sábado, 21 de Abril de 2018

 
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Passageiros & Mobilidade
29-03-2018

Ecopista do Tua: Quando o verde se torna escuro
Arrancaram com celeridade ímpar as obras de adaptação do canal da linha do Tua, nos 76 quilómetros entre Carvalhais e Bragança, em mais uma ciclovia. A obra está orçada em três milhões de euros, sensivelmente 40 mil €/km, desconhecendo-se quantas estações e obras de arte serão beneficiadas no total dentro deste valor. Surpreende-me que as autarquias de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança tenham resistido tantos anos ao assédio da extinta REFER em embarcar neste tipo de empreendimento “chapa 5”, para agora da noite para o dia o abraçarem em tamanha sintonia. O timing é ainda mais infeliz ao coincidir com o início da exploração privada dos 37 quilómetros ainda abertos, por um player turístico de peso que poderia estar interessado numa expansão para norte. Seguidamente, o valor do investimento é inusitadamente baixo, em comparação com outras ciclovias do género em Portugal. Para citar algumas, três milhões de euros custou igualmente a da Póvoa a Famalicão em apenas 28 quilómetros (107 mil €/km), e cinco milhões de euros a do Dão (49 quilómetros, 102 mil €/km); no Sabor, o rácio foi de 125 mil €/km, no Tâmega 167 mil €/km, e só a de Montemor-o-Novo se aproxima deste valor, ao custar 41 mil €/km, mas num percurso de 12 quilómetros em terra batida, com uma única ponte e sem recuperação de estações. Ora, de Carvalhais a Bragança existem 13 obras de arte e 20 estações, sem contar com a renda de 250 €/km a pagar ao Estado pelo canal (19 mil €/ano), mais o que for pedido pela utilização das estações.

Através de candidatura ao Programa Valorizar, as autarquias terão ainda de pagar pelo menos 2,6 milhões de euros pela ciclovia; numa reabertura ferroviária caber-lhes-ia pagar à volta de 5,7 milhões de euros, depois de candidatura a fundos comunitários. Sim, por mais 3,1 milhões de euros do que vão gastar numa ciclovia, estas autarquias podem trazer o comboio de volta a Bragança; é agora uma questão de escolher o que faz mais falta à região.

Depois, quem vai esta ciclovia servir? Estes três municípios têm índices de envelhecimento galopantes, entre os 200% e os 300%, agravados a cada novo censo, concentrando-se a maior percentagem de população idosa nas aldeias, algumas das quais sem transportes públicos fora do período escolar. Será portanto um convite à população para que se desloque aos centros urbanos a pé ou de bicicleta, no rigoroso clima trasmontano, em percursos com rampas como as do Quadraçal (sete quilómetros) ou do Vale da Porca ao cume ferroviário português (19 quilómetros), com inclinações médias de 2%? Por fim, se num centro urbano um corredor treinar dez quilómetros, ou um ciclista 20 quilómetros, estamos a deixar de fora 36 quilómetros de canal para uma utilização residual, mormente por visitantes – nas aldeias não faltam bons trilhos para corrida/BTT.



Em 2012, a Câmara Municipal de Bragança emitia uma nota contra o pedido de desclassificação da linha do Tua pela REFER, onde referia que não era uma decisão “sustentada numa política de coesão e de ordenamento para o território”, fundamentada num “somatório de episódios que levaram deliberadamente ao encerramento da linha do Tua”, arrastando “o nordeste Transmontano para uma situação de despovoamento acentuado e de empobrecimento” e de “eliminação ou redução (...) do serviço de transportes às populações”. Cinco anos volvidos, a autarquia dá uma volta de 180º, e põe a obra fácil e de lazer à frente da mobilidade de pessoas e bens no mais eficiente dos transportes terrestres: o comboio. À luz da discussão sobre a ligação entre a cidade e a estação de alta velocidade de Puebla de Sanábria, a qual se arrasta há quase uma década sem resultados práticos, esta ciclovia é a derradeira antítese dessa aspiração: negligencia o papel da ferrovia como artéria privilegiada entre o noroeste Peninsular e todo o nordeste Trasmontano até ao Douro Vinhateiro, passando por um renovado aeroporto de Bragança, e de movimentação de passageiros, matérias-primas e produtos de e para o território, a menor custo que pela rodovia. Restam por fim duas questões: a primeira, é de que forma este projecto pretende salvaguardar o património e memória industriais ainda presentes in situ, por exemplo nas estações do Romeu, Cortiços, Macedo, Azibo e Sendas, bem como os marcos quilométricos ainda existentes no canal, tendo o Movimento Cívico pela Linha do Tua agido ao longo dos anos no sentido dessa mesma preservação, em acções como o “Entrar na Linha”; a segunda, é se a interessante e correcta opinião avançada pelo vereador socialista macedense Rui Vaz, de preservação do canal para a sua reactivação ferroviária, e construindo-se a ciclovia junto a este (o denominado rail-to-trail, tão utilizado por exemplo nos EUA), foi tida em linha de conta. Nada neste projecto faz qualquer sentido. O despesismo gratuito, o sentido de oportunidade, o virar de costas às necessidades das populações, a vista grossa a decisões estratégicas flagrantes no curto prazo, a comparação com o custo de reactivação da linha do Tua, mesmo depois dos constantes avisos sobre estes números, remetidos tanto a nível pessoal como por associações como o MCLT, são inqualificáveis. Fazer esta ciclovia é um acto imediatista e de pequenez, com consequências graves, e que deveria ser melhor escrutinado, tanto pelas Assembleias Municipais, como pelos próprios munícipes.

