sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

 
Passageiros & Mobilidade
24-03-2016

Pierre Jaffard – Transdev Portugal
«Temos, tivemos e teremos uma política agressiva no mercado»

A multinacional francesa está presente em Portugal há 18 anos e faz questão de se assumir como uma empresa local, comprometida com o mercado nacional. Pierre Jaffard, administrador-delegado da Transdev Portugal, em entrevista à Transportes em Revista, faz um balanço do último ano e revela que em 2016 a empresa irá realizar um investimento de cerca de dez milhões de euros. Em relação à anulação do contrato para a subconcessão do Metro do Porto, Pierre Jaffard revela que ainda não recebeu nenhum esclarecimento por parte da Tutela ou da Metro do Porto.




Transportes em Revista - Fez um ano que assumiu o cargo de Administrador – Delegado da Transdev Portugal. Que balanço faz dos últimos doze meses?
Pierre Jaffard – Durante este último ano, e desde que assumi o cargo de Administrador Delegado na Transdev Portugal, estabelecemos três prioridades. A primeira foi a performance operacional e a sua melhoria contínua; a segunda prioridade foi a estabilidade da organização; a terceira foi a performance comercial. Em relação ao primeiro ponto, durante o último ano implementamos em todo o país um processo de gestão e controlo da performance operacional, o TOM – Transdev Operations Management.
Este processo está a ser desenvolvido em todas as empresas do Grupo Transdev e considero que é um objetivo cumprido, uma vez que está implementado e assimilado por todas as equipas no terreno. De realçar que todos já estão familiarizados com este processo de gestão do desempenho operacional e podemos afirmar que a sua implementação tem sido um verdadeiro sucesso e que o desempenho tem sido constantemente acompanhado e avaliado. Podemos, hoje, afirmar que as equipas da Transdev Portugal estão envolvidas, preocupadas, motivadas e sempre interessadas em melhorar. Para mim, ver isso todos os dias, é um fator de enorme satisfação e é a prova de que todos estão empenhados no desenvolvimento da Transdev em Portugal. O segundo objetivo que estabeleci foi a estabilidade da organização. E porquê? Em 2014, procedemos à implementação de novos processos de organização no âmbito do projeto “JUNTOS” e a minha missão passou por estabilizar essa organização e fazê-la evoluir durante o ano de 2015. Considero que este objetivo também foi atingido, e embora não tenhamos procedido a alterações profundas em termos de organização, todos os ajustes que foram realizados estavam em consonância com os pilares essenciais do projeto “JUNTOS”. E, mais uma vez, reconheço que o sucesso alcançado deve-se, essencialmente, ao facto de todas as equipas da Transdev Portugal estarem profundamente envolvidas neste processo. Por último, o terceiro objetivo, a performance comercial. Neste âmbito irei adiantar alguns números. O primeiro é sobre o mercado do turismo ocasional em que verificámos um crescimento de 20 por cento, face ao ano anterior.

É verdade que este aumento está relacionado com o “boom” do turismo em Portugal, no entanto também soubemos aproveitar a conjuntura favorável e não ficámos parados à espera que as coisas acontecessem. Temos veículos adequados, motoristas com formação e uma estrutura operacional que responde a todas as exigências dos clientes deste mercado. Em 2015 também continuamos a estratégia de desenvolvimento da nossa imagem ao nível da operação. Criámos dois espaços-cliente e adotámos o vermelho como a nova cor da Transdev e, por outro lado, dinamizámos alguns dos produtos que já explorávamos, como as “Rápidas IP3 e IC6”, que funcionavam, mas não de uma forma muito eficaz. Houve uma dinamização comercial e tornamo-los em produtos que estão em linha com as ambições comerciais da Transdev. Entretanto, em relação aos serviços urbanos como os TUG – Transportes Urbanos da Guarda, e TUCAB – Transportes Urbanos de Castelo Branco, fizemos uma adaptação destes serviços no sentido de melhoria contínua de modo a responder às expetativas dos nossos clientes. Desenvolvemos, igualmente, várias iniciativas internas, como um seminário e um workshop comercial, eventos que tiveram como foco principal “O Cliente”, porque a nossa atividade comercial está sempre orientada para o cliente.



Outro ponto da nossa performance comercial são as linhas regulares, as chamadas “carreiras” que representam um pouco mais de 50 por cento da nossa atividade e que para nós são um produto forte e importante. Em 2015, optámos por seguir um caminho de otimização destas carreiras. Existem muitas linhas regulares e concluímos que era necessário adequar melhor a oferta que tínhamos às reais necessidades dos clientes e da procura. Quer dizer que aumentámos a oferta durante as horas de ponta e houve uma redução fora dessas horas, o que significa que passamos a ter uma oferta mais direcionada para o cliente. No ano passado foram analisadas 71 linhas e 43 foram alvo de uma reestruturação.

