terça-feira, 17 de Outubro de 2017

 
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Carga & Mercadorias
09-10-2017

João Logrado – Diretor Geral da Olano Portugal
«Antes de falarmos em crescimento, devemos falar em regulação e estruturação do setor»

A importância de plataformas logísticas de armazenamento e transporte para incrementar o desenvolvimento do interior do país levou a Transportes em Revista a falar com João Logrado, Diretor Geral da Olano Portugal. Em foco estiveram o setor do transporte rodoviário de mercadorias e a dinamização da plataforma rodo-ferroviária da Guarda, de modo a criar um “hub” intermodal ?na Península Ibérica.



Transportes em Revista – Como caracteriza a Olano e o seu enquadramento na Guarda e em Portugal?
João Logrado –
A Olano existe em Portugal desde 2009 e é uma das 42 empresas do Grupo Olano, um grupo familiar, não cotado em bolsa, e que continua a ser dirigido pelo próprio fundador e pelos seus dois filhos. No ano passado o grupo faturou cerca de 300 milhões de euros em três grandes áreas de operações a nível logístico. Estas áreas operam sempre sob temperatura dirigida, quer a nível do transporte e armazenagem de produtos em temperatura negativa ou positiva, quer ao nível do transporte de produtos com origem no mar. Somos líderes destacados no mercado a nível internacional e com capacidade de resposta a pedido: desde uma caixa, a um camião completo, desde a Dinamarca, ao sul da Europa.
No fundo, o Grupo Olano é um conjunto de empresas PME’s, autónomas entre si, financeiramente e juridicamente, que correspondem a uma estrutura acionista representada pela família Olano e que tem sede em Saint Jean de Luz, no País Basco francês.

TR – O polo central da Olano em Portugal encontra-se na Guarda. Porquê esta localização?
JL –
Quando a Olano começou a trabalhar com mais frequência em Portugal tentou instalar-se no norte do país. Foi uma experiência muito curta que durou dois ou três meses, pois não existia nenhuma empresa. Existia, isso sim, uma extensão comercial de uma empresa que tínhamos na zona de Irún, em Espanha, e que fazia transportes com regularidade para Portugal. A empresa veio fixar-se na Guarda numa altura em que se falava muito na construção na região da A23 e da A25. Considerámos, assim, que iria ser o local exato pois estaria também mais perto da nossa sede, a cerca de 600 km. Nos primeiros cinco anos desenvolvemos a parte do transporte com um estudo mais aprofundado do território português. O transporte na Olano é um complemento da atividade logística da empresa. A nós interessa-nos trabalhar com o cliente a nível global, não nos interessa fazer só o transporte ou só a armazenagem. Fomos a primeira empresa a instalar-se na plataforma logística da Guarda e com a construção da A23 para sul, e da A25 para norte, pareceu-nos que a Guarda seria o local ideal para colocarmos uma empresa de logística. A Guarda não é um “hub” de entrada em Portugal, mas é o “hub” mais perto da Europa. Portugal é um grande país importador de bens por via terrestre, e daqui podemos facilmente deslocar-nos para norte ou sul do território. É uma vantagem competitiva. Por outro lado, nesta faixa interior do país, assim como no lado de Espanha, não existia nenhuma operação deste género e a Guarda tem uma centralidade muito importante.

TR – Como tem sido a evolução da Olano em Portugal?
JL –
Temos tido uma evolução muito positiva. A estratégica que adotámos de servir o nosso cliente de A a Z, e não apenas num determinado setor, tem permitido que a empresa tenha, a nível logístico, desenvolvido bastante. Há sempre uma distinção de atividade a fazer: a do transporte puro e duro e a atividade de logística e de armazenagem.
A atividade de transporte é uma atividade que tem decaído muito ao nível dos seus resultados operacionais, uma consequência do mercado e da concorrência, demasiado forte e selvagem no que diz respeito ao transporte pesado de mercadorias. Isso é prejudicial para os trabalhadores e para as próprias empresas. Felizmente o nosso grupo tem mantido parcerias com vários clientes, continuamente ao longo dos anos, ainda assim, deparamo-nos com a redução do número de transportadores em Portugal. A nível logístico, a evolução é completamente contrária. É uma evolução muito mais positiva e estruturada e isso dá-nos uma grande esperança no futuro. A estratégia que adotámos, aliando uma atividade à outra, tem-se revelado a estratégia mais correta. Se fossemos apenas uma atividade transportadora, provavelmente já nem existiríamos... porque não iríamos acrescentar nada de novo. Hoje, os nossos clientes preocupam-se em ter soluções novas.