por Daniel Conde

Nota: O autor optou por não escrever segundo as regras do Acordo Ortográfico
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Comentários
04-04-2018 9:56:11 por Daniel Conde
Paulo Santos, nunca, em circunstância alguma, em mais de 11 anos de luta activa pela Linha do Tua, eu vi alguém inclusivamente eu a dizer que a culpa do estado lastimoso desta via era de operadores turísticos ou de cicloturistas. De onde foi tirar essa ideia, ultrapassame.Está também equivocado quanto à inviabilização da Linha do Tua pela barragem do Tua. Como já expliquei em mais do que uma fonte, nada, repito, absolutamente nada impede o reatamento da ligação ferroviária entre o Tua e a Brunheda. A solução, essa sim uma obrigação da EDP por via do caderno de encargos da barragem, passa pela construção de um canal novo desde o apeadeiro de São Lourenço até à barragem, e descendo para a estação do Tua num traçado em ziguezague, tecnologia do século XIX utilizada em várias vias por esse mundo a fora, como a Nariz del Diablo nos Andes, e a Darjeeling nos Himalaias.O dito potencial do troço Carvalhais Bragança enquanto ciclovia também me escapa. Se leu o artigo, verá que rampas de 2 em dezenas de quilómetros não constituem um atractivo muito forte à sua utilização, estamos a falar de uma zona mal servida de transportes públicos e com índices de envelhecimento astronómicos, e o comprimento deste troço fará com que praticamente metade do percurso não será utilizado de todo. Já para não falar que se anda a arrastar uma discussão séria sobre como aproveitar a passagem do AVE a raspar as fronteiras de Bragança, sendo que uma conexão ferroviária é de longe a mais desejável.O que realmente nos resta é incutir algum juízo aos autarcas do eixo Mirandela Bragança, e que tenham a honestidade política, já para não dizer intelectual, de antes de dizer que é utópico reabrir a Linha do Tua que apresentem um estudo decente que o comprove.
02-04-2018 23:56:46 por Paulo Santos
A Linha do Tua ficou inviabilizada pela construção da barragem da EDP. Não foram nem os operadores turísticos privados nem os cicloturistas que a destruíram. Restanos o seu potencial para inclusão na Rede Nacional de Cicloturismo. www.ecovias.pt
02-04-2018 15:51:21 por Daniel Conde
Em resposta ao António Gomes, quando a CP decidiu encerrar estas linhas, teve o apoio em massa de várias autarquias de Norte a Sul. A Linha do Tua essa foi vendida por troca com o IP4 e uma ponte na estrada Bragança Vimioso. A CM de Bragança então procedeu rapidamente à venda dos carris dentro do seu concelho, sendo ainda hoje normal ver inúmeros tractores com alfaias que têm segmentos de carris da Linha do Tua dependurados, para ajudar a alisar a terra. CM de Bragança presidida por Jorge Mina, que ainda hoje afirma que não se lembra de na altura do encerramento a população se ter manifestado ver o que se passou no YouTube em A Linha do Tua O Grande Roubo.Já o material circulante que ficou para trás em Bragança, teve dois fins distintos: os vagões vários, sublinhese foram para a sucata, o material histórico encafuado numa cocheira exígua a servir de secção museológica, que já está temporariamente encerrada desde talvez 2002 até hoje. Nela se inclui a própria locomotiva inaugural da Linha do Tua, pilotada pelo próprio engenheiro responsável pela construção do troço Tua Mirandela. Material sem importância nenhuma para a História de TrásosMontes no Século XX, portanto.Ou seja, até aqui, Bragança está de parabéns, na salvaguarda do património e da memória da Linha do Tua.Depois temos a primeira transformação de parte do canal dentro da cidade numa ciclovia, sendo que quando confrontado com os custos o anterior autarca ficou incomodado comigo, e o actual afirmou publicamente, no encerramento de um debate no qual participei em Bragança enquanto orador, e no qual demonstrei a viabilidade com números e factos da reabertura de Vias Estreitas em TrásosMontes, que o regresso do comboio é, e cito, mais difícil. Onde está o estudo no qual ele se suporta para o afirmar, desconheço.E pronto, de TrásosMontes vamos tendo isto.
29-03-2018 21:50:47 por Carlos Areosa
Eco pista, Macedo de Cavaleiros a Bragança Não obrigado. Os ciclistas têm na região percursos alternativos. Revitalizarse a linha de Mirandela a Bragança, constitui prioridade para combater o isolamento, a desertificação do interior, o canal para escoamento dos produtos de excelência da região, inclusive para exportação para a Europa.Sejam visionários. Não ao subdesenvolvimento da região e à manifesta escravização, em detrimento do litoral.
29-03-2018 17:08:14 por Antonio Gomes
Logo no início, quando a CP decidiu abandonar a ferrovia do Tua, as C. Municipais, deviam, logo nesse momento, tomar conta do equipamento,ainda todo operacional e repensado, elas próprias, C.M., se a ferrovia era importante ou não para os seus eleitores. Mas não Deixaram andar, deixaram roubar as infraestruturas e nada fizeram. No dia do primeiro roubo, deviam ter expropriado em favor das CM., por abandono do proprietário, de todo o equipamento. Digo todo, porque havia muito equipamento circulante espalhado ao longo da linha. Quem fala da Linha do Tua, fala das outras linhas de Montanha existentes nos Distritos de Bragança e Vila Real. Hoje, todo o investimento feito estaria diluído. Hoje só resta a nostalgia de linhas lindíssimas que desapareceram por abandono e roubo sem que ninguém tenha sido preso por isso, mas, houve muita gente a lucrar com os ROUBOS de património de todos nós.
  
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