quinta-feira, 23 de Março de 2017

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
20-01-2017

Uma mão cheia de nada
A Autoridade de Gestão do POSEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos) lançou um Aviso-Concurso destinado à promoção da eficiência energética nos transportes públicos coletivos de passageiros incumbidos de missões de serviço público. Recentemente, o POSEUR realizou uma sessão, em conjunto com a ANTROP, para informar os operadores sobre os apoios que existem para a implementação de medidas de eficiência energética e racionalização dos consumos nos transportes públicos e que se enquadram nos apoios do programa “Portugal 2020”. Durante a apresentação, o Senhor Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, frisou que os privados são uma fatia fundamental dos transportes de passageiros em Portugal, mas na verdade não é isso que verifico na prática. Eu, que conhecia, detalhadamente, o aviso do POSEUR, não ouvi nada de novo e confirmei a sensação que tinha.
Nós, privados, fomos chamados para aparecer na “fotografia”, mas no meu entender não há vontade real de que o dinheiro seja usado nos nossos autocarros (privados), para uso dos nossos utentes.
Senão vejamos:
A obrigação de autocarros de classe 1, puramente urbanos, em Portugal, faz sentido nas grandes cidades portuguesas, nomeadamente Lisboa, Porto, e eventualmente Braga e Coimbra. No entanto estas cidades são servidas pela STCP, Carris, TUB e SMTUC. Ou seja, públicos. Nós, os privados, fazemos a periferia das cidades, os acessos às cidades e as cidades pequenas. Ora, para esse tipo de serviço não são utilizados autocarros de classe 1, mas sim de classe 2.
Dos 8000 autocarros privados Portugueses, quantos são de classe 1? Certamente uma minoria.
Os serviços de carreira privados em Portugal são, de uma forma geral, por si só deficitários. Os privados complementam essas carreiras com serviços de aluguer dos passeios escolares, turismo religioso e sénior. Autocarros de classe 1 não são indicados para isso. É comum, no nosso caso que estamos na área metropolitana do Porto a cerca de 20 quilómetros do centro, fazer as carreiras da manhã para transportar alunos e trabalhadores e depois na hora morta fazer um serviço de aluguer com a mesma viatura e motorista de uma viagem de estudo de uma escola. Autocarros classe 1 não são próprios.
Abriram um aviso que nos permite fazer um investimento de cerca de 600 autocarros (e deram 100.000€/autocarros nos 60 milhões). Ora, se os privados ficarem com uma fatia de 50%, estamos a falar de 300 autocarros privados.
Neste milénio já foram adquiridos 300 autocarros novos de classe 1 em Portugal pelos privados?! Tenho dúvidas, ou melhor certezas, que não foram.
Ora, se de 2000 a 2016 não se compraram 300 autocarros novos de classe 1, porque é que haverá uma “corrida ao ouro” à compra de autocarros. Sendo que esses autocarros vão custar cerca 115% do custo de um autocarro Euro 6.
E por falar em Euro 6, existe atualmente algum autocarro Euro 6 de classe 1 afeto exclusivamente a carreiras de transporte público em Portugal?
Quase garanto que não.
Mas há centenas de autocarros Euro 6 afetos a outros serviços que não as carreiras públicas. No caso da AVFeirense posso dizer que após a entrega das novas unidades em janeiro próximo, 20% da nossa frota é Euro 6 (nenhum de classe 1 afeto às carreiras).
Quando li a lei há cerca de um ano, dizia que iriam financiar autocarros de baixas emissões. No aviso, diz que apenas financia a diferença de custo.
Em Portugal apenas os públicos têm condições para se dedicar em exclusivo às carreiras e não complementá-las com alugueres.
Isto por duas razões:
- se os públicos acumularem passivo, há um Estado que cobre. Os privados se acumularem passivo, morrem e desaparecem.
- os públicos têm os grandes centros urbanos, Porto e Lisboa, com mais densidade populacional, os privados ficam com os restos.
Depois há a grande questão: será certo investir agora sabendo que dentro de dois anos não sei se tenho operação?
Vou investir numa infraestrutura de abastecimento e dentro de dois anos tenho de deslocar a operação para outra região?
Financiar autocarros de baixas emissões a privados não é enriquecer os proprietários das empresas. Uma frota de maior qualidade é dar mais conforto aos nossos utentes (que também pagam impostos e também votam e têm menor acesso a transportes públicos). O nosso bem comum atmosférico não distingue públicos de privados. Quando poluímos é indiferente se é privado ou público.
A STCP tem cerca de 450 autocarros.
À volta do Porto existem empresas com mais de 80 autocarros a fazer carreiras, nas quais se incluem a AVFeirense (105), a UTC, MGC, Espirito Santo, Gondomarense, Valpi, Landim, Pacense, Resende, Transdev e ainda dezenas de outras de menor dimensão.
Mais uma vez, os privados são o parente pobre dos transportes. E, mais uma vez, os utentes dos transportes de empresas privadas ficarão lesados em relação aos seus concidadãos que vivem no centro da cidade.
Por isso, para os privados,
O POSEUR É UMA MÃO CHEIA DE NADA

por Gabriel Couto, Auto Viação Feirense
Tags: Gabriel Couto   Opinião  
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