quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

 
Passageiros & Mobilidade
09-10-2017

O futuro da Mobilidade
Como três conceitos vão ditar o novo paradigma do setor automóvel e da mobilidade
O setor automóvel e da mobilidade encontram-se hoje em dia no início de uma profunda transformação. Interessa, portanto, compreender os fatores que estão a impulsionar a mudança e como os conceitos e tecnologias emergentes poderão levar a um novo paradigma de mobilidade. É uma altura emocionante para trabalhar neste setor em que o desafio não é prever o futuro mas sim construí-lo.



O paradigma de mobilidade que atualmente predomina por todo o mundo está centrado no transporte individual. As raras exceções – em que há elevadas taxas de utilização dos transportes coletivos e/ou dos modos ativos (a pé, de bicicleta, etc.) – são bem conhecidas e localizam-se fundamentalmente no centro e no norte da Europa. Este paradigma permanece inalterado há décadas e tem por base a compra/propriedade de um veículo. Com ambientes urbanos globalmente mal preparados para os modos ativos e com sistemas de transportes coletivos deficitários na cobertura, na frequência e/ou na integração – pelo menos relativamente à perceção da maioria da sociedade – um veículo assegura ao seu proprietário a capacidade de se movimentar quando quiser, para onde quiser e, quase sempre, de porta a porta. Tendo em conta que, em média, um veículo permanece estacionado mais de 90% do tempo, o seu valor parece então residir não apenas na sua escassa utilização mas muito significativamente na disponibilidade imediata da sua utilização. Um veículo constitui-se assim como uma garantia de mobilidade.

Já o filósofo grego Heráclito dizia, nos anos 500 a.C., que “no mundo, tudo muda e nada permanece igual”. O setor automóvel e da mobilidade está atualmente a viver uma fase de mudança, que está a ser promovida por dois fatores principais – um extraordinário desenvolvimento tecnológico, que impulsiona a criação de novos serviços de mobilidade, e uma crescente preocupação das sociedades com a sustentabilidade do planeta, promovendo a descarbonização do sector dos transportes como forma de combate às alterações climáticas.

No âmbito desta transformação, três conceitos vão ganhando preponderância – a economia de partilha, a descarbonização e os veículos autónomos. É neles que deverá assentar o futuro da mobilidade. Irão alavancar-se mutuamente embora seja de esperar que se imponham no mercado em alturas distintas.

O aparecimento repentino de novos serviços de partilha – por exemplo, de ridesharing como a Uber – veio aumentar a abrangência e a capilaridade do sistema de transportes e, em particular, oferecer novas soluções para as deslocações first mile/last mile. Ao mesmo tempo, ao promoverem uma utilização mais intensiva dos veículos, estes serviços permitem reduzir de forma significativa o custo por quilómetro.
Neste contexto, são o primeiro passo para a alteração do paradigma de mobilidade – com a ênfase a passar da posse do veículo para a utilização do serviço (i.e., da venda de veículos para a “venda de quilómetros”).

A massificação destes serviços (e sua integração com outros) permitirá fornecer ao consumidor uma nova garantia de mobilidade, com um preço por quilómetro mais reduzido mas também praticamente instantânea – note-se que nos grandes centros urbanos o tempo de espera (entre o pedido de um veículo e a chegada desse veículo) reportado pela Uber é, em média, inferior a 5 minutos.

Estes serviços tenderão a acelerar a transição para a mobilidade elétrica pois a redução do custo por quilómetro permitirá compensar o (ainda) maior custo inicial de um veículo elétrico, devido à incorporação das baterias, face aos veículos de combustão. Importa salientar que, atualmente, a venda de veículos elétricos e híbridos cresce ao ritmo de 20% e 40% ao ano e que a previsível evolução tecnológica das baterias deverá tornar estes veículos definitivamente competitivos, na relação preço/autonomia, por volta de 2020.

Apesar de todas estas mudanças consideráveis, prevê-se que a grande disrupção venha a acontecer com a chegada ao mercado dos veículos autónomos de nível 4 e 5 (i.e., já sem necessidade de interação do condutor humano). De facto, os veículos autónomos têm um potencial único para alavancar estas mudanças e de confirmar definitivamente a alteração do paradigma para a mobilidade como serviço. Por outro lado, inúmeras questões estão ainda por responder.

Do ponto de vista da natureza comportamental e da ética, como será a coexistência de condutores humanos e veículos autónomos? Como é que um veículo autónomo tomará a sua decisão num caso iminente de vida ou morte? Por exemplo, quando enfrenta uma situação em que, ou tenta salvar os ocupantes do veículo, ou tenta salvar os peões que atravessam a rua, não sendo teoricamente possível salvar ambos.
Associadas a estas dúvidas, há questões tecnológicas fundamentais ainda por resolver. Os algoritmos atuais de inteligência artificial funcionam como uma caixa negra e opaca, na medida em que são programados para produzir resultados (i.e., tomar decisões com base na informação que apreendem) mas em que não é possível conhecer com exatidão porque razão é que essas decisões foram tomadas. Ou seja, aplicando ao caso acima, não seria possível compreender por que razão o veículo decidiu salvar os ocupantes ou os peões.

O setor dos transportes poderá assim ficar para a história como o responsável por desencadear o (tão necessário e profundo) debate sobre a aplicação de inteligência artificial a sistemas críticos.

Tão importante como perspetivar o futuro da mobilidade – mas revestindo-se de ainda maior incerteza – é perceber quais as implicações para os diversos players do sector. Todos enfrentarão oportunidades e ameaças. Quem não se reposicionar adequadamente, poderá desaparecer. Quem conseguir inovar, deverá prosperar.

Poderão os fabricantes de componentes aproveitar para subir na cadeia de valor, por exemplo de tier2 para tier1? Será que o domínio das grandes marcas automóveis sofrerá mexidas com a perda de vantagens competitivas relacionadas com os motores de combustão? Veja-se o exemplo da Tesla e da Caetano Bus, com apostas estratégicas na mobilidade elétrica. Conseguirão os grandes grupos reinventar-se, como está a fazer a BMW com a BMWi e os novos serviços Now (i.e., DriveNow, ChargeNow, etc.)? Haverá novos players a intrometer-se no topo da cadeia de valor, com a criação de novas camadas de serviços e plataformas integradoras? Veja-se o investimento das grandes empresas tecnológicas mundiais e o reposicionamento da Brisa como operador de mobilidade.

Portugal tem vastas competências neste sector – que é um dos de maior relevo económico e social para o país. Há players industriais competitivos ao longo de toda a cadeia de valor e há universidades e centros de I&D a realizar investigação de ponta.
O Programa MIT Portugal, em particular, abrange áreas fundamentais para o sector – Sistemas de Transportes, Sistemas Sustentáveis de Energia e Indústrias Tecnológicas. Com uma década de existência, o Programa forma profissionais preparados para as novas realidades, promove debates sobre os temas cruciais em conjunto com o sector empresarial e desenvolve projectos I&DT na indústria.

Caberá a todos os players serem agentes da mudança, identificando linguagens e objectivos comuns e promovendo oportunidades de colaboração. A diversidade, a complementaridade e a integração serão a chave.

O desafio não é o da adaptação a um novo futuro. É sim construir esse novo futuro.

por João Fonseca Bigotte, Programa MIT Portugal
 
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