TR – Qual é a expectativa de faturação para 2017?
JL –
Este ano, entre as duas empresas que estamos a operar em Portugal [entre logística/armazenagem e transporte], contamos faturar entre 35 a 36 milhões de euros. Em termos de faturação global, a operação em Portugal representa cerca de 10%, o que já é muito significativo.

TR – Qual a dimensão dos quadros administrativos e de colaboradores entre as duas empresas?
JL –
A Olano tem 220 trabalhadores, entre as duas empresas em Portugal, num universo global de 2000 trabalhadores do grupo. Em termos de infraestruturas físicas, esta empresa [na Guarda] é uma das maiores do grupo, que em breve terá capacidade para armazenar cerca de 30.000 paletes. Em relação aos colaboradores, a maioria são da Guarda, assim como 95% dos administrativos.
TR –Relativamente à frota, quantos camiões opera a Olano em território português e qual a idade média dessa frota?
JL – Em termos rodoviários e de camiões, é a terceira maior empresa que o grupo tem. Neste momento temos cerca de 120 camiões, com o objetivo de chegar aos 140 nos próximos anos. Atualmente [a idade média da frota] é de 3 anos, nunca ultrapassa os 5 anos.



TR – Como caracteriza o ambiente do transporte de mercadorias no nosso país?
JL –
Eu creio que estamos inseridos numa economia competitiva, mas a nossa evolução em termos mentais de estrutura dos transportes rodoviários de mercadorias não acompanhou a relação que houve, e por isso temos muitas dificuldades. Uma coisa é o mercado ser competitivo, outra coisa é o mercado ser selvagem. E neste momento, temos um mercado selvagem em Portugal. Isto não é benéfico nem para nós nem para os nossos clientes. O mercado deveria ser mais regulamentado ao nível das políticas europeias.

TR – Qual a posição da Olano relativamente à fixação das taxas ambientais?
JL –
Essa é uma nova moda que faz encarecer os custos dos transportes e que se repercute para os clientes. Hoje, transportar mercadorias é mais caro. Esta é uma realidade que é igual para todos nós. A maioria das cidades europeias já restringe a passagem de veículos pesados de transporte de mercadorias, nomeadamente, Londres, Paris... e tudo isto são custos acrescidos que aparecem no dia-a-dia, e que muitas vezes só damos conta quando o carro lá está, porque é mais uma taxa, mais isto ou mais aquilo... por isso há desregulamentação neste sentido, cada um faz as coisas à sua medida.

TR – A proibição da entrada de camiões nos centros urbanos pode ser uma oportunidade competitiva para a Olano, ao invés de um entrave de operação?
JL –
Sim, aliás, esse é o novo mundo de oportunidades. É benéfico para a logística em si. A aposta que a Olano tem feito em Portugal, que foi ligar o transporte à logística, tem sido aquilo que nos tem levado a crescer cada vez mais, até porque o próprio mercado necessita deste tipo de infraestruturas de ligação.

TR – O mercado exige que o operador seja integrador. Há possibilidade de existirem outros modos de transporte e logística na vossa cadeia de operações?
JL –
Sim, o mercado empurra-nos para essas soluções. Integrar o modo rodoviário e ferroviário é uma obrigação para integrar operações logísticas de armazenagem, de picking, de cross-docking. Não vejo o mercado crescer de outra maneira. Cada um de nós terá de ser especialista numa determinada área mas vamos ter de trabalhar mais integrados uns com os outros. Faz-nos falta, na nossa mentalidade de transportadores em Portugal, trabalhar em rede. Só teríamos a ganhar se trabalhássemos. Cresceríamos mais, de forma mais sustentável, defenderíamos melhor os nossos interesses e seria mais benéfico para os nossos colaboradores e trabalhadores. O nosso mercado é livre mas é fechado...

