domingo, 19 de Novembro de 2017

 
RL 468x60
Carga & Mercadorias
21-08-2017

A lebre, a tartaruga e o caracol
Cansada do constante enxovalho que a História da célebre corrida contra a tartaruga lhe reservara, a lebre entendeu ser já tempo de limpar a sua denegrida imagem de perdedora, entendendo anunciar publicamente o repto para uma nova corrida.

Não foi sem sobressalto que a tartaruga recebeu a notícia. Embora conhecida pela sua grande longevidade, o tempo para ela também passara. Deixara-se engordar e a casa que transportava às costas estava bem mais pesada. Primeiro pensou em não aceitar e, encontrando uma desculpa, deixar a História seguir o seu curso. No entanto, porque receava que a opinião pública entendesse a sua não aceitação como um acto de cobardia, associado ao medo de perder, não lhe restava outra alternativa que não fosse aceitar o repto. Não o fez sem deixar de impor que a distância a percorrer fosse maior, para se assegurar que a probabilidade de a lebre parar para descansar e poder adormecer fosse maior, mas também que face ao seu handicap de ter a casa às costas pudesse partir de um ponto mais à frente.

Uma vez conhecidas as condições para aceitação a lebre imediatamente acedeu às pretensões da tartaruga e, eufórica, tratou de marcar rapidamente o lugar e a hora da corrida. Tinha a certeza que desta vez os ventos da História a iriam favorecer e nunca mais seria o “patinho feio” da célebre corrida.
No dia e hora aprazada, no local da contenda, uma multidão fervilhante esperava ansiosa pelo início da corrida. Os repórteres e as cadeias de televisão asseguravam que desta vez o mundo inteiro iria poder assistir a todos os pormenores da corrida. Caso viesse a acontecer teriam a possibilidade de ver ao vivo a lebre a adormecer e até de ouvir os seus roncos. Os corredores magnificamente equipados ocuparam os seus lugares nas linhas de partida (não esquecer que a tartaruga partia de um ponto mais à frente) e quando tudo se preparava para o inicio eis a surpresa. Um caracol, de aspecto insignificante, teimava em poder participar da corrida alegando que a mesma era pública e que teria o mesmo direito de dicar na História como a lebre e a tartaruga.

O júri reuniu-se apressadamente e ambos os contendores, lebre e tartaruga, aceitaram que o caracol pudesse participar impondo, no entanto, a tartaruga que ele partisse ainda mais atrás do que a lebre por ter chegado atrasado. Para espanto de ambos o caracol aceitou e, colocados os corredores no seu ponto de partida foi, finalmente, dado o tiro para que a corrida começasse. Desta forma, imediatamente lebre e tartaruga encetaram uma corrida vertiginosa, (menos no caso da tartaruga), rumo a uma meta ainda distante. No que toca ao caracol, surpreendentemente o único gesto que teve foi sacar de um telemóvel da sua casca e encetar várias conversações em inglês para diversos pontos do mundo que o público pode ir acompanhando em direto.
Aparentemente estaria a negociar algumas parcerias que o ajudassem a ganhar o seu lugar na História. Depois, e porque as câmaras se aproximaram, tornou-se percetível que acabara de baixar uma app para o seu telemóvel que calmamente ia agora utilizando.

Ninguém percebia tão aparente calma nem entendia o rumo da História. Até que surpreendentemente os presentes e também os espectadores, viram surgir no céu um drone, de última geração, que pegou no caracol e num verdadeiro ápice simplesmente o transportou diretamente para a linha de meta. A tartaruga e a lebre ficaram irremediavelmente para trás. Nunca mais ninguém ouviu falar deles.

A História tinha alterado o curso desta corrida. Para além de haver mais concorrentes outras variáveis passaram a ter uma importância decisiva. A tecnologia, a inovação, a capacidade de networking e sobretudo a simplicidade e rapidez de processos assente na conjugação óptima de todos eles, fizeram e fazem do caracol o grande vencedor daqui para a frente. O paradigma mudara. Não se tratava mais de correr desalmadamente para chegar à meta e vencer, mas sim assegurar, à partida, que se criavam as condições para chegar à meta em primeiro, mesmo sem precisar de correr.

Lembrei-me desta história a propósito da necessidade, para ontem, que no Sector todos sentimos de: preparar os portos para poder receber navios maiores, atraindo investimento e conectividade, para poder fazer parte de cadeias logísticas mais eficazes, e melhorar a nossa competitividade externa (conclusões do último Congresso da AGEPOR).

Se não nos despachamos os caracóis que por aí andam vão ultrapassar-nos sem darmos por isso.

por António Belmar da Costa
957 pessoas leram este artigo
146 pessoas imprimiram este artigo
0 pessoas enviaram este artigo a um amigo
0 pessoas comentaram este artigo
Comentários
Não existem comentários
  
Deixe o seu comentário!

 


 

  



Spinerg


  




Chronopost







RSS TR Twitter Facebook TR Canal Transportes Online

Dicas & Pistas © 2009, Todos os Direitos Reservados

Condições de Utilização | Declaração de Privacidade
desenvolvido por GISMÉDIA