quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
09-10-2017

Ver para crer.
Uma ferramenta para ver e analisar viagens em modos suaves!
Em Gante (Bélgica), os técnicos do município decidiram colocar um sinal a apontar para o percurso que ia dar a uma “autoestrada” para bicicletas. Essa decisão veio na sequência de terem observado os dados GPS das trajetórias de utilizadores de bicicleta que estavam a usar a aplicação de telemóvel B-Riders. Parte dos ciclistas, não compreenderam os técnicos, continuam a fazer o seu caminho habitual, paralelo e do outro lado do canal, sem se aperceberem que podiam chegar de forma bem mais rápida e confortável se seguissem pela nova “autoestrada”!



A qualidade da infraestrutura ciclável faz toda a diferença na rapidez, conforto e segurança de quem se desloca de bicicleta. Já em Lisboa, nas discussões que precederam a realização do percurso ciclável no Eixo Central, houve também uma influência importante dos dados de tracking, que revelaram por onde é que os ciclistas preferiam passar ao fazer o percurso em direção à Baixa. Uma simples visualização do mapa de calor da aplicação Strava permitiu perceber que, apesar dos constrangimentos, era ali mesmo, na Av. Fontes Pereira de Melo, que os ciclistas preferiam passar.

O tipo de questões que a observação e análise de dados de tracking suscitam varia bastante conforme o nível de adesão à bicicleta. Nas cidades “principiantes”, as questões são mais básicas, como perceber de onde e para onde devemos criar percursos cicláveis ou, como aconteceu em Bologna (Itália), definir os locais para instalação prioritária de estacionamentos para bicicleta. Em cidades “avançadas”, as questões tendem a relacionar-se mais com a fluidez, como em Eindhoven (Holanda), onde se procurou calibrar com dados reais os impactos de uma nova “autoestrada” para bicicletas.

Contudo, foi surpreendente verificar, no inquérito desenvolvido no âmbito do projeto europeu TRACE – Walking and Cycling Tracking Services (http://h2020-trace.eu/), que a utilidade percecionada deste tipo de ferramenta pelos stakeholders consultados era mais “política” do que técnica: a razão número um para passar a usar dados de trajetórias era “comunicar com os decisores políticos” – só depois disso apareciam as razões técnicas! A verdade é que os dados de tracking tornam os utilizadores de bicicleta e os peões visíveis, e isso aumenta a consideração pelas suas necessidades!

O projeto TRACE e a ferramenta TAToo
O projeto TRACE, do Programa Horizonte 2020, a decorrer desde 2015, tem como missão avaliação do potencial de ferramentas que possibilitem a análise das trajetórias pedonais e cicláveis e criar ferramentas que promovam a mudança de comportamento e a melhoria dos processos de planeamento e decisão.

Uma das vertentes do TRACE é o incentivo à utilização dos modos suaves, através das apps Biklio (desenvolvida pela TIS e INESC-ID) e Positive Drive, que oferecem benefícios a quem se deslocar de forma sustentável.

Este tipo de apps geram dados GPS de trajetórias das viagens realizadas a pé ou de bicicleta, que podem ser muito valiosas para efeitos de planeamento e definição de políticas relacionadas com os modos suaves por parte de autarquias, autoridades de transportes ou outro tipo de utilizadores. Para o efeito, é necessário que os dados disponíveis se transformem em informação clara e legível, pelo que se criou também (e se encontra a ser testada) a ferramenta TAToo – Tracking Analysis Tool, destinada a transformar os dados de tracking de peões e ciclistas em informação relevante.
 
Indicadores TAToo
O processo de seleção dos indicadores a constar no TAToo baseou-se numa consulta de stakeholders (predominantemente técnicos de mobilidade e representantes de utilizadores), através dos inquéritos e de um workshop, que resultou numa lista de indicadores desejáveis.
Graças à operação de mapmatching (perceber e registar a que elementos da rede de mobilidade pertencem os pontos das trajetórias registadas), o TAToo permite calcular indicadores para quatro “dimensões” de análise da rede: os nós, os arcos, as zonas e os pares origem/destino. Os indicadores oferecidos pela ferramenta são o volume de utilizadores, a velocidade média, a distância de viagem, o tempo de espera e, em função deste, o nível de serviço e o congestionamento.
A especificação destes indicadores foi realizada pela TIS e o desenvolvimento dos módulos de mapmatching e cálculo de indicadores foi feito pela PTV SISTeMA.

Outros inputs permitidos pelo TAToo...
Um dos pontos fortes da ferramenta é permitir utilizar tanto um mapa próprio como aplicar um mapa baseado no OpenStreetMap (OSM), que está disponível para todo o mundo, e cuja conversão é realizada por um módulo do TAToo desenvolvido pelo INESC-ID.
 
O TAToo permite também a utilização de zonamentos definidos pelo utilizador (p.e., bairros, freguesias ou cidades). No caso de o utilizador não possuir um zonamento próprio, a ferramenta cria um automaticamente.


É permitida ainda a segmentação por tipo de utilizador, com dados de género, idade, entidade patronal ou qualquer outro parâmetro que seja útil para perceber o comportamento de diferentes segmentos de utilizadores. As análises realizadas podem também ser vistas separadamente para cada dia da semana e horário. Uma vez filtrada a informação pretendida, os resultados podem ser visualizados com recurso a softwares SIG e gráficos produzidos pelo próprio TAToo. Para facilitar a visualização em SIG e potenciar a sua utilização por utilizadores não proficientes, a ferramenta produz automaticamente um conjunto de mapas temáticos que podem ser visualizados no software gratuito QGIS.

... e o seu enorme potencial!
De acordo com os inquéritos realizados no âmbito do projeto TRACE, as trajetórias GPS de deslocações em bicicleta (“em bruto”) já são, hoje em dia, uma valiosa fonte de informação para 62% dos consultores de transportes; imagine-se, por isso, o potencial – a vários níveis – de uma ferramenta capaz de tratar esta informação e produzir resultados visíveis.

A um nível “macro”, o TAToo possibilita o cálculo de indicadores globais descritivos da mobilidade pedonal e ciclável numa determinada área, que podem ser comparados com outros locais.
 
Podem também analisar-se características específicas dos fluxos numa área, e quais os percursos mais escolhidos; esta informação poderá ser especialmente importante na preparação de planos de mobilidade sustentáveis, ou ainda na definição de uma hierarquia da rede ciclável ou planeamento de uma rede de bikesharing.

A um nível “micro”, é possível retirar do TAToo conclusões relevantes sobre eventuais estrangulamentos na rede ou identificar locais com menor qualidade de circulação. É também possível monitorizar o efeito de intervenções na rede, ou cruzar os indicadores da ferramenta com outro tipo de informação disponível (como a influência dos usos do solo na utilização).

A equipa
O TAToo foi um esforço conjunto da TIS (especificações e UI), do INESC-ID (módulo de conversão de mapas OSM) e da PTV SISTeMA (mapmatching e cálculo de indicadores). Os parceiros do projeto TRACE encontram-se já a testar a ferramenta, mas se pretender também conhecer melhor o seu potencial e utilizá-la para conhecer mais eficazmente a mobilidade em modos suaves na sua cidade ou área metropolitana, pode contactar a equipa através do seguinte endereço eletrónico: tatoo@tis.pt

por André Ramos e João Bernardino
 
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