TR – O transporte rodoviário de mercadorias é só fazer quilómetros?
JL –
Em termos de Excel, o transporte rodoviário é fazer quilómetros, quantos mais melhor. Importa fazer quilómetros, mas fazê-los bem, e os certos, com perfeição, para que o cliente possa ter a melhor solução.

TR – O comboio pode ser uma solução?
JL –
Porque não? Acho que só temos a ganhar. À primeira vista, o comboio pode ser um grande competidor com o modo rodoviário, mas face à realidade com que nos deparamos, é por aí que podemos crescer. O comboio pode levar mais mercadorias. Para grandes distâncias, será mais rentável levar as mercadorias num comboio. Atualmente não devemos por nenhuma opção de lado. Temos é que ver a melhor solução para o nosso cliente e para nós.
 
TR – A visão intermodal para esta atividade aplica-se à região da Guarda, onde está a Olano. A plataforma logística, junto à cidade da Guarda, tem uma plataforma rodo-ferroviária que não tem vindo a ser utilizada. Na perspetiva das linhas da Beira-Alta e da Beira-Baixa virem a ser requalificadas, podem vir a reforçar a centralidade da cidade da Guarda?
JL –
Sim. O futuro da Guarda passa por darmos utilidade àqueles cais ferroviários. Eu não tenho porta-contentores, nem pretendo ter porta-contentores... mas reconheço que para os meus colegas do setor pode trazer muitas mais-valias. Certamente vamos tornar o transporte de grandes dimensões internacional mais barato, e com isso, que outras empresas se instalem na plataforma logística da Guarda. Podemos criar mais postos de trabalho e mais negócio.

TR – A Olano estaria disponível para uma parceria alargada para a dinamização dessa plataforma rodo-ferroviária?
JL –
Em primeiro lugar nós não somos especialistas, nem sabemos gerir isso... Mas apoiaríamos essa decisão, porque temos clientes que têm produtos na Guarda e que já utilizam os próprios contentores marítimos para depois exportar as suas mercadorias.
Já imaginou as nossas mercadorias poderem chegar de barco a Matosinhos ou a Sines, e depois virem aqui ser distribuídas em camiões para Madrid, Burgos ou qualquer localidade em Espanha? Só traria vantagens competitivas, por exemplo, em produtos refrigerados como frutas e legumes, com prazos de validade muito curtos. Ganhar um dia ou dois dias faz completamente a diferença na cadeia alimentar.

TR – Existe alguma parceria entre a Olano e os seus parceiros da plataforma logística da Guarda para dinamizar a plataforma rodo-ferroviária?
JL –
Informalmente tem existido diálogo... e quando as pessoas começam a ver as potencialidades para o negócio, começam todas a alinhar pelo mesmo diapasão...

TR – Numa perspetiva global de mercado de contentores, de que valores podemos falar?
JL –
Na minha perspetiva, pelo que conheço do tecido empresarial da zona e das possibilidades que temos a nível logístico, podemos estar a falar de 2000/3000 contentores por ano. Não sei se é muito, não sei se é pouco... para mim é um número muito grande, mas para isso é preciso fazer um trabalho comercial importante. Com a ferrovia, poderemos colocar a Guarda muito mais próxima do mar e dar a possibilidade às empresas importadoras e exportadoras de reduzir o seu custo em termos de deslocação de contentores. Todos teríamos a ganhar.

TR – O que falta para haver mais “hubs” de mercadorias junto às fronteiras?
JL –
Nós em Portugal achamos que os grandes centros são só os grandes centros litorais. As zonas interiores têm de deixar de ser as zonas de sol nascente e de sol poente. Temos muitas empresas localizadas no interior do país. Aqui também há populações, também há pessoas... se calhar no interior habituámo-nos a não ser tão reivindicativos... esse é o nosso problema. Deveríamos promover mais o nosso interior, a nossa região, e dizer que muitos bons produtos que há no litoral, tem proveniência do interior. Falta acreditarmos em nós próprios...

