como se fosse indispensável para a sua sobrevivência.

Pois dentro de algum tempo, a própria tecnologia vai fazer-nos o favor de nos colocar de parte, de nos tornar obsoletos, substituídos por uma IA que fará tudo melhor do que nós, com maior produtividade, menos riscos, menos acidentes, menos erros, porque errar é humano, levando a crer que o impacto no emprego poderá ser devastador, excepto para alguns que serão necessários para manter as máquinas a funcionar e a controlar pontualmente algumas questões ou tomar decisões estratégicas para a qual a sensibilidade humana ainda poderá ser necessária. Resta saber até quando.

E quando dizemos que isto será um problema para a próxima geração e não mais da nossa, estamos a esquecer que a forma como o sistema de Segurança Social está montado (e mal) em que não será o dinheiro que descontámos ao longo da nossa vida contributiva que servirá para pagar as nossas reformas, mas sim o que a próxima geração irá descontar, então talvez tenhamos que repensar como foi possível chegar a esta situação.

A culpa não morrerá solteira, como se diz, porque foi sem dúvida nossa ao não sabermos gerir melhor e de forma mais sábia os recursos, tecnológicos e naturais, que foram colocados à nossa disposição, sempre com o objectivo do lucro e do crescimento económico desumanizado, onde as pessoas não passaram de números, descartáveis, como qualquer computador e máquina.

Como Stephen Hawking disse numa das suas últimas intervenções púbicas, por Skype, durante a Web Summit, a IA poderá ser algo muito bom para a humanidade ou algo muito mau.

Há que saber gerir esta quarta revolução e o nosso papel, de geração do “pôr-do-sol” no meio desta aventura 4.0: será o de reconhecer e de chamar a atenção para os erros que cometemos no passado, fazendo com que os millennials não venham a cometer os mesmos erros, ou outros ainda piores.

por João Soares

Nota: Por opção do articulista não foram utilizadas as regras do novo acordo ortográfico

 
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Comentários
24-09-2018 7:55:33 por Carlos Oliveira
A fotografia está feita Mas será que os millennials nos ouvem Ou não estamos a saber transmitirlhes as mensagems
  
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