quarta-feira, 27 de Março de 2019

 
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Carga & Mercadorias
28-03-2016

Projeto Novelog
Cidades europeias testam novas soluções para logística urbana
Cerca de 15 cidades europeias estão a testar novos conceitos e modelos de negócio no âmbito da logística urbana.
O projeto NOVELOG – New Cooperative Business Models and Guidance, é uma iniciativa que conta com o financiamento da Comissão Europeia,
através do programa Horizonte 2020, e pretende ser um guia de boas práticas para as cidades desenvolverem e implementarem soluções logísticas sustentáveis.




CERCA DE 72 POR CENTO da população da União Europeia está concentrada nas cidades e estas são responsáveis por 80 por cento do Produto Interno Bruto da UE. Segundo cálculos da Comissão Europeia, o transporte de mercadorias em meio urbano já representa uma parte significativa das emissões de CO2 e outros poluentes nas cidades, sendo ainda responsável por uma parte significativa da poluição sonora que se regista no ambiente urbano. Por outro lado, o transporte de mercadorias em meio urbano (UTF - Urban Freight Transport) é responsável por 14 por cento dos veículos/Km nas áreas urbanas, 37 por cento das atividades de transporte urbano, 19 por cento do consumo total de energia em áreas urbanas e 28 por cento dos custos totais do transporte porta-a-porta.

A Comissão Europeia já assumiu que, até 2030, pretende limitar e reduzir ao máximo o nível de emissões de CO2 que são provocados pela atividade de transportes e logística urbana, e anunciou que está a facilitar a adoção de novos modelos e abordagens mais sustentáveis no âmbito do planeamento da mobilidade. Em 2013, o próprio “Urban Mobility Package” da Comissão Europeia, incluiu um documento que assinala e identifica os problemas e desafios que se colocam ao setor da logística urbana a nível europeu. Por um lado, assinala a falta de coordenação entre os stakeholders do setor da logística urbana; por outro lado, refere que não há por parte das autoridades locais uma estratégia e um plano definido em relação a esta atividade, o que resulta na falta de integração da logística urbana nos planos de mobilidade das cidades e na sua política de desenvolvimento económico. A CE aponta ainda a “falta de informação e de compreensão dos fluxos logísticos e consequente inexistência de dados e a falta de avaliação dos impactos logísticos” como problemas comuns à maioria das cidades.

Um dos projetos aprovados no âmbito do programa “Horizonte 2020” e que tem um “budget” de cerca de dois milhões de euros é o NOVELOG, um consórcio que envolve cerca de 15 cidades europeias (de 8 países), várias Universidades, empresas consultoras, operadores de transportes e logística e indústria automóvel. O consórcio é composto por 30 entidades, onde se destacam companhias como a Renault, Kuhne+Nagel, Trainose (operador ferroviário grego), entre outros.

Em declarações à Transportes em Revista, Maria Rodrigues, especialista em logística da consultora holandesa Panteia, e uma das principais responsáveis por este projeto, refere que «a logística urbana potencia a cooperação entre as entidades públicas e privadas. Os modelos de negócio que existem são desenhados e implementados pela iniciativa privada e na maioria das vezes não têm em conta a componente pública, nem as restrições que as cidades podem colocar. Por outro lado, as próprias cidades também não facilitam ao nível da legislação e não incentivam a utilização de novos modos de distribuição mais sustentáveis. Portanto, só quando se consegue colocar as duas partes a cooperar é que se alcança um modelo de negócio que seja sustentável. E este é, precisamente, um dos principais objetivos do NOVELOG».

De acordo com aquela especialista, «aquilo que estamos a fazer neste projeto é testar conceitos e desenhar ferramentas para ajudar à implementação de modelos de negócio no âmbito da logística urbana. No entanto, a sua aplicação só é possível se existirem parcerias. Este é um modelo que já foi adotado em várias cidades e permite que todos os stakeholders, quer sejam públicos ou privados, se sentem à mesma mesa e discutam formas de cooperação. Depois é necessário desenhar um modelo de negócio que seja baseado numa análise de riscos e benefícios para todos os intervenientes».

