sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
26-04-2017

O inferno das APP’s
O Dr. Faísca comentava com um amigo, com o entusiasmo que lhe é próprio e que tanto jus faz ao seu nome, o quanto as novas app’s de apoio à mobilidade lhe tinham facilitado a vida. Primeiro nas deslocações mais longas e complicadas, mas agora já no seu dia-a-dia, desde o táxi e o carsharing até às várias combinações de transporte público, otimizadas para cada situação em concreto e utilizando sempre e só o seu telemóvel.

Quando estava a ilustrar os seus feitos com um exemplo recente, o Dr. Faísca exclama: “Esta agora, não é que me cobraram até ao fim da linha, como se eu tivesse feito 60 quilómetros e eu nem seis fiz? Espera, diz aqui que me cobraram a viagem até ao fim da linha, porque eu não indiquei o local de saída. Mas então isso não é automático? Isto não fica assim, vou protestar!”

É então que o amigo, também versado nestes temas, explica: “Nas linhas urbanas, a saída é automática porque a app deixa de apanhar o sinal emitido pelo veículo. Mas, apesar de teres feito um trajeto curto, usaste o serviço regional, que já não funciona assim. Tinhas de dar a saída aqui neste botão”. “Raios!”, exclama o Dr. Faísca. “Quis aproveitar o voucher que tinha ganho nas minhas viagens mais longas, mas afinal ainda me saiu mais caro!”

“São coisas que acontecem”, conforta-o o amigo. E continua: “Um dia destes queria carregar a minha conta para o estacionamento junto do escritório e carreguei na app do estacionamento lá da terra. Fiquei com o dinheiro ali empatado, que nunca mais vou gastar. A princípio era muito giro quando saia uma app nova para nos dar mais serviços, mas isto agora tornou-se numa grande confusão!”

Esta conversa ficcionada, num tempo hipotético e num local imaginário, traduz um risco que nada tem de improvável. Até porque os antecedentes estão aí: a tecnologia dos cartões sem contacto tinha tudo para tornar os sistemas mais simples e acessíveis, mas em muitos casos as complicações aumentaram, afastando ainda mais as pessoas dos serviços públicos de mobilidade.

Só que estamos agora numa nova dimensão: temos o telemóvel, com uma capacidade de memória um milhão de vezes superior à dos cartões e com apps que percebem o que dizemos e o que gesticulamos, que sabem onde estamos e o que fazemos e que nos ligam, tanto à cancela à nossa frente que precisamos abrir, como ao resto mundo. A escalada de complexidade e confusão é um perigo real, até porque o contexto se mantém, entre as boas intenções e os “umbiguismos”.

Mas voltemos à conversa entre o Dr. Faísca e o seu amigo. Com os olhos semicerrados, como lhe era peculiar nos momentos de epifania, o Dr. Faísca sonha: “Devia era ser possível fazer tudo a partir da mesma app! Apanhar transportes, estacionar, abastecer e até lavar o carro. Não quer dizer que todos usassemos a mesma app; cada um usava aquela que lhe desse mais jeito. Mas, em cada uma, fazia-se tudo sempre da mesma maneira e era tudo pago também de uma mesma forma”.

E o amigo acena com a cabeça, num gesto de aprovação: “É isso mesmo! Era tudo mais simples e até evitava fazermos figuras tristes. Um dia destes, estava a querer entrar no metro e não conseguia apanhar o sinal da estação para ativar o serviço. Baralhei-me, porque isso é em cima, na estação dos comboios; no metro é preciso ler um QR code. Ali andava eu a gesticular com o telemóvel no ar, quando um jovem passa por mim e diz: ó amigo, não vale a pena tentar, aqui não há pokémons!...”

por Manuel Relvas
Tags: APPs   Manuel Relvas   Mobilidade  
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