Queria também salientar a questão da resposta aos concursos e solicitações do setor público Metro do Porto, Metro de Lisboa, Aveiro, Condeixa, Marco de Canaveses, Cantanhede e Lousã e a nossa vontade passa por responder a estas solicitações. Temos, tivemos e teremos uma política agressiva no mercado.

TR – Qual o motivo?
PJ – A razão é simples. A Transdev está em Portugal há 18 anos, tem 1800 colaboradores e possui um volume de negócios na ordem dos 110 milhões de euros. A Transdev Portugal é a filial de um grande grupo internacional, mas somos uma empresa local, com trabalhadores portugueses. Aliás, temos 1799 colaboradores portugueses e um francês, que sou eu. Isso demonstra o nosso compromisso com o mercado português e a forma como estamos implementados no país.

TR – A política de parcerias com os Municípios é para continuar em 2016?
PJ – Em relação a 2016 queria salientar duas coisas bem distintas. Primeiro, dizer que a performance operacional da Transdev depende do contexto e do quadro legal do setor em que iremos operar até 2019. Depois, afirmar que, apesar de não conhecermos muito bem o quadro legal, sabemos escutar os nossos clientes/parceiros e sabemos responder às suas expetativas, assim como também temos o conhecimento para prestar um serviço de qualidade e acompanhar a implementação de uma rede e serviços de mobilidade. Assim, desta forma estamos a preparar-nos para enfrentar os desafios do futuro. Atualmente, as relações com as autarquias a quem prestamos serviços de mobilidade são as melhores e orientadas para a satisfação das suas necessidades. São reativas, porque respondemos imediatamente às necessidades da procura, mas também são interativas, porque temos sempre a preocupação de propor soluções para responder aos problemas dos nossos parceiros.

TR – Quais são os investimentos e projetos previstos para 2016?
PJ – Em 2016, prevemos investir mais de dez milhões de euros em frota, em novas soluções de mobilidade e soluções digitais. Os eixos prioritários para 2016 são o Turismo – setor onde queremos continuar a crescer e a desenvolver a nossa atividade, assim como o fornecimento de soluções de mobilidade adaptados ao cliente e à procura. Estamos a falar, por exemplo, de linhas expresso diretas, soluções de transporte a pedido para populações de zonas de baixa densidade, entre outras. Iremos também continuar o nosso trabalho ao nível da análise e otimização de carreiras. Por fim, o desenvolvimento de soluções digitais para ajuda à operação. Desde que estou em Portugal, apercebi-me que os portugueses gostam muito das soluções digitais e que é uma área muito desenvolvida. E eu acredito que o digital é extremamente importante no desenvolvimento do transporte a pedido. Assim, iremos investir nesta área e propor soluções aos nossos clientes que ajudem a simplificar a viagem, através da utilização de aplicações móveis.

TR – Como carateriza o potencial de crescimento deste setor em Portugal?
PJ –
Estou bastante otimista e penso que existem várias oportunidades de negócio dentro deste setor, principalmente na vertente turística. Acredito que estamos à beira de uma explosão no setor do turismo em Portugal, porque este é um país que tem todas as condições para brevemente se tornar numa referência mundial. E esse fator é uma oportunidade para as empresas de transporte rodoviário de passageiros crescerem.
Na área das “carreiras”, considero que o quadro legal do setor em que iremos operar até 2019 poderá trazer riscos e oportunidades para os operadores locais, como a Transdev. Por um lado, podemos perder a concessões de linhas que são operadas por nós há vários anos, no entanto, o oposto também pode vir a acontecer, e através dos concursos públicos podemos ganhar mais linhas. Julgo que é uma oportunidade para as empresas crescerem e desenvolverem-se, porque só irão ganhar os concursos aquelas empresas que apresentem um serviço de qualidade. E, se assim for, ganham os concedentes do serviço, as empresas e os clientes.



TR – Considera que o novo Regime Jurídico de Transportes representa uma oportunidade e um desafio para as empresas, ou trata-se de um enorme constrangimento para o desenvolvimento da atividade?
PJ –
Sem dúvida que é um desafio e uma situação nova para o setor em Portugal, mas a Transdev Portugal está preparada para esta nova realidade, até porque a nova organização do transporte em serviços regulares de passageiros é semelhante ao que existe em França, onde o sistema funciona e tem provas dadas. Mas este é o nosso trabalho e teremos que nos adaptar e responder às regras que nos forem impostas. Na minha opinião, esta alteração legislativa é positiva para o setor porque irá trazer novas oportunidades de negócio, em áreas que não estão muito exploradas, como por exemplo o transporte a pedido.