O projeto NOVELOG pretende criar “guias” que possam ser utilizados como suporte para a introdução de soluções e políticas ao nível da logística urbana, através de modelos de negócio que possam ser colocados em prática, numa primeira fase através de testes-piloto nas diversas cidades envolvidas no projeto. No entanto, para que estes “guias” sejam implementados é necessário proceder à identificação dos problemas logísticos que cada cidade enfrenta, conforme refere Maria Rodrigues: «o objetivo é ajudar as cidades a identificar os seus problemas, procurar e adaptar as medidas mais adequadas ao perfil da cidade, recolher dados sobre a tipologia da distribuição urbana, avaliar a sua implementação e ajudar a desenhar o melhor modelo de negócio, ou então ajudar a incluir essas medidas nos respetivos Planos Urbanos de Mobilidade Sustentável (SUMP), caso existam. O NOVELOG vai permitir aplicar as ferramentas que foram definidas e desenhadas para o projeto. Por outro lado, também irá servir para avaliar os seus impactos e os resultados».
O projeto tem a duração de três anos e teve o seu arranque em junho de 2015, mas alguns “pilotos” já começaram a ser testados nas cidades que fazem parte do consórcio. Estes testes não são apenas físicos, alguns estão apenas relacionados com a criação de parcerias e desenvolvimento de novas soluções. É o caso, por exemplo, da capital da Dinamarca, Copenhaga, que no âmbito do NOVELOG pretende desenvolver um estudo para implementar um plano urbano de logística sustentável, envolvendo as entidades públicas e privadas na tomada de decisões.



Os “pilotos”
As cidades envolvidas no NOVELOG são Turim, Veneza, Piza, Roma (todas em Itália), Barcelona (Espanha), Mechelen (Bélgica), Londres (Reino Unido), Copenhaga (Dinamarca), Gotemburgo (Suécia), Graz (Áustria) e Atenas (Grécia). Também a região italiana da Emilia Romana faz parte do consórcio, região da qual fazem parte cidades como Reggio Emilia, Parma, Modena ou Bolonha. E é na Emilia Romana, uma das principais zonas indústrias e agrícolas de Itália, que serão testadas algumas das medidas mais ambiciosas deste projeto internacional. Com uma população de quatro milhões de habitantes, dividida por nove “comunas”, o transporte rodoviário de mercadorias na Emilia Romana é responsável por cerca de 281 milhões de toneladas/km, sendo que 15 por cento do tráfego tem origem e destino dentro da própria região. Em 2013, as principais cidades da região assinaram um acordo para criar LTZ – Zonas de Tráfego Limitado, estabelecidas em perímetros urbanos definidos, tendo igualmente ficado decidido que cada uma destas zonas teria regras próprias para a circulação de veículos de transporte de mercadorias. Através do NOVELOG, pretende-se harmonizar, a nível regional, as regras de circulação e de permissão de entrada destes veículos nas zonas assinaladas. Por outro lado, irá recorrer-se a sistemas tecnológicos para gerir todos os procedimentos de entrada e saída nas LTZ e para apoiar as operações de transporte urbano. Já na cidade de Reggio Emillia, será estudada a hipótese de construir um polo de distribuição urbana num dos parques de estacionamento do centro da cidade. Os operadores deixariam as suas mercadorias neste “hub” e a respetiva distribuição passaria a ser realizada por veículos elétricos. Na cidade de Bolonha vai ser levado a cabo um projeto que tem como principal objetivo estudar a possibilidade de criar um sistema de entregas porta-a-porta suportado numa plataforma de e-commerce para pequenas lojas. Desta forma pretende-se aumentar o fator de carga por viagem, evitando o transporte de mercadorias nas zonas internas e, também, promover o uso do transporte público.




Outra cidade italiana, Pisa, tem enfrentado nos últimos anos vários problemas de congestionamento urbano, em parte derivado da circulação dos veículos de distribuição de mercadorias, que já representam cerca de 35 por cento do volume de tráfego total na cidade. Aqui, a opção passará por incentivar a utilização de veículos elétricos para distribuição urbana, de modo a atenuar os impactos ambientais. O projeto pretende implementar um sistema que irá monitorizar todas as entradas e saídas de veículos de mercadorias no centro histórico da cidade, determinando-se a tipologia de veículo e de mercadoria. Para tal, cada operador será portador de um “passe” que comunica com uma central e que lhe dará a permissão de entrada nessas mesmas zonas, através do envio de alertas e avisos. Para além de melhorar a organização logística da zona afetada, consegue-se controlar se os operadores violam o tempo permitido de estacionamento. No entanto, se esses mesmos operadores utilizarem veículos elétricos para entregarem as suas mercadorias, as restrições são praticamente abolidas e poderão aumentar o seu próprio fluxo de entregas.



