segunda-feira, 26 de Junho de 2017

 
Carga & Mercadorias
06-10-2016

Sustentabilidade na logística:
A resposta das cadeias de abastecimento e logística
As maiores distâncias percorridas e a maior velocidade que a sincronização das cadeias e o consumidor exigem, com fluxos de cada vez maior dimensão, em volume de massa, fracionamento e numero de sku, têm gerado uma evolução no consumo da energia, das infraestruturas e no impacto ambiental, que se constitui como um desafio à sustentabilidade, quer na dimensão dos recursos energéticos, em particular dos hidrocarbonetos, quer nos efeitos externos, principalmente ambientais e de saturação das infraestruturas.


No domínio da econoesfera, a evolução da organização do tecido económico e social tem determinado uma concentração progressiva dos povos em cidades, onde já mais de 50% das pessoas vive atualmente, com tendência progressivamente crescente (a World Urbanization Prospects by UN DESA’s Population Division, na revisão de 2014, estimava em 54% o valor atual e 66% em 2050) agravado nas economias emergentes onde só as cidades grandes dispõem de serviços e condições adequadas de vida, ou a que pelo menos a que as pessoas que lá vivem podem aspirar.

Apesar desta tendência se verificar desde os anos 60, e desde essa época terem sido elaborados estudos e criado sistemas de planeamento, monitorização e controlo cada vez mais sofisticados, só recentemente se têm valorizado as abordagens colaborativas dos stakholders, por via do reconhecimento de que a complexidade dos problemas e dos sistemas não pode ter respostas unilaterais, fracionadas e desalinhadas.

No âmbito dos métodos e processos de gestão que as necessidades e a tecnologia vão permitindo desenvolver, o novo paradigma da economia da partilha e da colaboração é seguramente um caminho, não o único, de melhoria da capacidade de transporte do planeta. Sendo certo que esta é uma das mais difíceis de definir de forma intemporal, dadas as expetativas que em cada época se criam, mas que poderemos definir nos seus aspetos essenciais de forma consensual (Conceito OECD 2011), como o acesso à educação, a alimentação, saúde, a habitação, a cultura e a conetividade social. Menos nas tendências de acesso à internet, e à conectividade global, aos jogos e às compras online com entregas físicas instantâneas, mais específica do tempo atual, e não apenas das sociedades desenvolvidas, mas acima de tudo e em geral das mais urbanas em todos os continentes e estágios de desenvolvimento. Para tal, ainda segundo a OCDE, é necessário preservar o capital natural (ambiental), o capital económico, o capital social e o capital humano.

As tecnologias, que permitem a melhoria da qualidade da energia nos seus diferentes aspetos de uso e efeitos externos é um caminho que não pode nem deve ser abandonado e que no momento presente conhece algumas ameaças com a volatilidade dos preços (neste momento em forte baixa) dos recursos energéticos fósseis, principalmente dos hidrocarbonetos. Estes preços (baixos) pelo efeito negativo que criam no desenvolvimento tecnológico e no impacto ambiental pelo aumento do uso, deveriam merecer atenção especial de fora, como o UNFCCC recentemente reunido em Paris, de forma a promover uma regulação e intervenção internacionais, que não se baseie apenas nos interesses geoestratégicos de algumas nações e blocos económicos, mas adote, como determinou para os fluxos financeiros com impacto nas metas, uma orientação globalizadora para uma regulação mínima.

Também as tecnologias dos veículos e das infraestruturas têm e terão no futuro próximo uma contribuição extremamente importante para a contenção e sustentabilidade do paradigma energético atual/futuro e na sua transição para o novo paradigma com a maior contribuição de fontes renováveis.

Da mesma forma que os grandes e cada vez maiores veículos, marítimos, aéreos, e terrestres, autoguiados e geridos com sistemas de inteligência artificial, marcarão uma tendência de eficiência nos custos unitários, só complementados pelos sistemas em rede permitirão a conjugação desses baixos custos unitários, com uma taxa de utilização dos ativos suficiente elevada para garantir o menor custo total, entregando um nível de serviço suficientemente elevado com operações cada vez mais dinâmicas em ambiente cada vez mais volátil e acelerado (menor tempo de ciclo, menor pré-aviso, menores lotes, maior numero de sku e maior amplitude de variação).



Procura Crescente, Requisitos da Procura mais exigentes, Oferta Colaborativa em Redes Abertas
Os requisitos da procura do lado do consumidor poderão ser resumidos de forma simples em querer tudo, com escolha infinita, aqui e agora, imediatamente de preferência. Cada vez aparecem mais propostas de valor de cada vez maior número de negócios, alimentando e reforçando a expectativa dos consumidores de que tudo é possível. Já.

No domínio da gestão da cadeia de abastecimento e da cadeia logística que a suporta, a orientação para a colaboração, é seguramente o caminho de desenvolvimento para compaginar custo e nível de serviço, em modelos de negócio cada vez mais digitalizados e inovadores, em que a disponibilização de bens e serviços se faz de forma muito mais distribuída, rápida e volátil.

