quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

 
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Passageiros & Mobilidade
08-08-2017

A hora da verdade
“Lisboa nunca fará parte das grandes cidades europeias se os municípios e o Estado não apresentarem planos para um futuro sem dependência de carros”.

Assim começa um artigo de opinião da luso-libanesa, editora de profissão, Safaa Dib, publicado no Jornal Económico do passado dia 22 de março, sob o título “Transportes Públicos, uma política fracassada”.

Escolhi esta frase para dar o mote ao tema deste artigo porque me pareceu que resume com felicidade aquilo que melhor caracteriza o espírito e a cultura portuguesa no que diz respeito às questões da mobilidade e dos transportes.
Devo acrescentar que, para a frase estar mais consentânea com a realidade lusitana deveríamos substituir o “se não apresentarem” por “porque não apresentam planos para um futuro sem dependência de carros”.

Efetivamente, esta é a realidade da generalidade dos municípios e áreas metropolitanas do país. E quando se faz uma aposta nos transportes de uma qualquer localidade, de um modo geral privilegiam-se os centros urbanos e descuram-se os territórios circundantes, as zonas suburbanas, as periferias. O erro é básico e clássico: sem resolver as questões de mobilidade das zonas suburbanas asfixiam-se os centros urbanos com os milhares de viaturas particulares que invadem as cidades, exatamente por não haver alternativas sólidas e consistentes de transportes públicos.

Há poucos dias lia uma entrevista do vereador Sá Fernandes da CML em que este afirmava a necessidade de reforçar os transportes públicos da cidade de Lisboa.

Essa medida é indispensável. Mas nunca será suficiente se não houver uma política semelhante relativamente à oferta suburbana de transportes públicos. Só assim conseguiremos ter um plano de mobilidade que ultrapasse a esfera urbana.

Que nos interessa que os transportes da cidade de Lisboa por exemplo tenham uma oferta generosa, se as periferias a tiverem em deficit, obrigando as populações a encontrar alternativas no transporte individual?

Como posso fazer uma aposta no transporte público enquanto utilizador, se me oferecem carreiras de hora a hora, em hora de ponta, e se à noite e fins de semana nem sequer tenho transportes?

Porque razão vou decidir-me por não utilizar o carro diariamente para as minhas deslocações se as circulações, para além de escassas também são excessivamente demoradas para as minhas necessidades médias?

Os principais drivers de um sistema de transportes públicos capaz de dar resposta às necessidades de mobilidade das populações, quer dos centros urbanos quer das periferias, são, como sabemos, a confiança, a intermodalidade, a frequência e o preço. Temos, pois, de os garantir para termos sucesso.

E para os garantir temos de começar por ter um pensamento estratégico no planeamento e construção das redes de mobilidade. Esse é o nosso principal desafio.

O desafio seguinte passa por criar as condições para a sua sustentabilidade e isso só se consegue com o financiamento do sistema.

Só com uma boa solução a este nível poderemos ter sistemas de transporte centrados nas necessidades das populações, na garantia de serviço, mesmo em percursos e horários não rentáveis, e com um preço adequado face ao nível de vida médio da população servida. E isto, insisto, é verdade tanto para a mobilidade dos centros urbanos, como para as áreas suburbanas.

As soluções em preparação pela CML – enquanto autoridade de transportes da cidade de Lisboa - de acordo com as diversas declarações públicas dos seus responsáveis - vão claramente no sentido do incremento da qualidade, com mais frequência, mais e melhores soluções nos bairros da cidade, ajustamento dos horários, a par de alguns incentivos tarifários para certos segmentos da população. Em síntese, mais respostas e mais confiança.

Esta nova realidade na mobilidade da cidade de Lisboa, porém, só se tornará realidade porque a autoridade de transporte foi capaz de assumir uma solução para o financiamento do sistema (designadamente através das receitas do IMI e do estacionamento). De outra forma seria impossível.

As (restantes) autoridades de transporte, leia-se, a AML, a AMP, e, um pouco por todo o país, as autarquias (Câmaras Municipais e CIM’s), terão de assumir um posicionamento idêntico, sob pena de continuarmos a criticar os nossos sistemas de transporte e culpar sistematicamente os Operadores de Transporte de insuficiências imputáveis às Autoridades de Transporte.

Cego não é só aquele que não vê…


por Luís Cabaço Martins
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