TR – Desertificação... como combater esse problema?
JL –
Como empresário, como agente económico, cabe-me a mim uma parte, não o todo. No interior, nos últimos anos, deveríamos ter tido maior capacidade para argumentar, para pedir mais investimento. Se calhar valia a pena criar mais apoios, mais aberturas, devíamos utilizar mais o marketing político ou económico para captar mais investimento e trazer as pessoas para cá. Nos últimos tempos começaram a aparecer mais pessoas a reivindicar, a pedir mais ajudas. Se todos formos pacientes, se todos quiserem ajudar, certamente vai aparecer mais investimento.

TR – Este terminal rodo-ferroviário é difícil de por a funcionar?
JL –
Eu creio que não. Eu não sou técnico dessa área mas... eu acho que é algo necessário, não só para transportar contentores como para transportarmos camiões. Era uma forma de reduzirmos o número de camiões na estrada de Vilar Formoso até Irún. Era uma forma de os nossos camiões chegarem a Espanha e começarem a trabalhar com horário limpo, ganhávamos dois dias na sua produção.



TR – A plataforma rodo-ferroviária é importante para a captação de investimento em território espanhol?
JL –
Sim. Ao longo da nossa fronteira, nomeadamente na autoestrada La Plata, existem boas empresas que estão mais longe de plataformas marítimas espanholas do que portuguesas, o mesmo acontece com “hubs” de distribuição, como o nosso na Guarda. Só teríamos a ganhar com isso, e estamos a perder dinheiro, tempo e desenvolvimento em volta da discussão. Mas atenção, numa primeira fase de exploração, não será uma plataforma que vai dar muitos benefícios económicos [mas] não seria difícil rentabiliza-la do ponto de vista financeiro ou económico.

TR – Qual é a opinião da Olano em relação à política do governo sobre a energia e o gasóleo profissional? Afetou-vos de alguma maneira? É uma vantagem competitiva para o setor?
JL –
Sim, acho que é uma vantagem competitiva para o setor, mas a diferenciação do preço deveria ser ainda superior porque continua a ser, em alguns casos, mais económico, abastecer os carros em Espanha. Esta é uma medida que o Governo deveria importar de França, onde o gasóleo profissional é uma medida positiva para a economia e para os transportadores. Não tem sentido um profissional pagar um produto, que na sua estrutura de custos em Portugal corresponde a 35%, ao mesmo preço daquele que abastece sem essa necessidade, sem impacto direto na economia. Acho que é uma medida que deveria ser ampliada a todo o território nacional, quanto mais rápido melhor, porque seria benéfico para a economia, iria permitir organizar mais o sistema. Mas temos de ser céleres a fazer essas coisas. Não é anunciarmos essas medidas e depois demorar um certo tempo até serem aplicadas...

TR – A Olano sente dificuldade em arranjar bons profissionais, nomeadamente motoristas?
JL –
A um nível logístico tem existido, nos últimos tempos, uma redução da oferta de profissionais. Começando nos motoristas, como noutros setores ao nível logístico. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer nos restantes países europeus. É uma questão que temos de batalhar no futuro para que possam existir mais profissionais.

TR – Qual a posição da Olano em relação aos recentes dados do Barómetro Transportes em Revista, nomeadamente sobre a não recomendação do setor dos transportes?
JL –
Isso tem a ver com a falta de profissionalismo e de organização que existe no setor. Deveríamos ser mais profissionais, ter mais formação. A questão é que tudo isso tem um custo associado. O transporte, hoje, não é como há anos atrás: carregar no ponto A e largar no ponto B. O transporte tem de ser mais organizado, mais estruturado.
É claro que todos nós procuramos gastar o menos possível, respeitando todas as variáveis que, muitas vezes, não são transmitidas para fora do setor. Para termos uma empresa certificada, temos de ter um determinado nível de organização e os clientes têm de perceber isso.

TR – Há espaço para o crescimento do transporte rodoviário de mercadorias no território português?
JL –
Antes de falarmos em crescimento, devemos falar em regulação e estruturação do setor. O setor deveria estar mais organizado e só a partir daqui poderíamos falar de crescimento. Só trabalhando em rede se pode crescer.

TR – Qual é o papel do regulador?
JL –
Às vezes confundímos o regulador com a atividade sancionatória [mas] o regulador deveria ter um papel mais ativo, mais profundo.

por José Monteiro Limão e Pedro Venâncio
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