Já na cidade austríaca de Graz, o “piloto” também incide sobre a utilização de veículos elétricos para entrega de mercadorias, mas, neste caso, trata-se da aposta em bicicletas elétricas de carga. Graz já possui, desde 2014, um serviço de entregas em e-bikes chamado “bring mE”, projeto que também foi financiado pela Comissão Europeia e que foi um verdadeiro sucesso naquela cidade da Áustria. É um serviço de entregas porta-a-porta, para os comerciantes do centro da cidade, e que utiliza bicicletas elétricas de carga. No entanto, apesar do sucesso, muitos comerciantes não aderiram ao serviço porque a principal rua da cidade proíbe a circulação de qualquer veículo, logo as bicicletas estão proibidas de entrar. As entidades envolvidas neste “piloto” pretendem não só expandir a área de atuação do serviço “bring mE” (também para chamar mais comerciantes), como utilizar um software que permita otimizar as rotas das bicicletas de carga. Em segundo lugar, também querem aplicar o conceito ao setor B2B, com a construção de um “hub” que centralize todas as mercadorias. Os operadores deixam aí a sua carga e esta será posteriormente distribuída para as lojas através de bicicletas elétricas de carga e de carrinhas elétricas.
Em Atenas, a maior cidade grega, com cerca de quatro milhões de habitantes, foram identificados dois grandes problemas. O primeiro prende-se com a falta de coordenação na própria cadeia de abastecimento e o segundo com a falta de colaboração entre “stakeholders”. A fragmentação que existe ao nível da cadeia logística faz com que o volume de carga por veículo seja extremamente baixo, aumentando os custos para as próprias empresas e originando graves problemas ao nível do tráfego automóvel. O piloto tem como objetivo encontrar soluções de consolidação logística, de modo a reduzir o número de camiões a circular dentro da cidade e aliviar os níveis de congestionamento existentes. Para tal, conseguiu juntar-se dois grandes operadores, a Kuhne + Nagel Hellas, subsidiária grega de um dos maiores operadores logísticos do mundo, e a operadora ferroviária grega, a TrainOSE, que também possui serviços na área do transporte intermodal porta-a-porta. Juntamente com a Câmara de Atenas, a Universidade de Tessália e o Instituto grego dos Transportes, foi definido um modelo de negócio em que é feita a repartição e transferência de mercadorias entre os dois operadores. No entanto, o projeto está aberto a outros operadores que queiram participar nesta iniciativa. Por outro lado, irá ser criada uma plataforma para a recolha de dados e informações logísticas que possibilita às partes interessadas participar em todo o processo de decisão da cadeia de abastecimento.

Segundo Maria Rodrigues, «quando os “pilotos” terminarem, em teoria, as cidades ficam com o conhecimento e as ferramentas necessárias que lhes permite reavaliar os seus problemas, definir objetivos, escolher e aplicar medidas, assim como proceder à sua avaliação. Sabem que é necessário recolher dados e que a qualidade da informação obtida é fundamental para traçar e atingir objetivos».



Projeto Dorothy procura novas soluções de logística para a região de Lisboa
A região de Lisboa também faz parte de um cluster logístico que está a ser desenvolvido há cerca de dois anos e que pretende encontrar soluções inovadoras de logística urbana. O projeto europeu Dorothy - Desenvolvimento de Clusters Regionais para a Investigação e Implantação de Sistemas de Logística Urbana Amigas do Ambiente” é uma iniciativa que envolve quatro regiões europeias: Toscânia (Itália), Lisboa e Vale do Tejo (Portugal), Valência (Espanha) e Oltenia (Roménia). Em Portugal, os principais parceiros do “Dorothy” são a Ageneal – Agência de Energia e Ambiente de Almada, CCDR-LVT - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, Perform Energia, Instituto Pedro Nunes, Instituto Superior Técnico e Logistema. O modelo é similar ao do NOVELOG, uma vez que é baseado na cooperação entre empresas, universidades e entidades públicas, e indutor da inovação e do desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, pretende-se obter uma base de conhecimento comum entre os atores de diversas regiões da União Europeia que podem contribuir para o desenvolvimento de soluções inovadoras de logística urbana. Em Portugal, os parceiros do projeto já formaram uma plataforma colaborativa que tem como objetivo lançar e debater “iniciativas âncora” que alavanquem futuros projetos de logística urbana na região de Lisboa e Vale do Tejo. Entre os signatários deste protocolo, encontram-se as autarquias de Lisboa, Almada, Sintra, Odivelas, Santarém, Torres Vedras; empresas de transporte como os CTT, Paulo Duarte, Luís Simões, Rangel, Torrestir, Adicional, Transporta, Transportes Álvaro Figueiredo; e entidades como a TIS, GMV, Saer, Trenmo, VTM, DECO, APVGN, entre outros.
Este Cluster pretende criar uma rede de investigação e de reforço de capacidades, de partilha de conhecimentos e desenvolvimento de inovação de modo a criar um plano de ação conjunto, que abranjam áreas como as soluções ITS aplicadas à Logística Urbana (Novos modelos de negócio e otimização de processos dos operadores), Planeamento, harmonização e regulamentação da logística no espaço público urbano, Eco- Zonas e Logística Urbana (ex.Soluções de navegação inteligente ou gestão do espaço mediante detetores de lugares de carga), Soluções de consolidação logística em cidades(ex. Pontos de recolha associados ao sector turístico), e Micro logística urbana (ex. cargo bikes, triciclos e scooters).

in TR 155
por: Pedro Costa Pereira
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