A colaboração na cadeia de abastecimento, e na cadeia logística cria novas perspetivas de modelação, e organização da oferta com maior desintermediação, maior agilidade e cada vez mais potenciada pelos novos conceitos tecnológicos da internet das coisas e da sua capacidade de disponibilizar informação global e distante da ação, relevante para processos de decisão automáticos e ações locais que usam a inteligência e a informação de forma global.

Estão a acontecer já grandes transformações, embora a maior parte na continuidade do paradigma atual, mas as transformações disruptivas vão passar a ser comuns nos próximos anos com a mudança de paradigma.

Um exemplo simples da mudança de paradigma, a contrário da tendência intuitiva para pensar que o próximo veículo para entregas rápidas e de difícil acesso urbano será o “drone”, tal só irá ter sucesso em locais de baixo trafego e baixa densidade com elevado grau de isolamento das redes, ou em espaços muito contidos.

As maravilhas das entregas urbanas em menos de uma hora e, futuramente, menos, das empresas globais como a Amazon e Alibaba, vão ser possíveis sim (já o são de forma muito limitada) através de redes colaborativas e com métodos de previsão que farão dos peritos em estatística os próximos possuidores de Ferraris. O novo paradigma será de processos colaborativos de gestão de cadeia de abastecimento, redes logísticas partilhadas e muita, muita matemática e processamento em rede de poderosos algoritmos de previsão e simulação.

A tendência será para a utilização das tecnologias, e dos grandes bancos de registo de transações os chamados “BIG DATA”, de forma a prever e antecipar as necessidades de consumo e dotar de máxima eficiência os processos de disponibilização de bens e serviços, reduzindo ao máximo o uso de recursos de todo o tipo e a sua máxima reutilização com a mais baixa quantidade de energia envolvida. As redes abertas acabarão por se impor através do crescimento acelerado de sistemas sofisticados de certificação e interface colaborativo, e criarão cadeias de configuração de geometria variável e muito rápida e dinâmica, nas diferentes escalas temporais e espaciais, desde as transações transcontinentais, à ultima milha no bairro residencial. Na Logistema estamos bem cientes desta evolução e estamos a trabalhar empenhadamente em novos modelos e produtos colaborativos, quer no domínio das cadeias dos bens de consumo e na saúde, com o portal logístico colaborativo Webpack, quer em sistemas inovadores e disruptivos da ultima milha como o Loop, o nosso ultimo produto para a gestão da logística urbana (no passado mês de junho viu o seu mérito reconhecido pela Comissão Europeia ao ter sido eleito para financiamento no programa H2020), quer de novos serviços e sistemas de transporte marítimo transcontinental, como o Azores Atlantic Hub.

Dentro de 10 anos o panorama da oferta logística e dos modelos de cadeias de abastecimento terão evoluído neste paradigma, criando um valor extraordinário, que apenas tem uma tendência menos virtuosa, a de todos os sistemas de rede, que é permitirem concentrações extraordinárias e muito rápidas. Mais tarde ou mais cedo a regulação terá de se ajustar, quer para a proteção anti monopólio natural, quer para a proteção do consumidor e dos seus direitos, especialmente em bens e serviços essenciais, como a alimentação, a saúde a educação e a conetividade (física e social).

Grandes Transformações, Nova Ordem e Regulação
No domínio da sustentabilidade ambiental e dos recursos do planeta, o aumento extraordinário do consumo amplificado pelos exigentes requisitos, resultante da demografia, da evolução social e a melhoria global da eficiência das cadeias de abastecimento é uma ameaça que apenas pode ser contida com uma regulação mais moderna e mais ajustada ao novo paradigma, e por isso desde logo cada vez mais global, que garanta a internalização dos custos externos nas transações e de uma melhor distribuição e contrapartida dos direitos e deveres a poluir. Tipicamente no passado/presente o consumo só tem sido contido por mecanismos restritivos sistemicamente negativos, como a inflação, a taxa de câmbio (e alfandegária) e o desemprego. Neste momento, como é sabido, apenas o desemprego, muito sensível a populismos, a manipulações e artificialismos políticos de curto prazo, está presente em muitas economias importantes, como é o caso da Europa que dá bem o mote à impreparação para uma gestão da mudança de forma eficaz com iniciativas como o “Brexit”.

Se por um lado, temos grandes ameaças e oportunidades ao desenvolvimento sustentável do lado dos recursos naturais e do equilíbrio ambiental em geral, a tecnologia dos meios e a evolução de métodos e processos colaborativos aplicados à modelação, em redes abertas e à gestão das cadeias de abastecimento, produção e logística, permitem antever a melhoria de performance dos sistemas e da consequente capacidade de transporte do planeta. A gestão da mudança de paradigma organizacional em particular da necessidade de regulação mais global, coloca desafios extraordinários aos modelos de organização política e liderança vigentes que constituem o único e verdadeiro último desafio à sustentabilidade, não só do ambiente mas acima de tudo à sociedade.

Nesta altura mais importante que a resposta da tecnologia, dos modelos e da gestão das cadeias de abastecimento, produção e logística, e a maior ameaça para a sustentabilidade do desenvolvimento da humanidade e do planeta que nos transporta, está, não na degradação do ambiente natural, ainda que preocupante mas tratável, mas do ambiente social e acima de tudo político que dá mostras de não conseguir adaptar-se à evolução da globalização.

por Ricardo Félix
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