TR – E essa é uma das áreas, como já referiu, que faz parte dos eixos prioritários da Transdev Portugal para 2016…
PJ –
Sim, porque acreditamos que em Portugal o transporte a pedido tem uma grande margem de crescimento. No interior do país existem diversas zonas de baixa densidade que poderiam ver os seus problemas de mobilidade resolvidos através da implementação de soluções de transporte a pedido. Existem diversas soluções, umas mais tecnológicas que outras, mas para que funcione bem existe uma componente fundamental que é a chamada telefónica. Por outro lado, o transporte a pedido tem caraterísticas muito próprias que temos de saber entender. É um serviço onde existe uma interação muito grande com o cliente, cuja tipologia é diferente dos serviços urbanos ou interurbanos. Logo, é necessário que os motoristas possuam formação específica para realizar este tipo de serviço. Atualmente, a Transdev Portugal possui todas as condições para promover e oferecer serviços de transporte a pedido com grande qualidade e fiabilidade.

TR – Há espaço para criar novas parcerias, no âmbito do transporte flexível, com outras empresas ou entidades?
PJ –
A Transdev está sempre aberta a celebrar parcerias com outras entidades desde que sejam cumpridas duas condições. A primeira é que essa parceria traga benefícios para os clientes, quer seja o cliente/passageiro do serviço ou a autoridade de transportes que é responsável pelo mesmo. Depois, que traga benefícios às empresas que celebram a parceria, que seja “win-win”. Atualmente, entre outros, a Transdev Portugal possui parcerias com a empresa Be Driven; com o Intermarche de Condeixa (no âmbito da rede “urbCondeixa”), que suporta o custo social do serviço que faz a ligação à superfície comercial; no Marco de Canaveses temos uma parceria com as farmácias locais e com a Associação de Comerciantes para a promoção do transporte público.

TR – O conceito de Busway ou BRT – Bus Rapid Transit também não está devidamente explorado em Portugal. Esta podia ser uma alternativa viável para uma cidade, como por exemplo, Coimbra, em alternativa ao Metro do Mondego, e para outras cidades portuguesas de média dimensão?
PJ –
Com certeza, porque é uma solução de transporte que permite obter rácios de eficiência muito elevados. Além de ter um custo muito inferior em relação a um sistema de metropolitano ligeiro convencional, o BRT é um sistema com vantagens não só ao nível operacional como também ambiental; saliento as boas experiências que temos neste campo com a “TransMilenio” em Bogotá e com a “Busway em Nantes.

TR – A Transdev concorreu a alguns concursos lançados pelas empresas públicas de transportes e venceu a subconcessão para o Metro do Porto. Enquanto investidores, como olham para a reversão do processo e lançamento de um novo concurso por parte do atual Governo, conforme já foi anunciado pelo Ministro do Ambiente?
PJ –
De facto, podemos ler uma série de informações na imprensa. O que posso dizer, é que temos contrato com a Metro do Porto, que prestamos uma caução, que a Autoridade da Concorrência comunicou a sua decisão de não oposição e que nenhuma outra autoridade emitiu um parecer desfavorável.
Deveríamos ter começado a operar dia 1 de fevereiro. Sem nenhuma informação oficial desde 25 de outubro de 2015, data da assinatura do contrato, já escrevemos por duas vezes à Metro do Porto para obter esclarecimentos. Até ao momento, não obtivemos resposta.
A situação é preocupante, não só como investidor, mas também como empregador, porque de modo a preparar o início do contrato, criámos em Matosinhos um centro de competências com recursos altamente qualificados e tenho de saber que perspetivas temos para eles.


TR – Caso o atual Governo decida lançar concursos para a concessão de serviços ferroviários ou fluviais, a Transdev Portugal mantém a intenção de concorrer?
PJ –
Dentro do universo Transdev, a nível mundial, operamos todos os modos de transporte. Evidentemente, se surgir essa oportunidade em Portugal, a Transdev estará interessada em posicionar-se e em concorrer a essas concessões. Temos o conhecimento, a competência e a experiência para assegurar qualquer operação.

TR – Na sua perspetiva, o setor do transporte rodoviário pesado de passageiros irá ter um movimento de concentração ao nível dos operadores? A tendência irá passar por mais aquisições ou fusões?
PJ –
A concorrência em Portugal é bastante forte, mas equilibrada. Não acredito que exista uma contração ou redução significativa do número de operadores no mercado, mas pode-se dar o caso de alguns grandes grupos adquirirem, ocasionalmente, outras empresas mais pequenas.

in TR 154
 
por: Pedro Costa Pereira
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