sábado, 7 de Dezembro de 2019

 
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Passageiros & Mobilidade
11-04-2012

Especial Madeira
A Inovação ao serviço da Mobilidade

Durante meses, o arquipélago da Madeira foi um dos principais temas de discussão nacional. Desde o célebre “buraco” até às promessas radicais de austeridade, a Região viveu e tem vivido, ao longo dos últimos seis meses, sob um clima de incerteza. No entanto, para lá das más notícias, o que pouca gente ainda conhece é que existe uma outra Madeira onde impera a inovação e as boas práticas de mobilidade.

As últimas eleições ditaram que a austeridade está mesmo a caminho. O presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, já anunciou que o plano de resgate para a região irá ser duro e que o plano para reduzir despesas e aumentar receitas, passa por realizar menos obras e fazer privatizações, a começar pelos transportes. Em causa poderá estar a privatização da empresa de transportes urbanos, os Horários do Funchal, que é detida em 95 por cento pelo Governo Regional e em cinco por cento pela Eletricidade da Madeira. A redução de custos irá obrigar também a uma maior racionalização da oferta por parte da empresa, uma situação que poderá provocar problemas sociais e deixar milhares de pessoas sem acesso condigno à rede de transportes na capital do arquipélago. Mas a Madeira, e mais precisamente a cidade do Funchal, têm vindo a apostar numa estratégia de mobilidade ao longo dos últimos anos que já está a dar frutos e que, inclusive, tem sido reconhecida a nível internacional.
 

Nos últimos anos, o aumento dos índices de mobilidade dos cidadãos da Madeira tem sido uma das principais preocupações do Governo Regional, tendo sido levado a cabo uma verdadeira “revolução”, não só ao nível das infraestruturas como também nos conceitos. Estas alterações tiveram uma maior incidência na cidade do Funchal, tendo a autarquia realizado, em 2008, um estudo de mobilidade, para assim conhecer as principais debilidades e potencialidades do atual sistema de transportes e estabelecer as orientações necessárias à correta articulação entre o planeamento urbano e os transportes. Deste estudo resultaram várias propostas a implementar, como por exemplo, a promoção do transporte coletivo em detrimento do transporte individual; a sensibilização da população para uma maior mobilidade pedonal; a criação de um Observatório da Mobilidade, entre outras. Para tal, a Câmara Municipal decidiu, em parceria com a Horários do Funchal e o Madeira Tecnopolo, participar no projeto Civitas Mimosa, ao abrigo do Programa Europeu CIVITAS PLUS, integrando um consórcio europeu constituído pelas cidades de Bologna (Itália), Gdansk (Polónia), Tallinn (Estónia) e Utrecht (Holanda).
 

Em declarações à Transportes em Revista, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Miguel Albuquerque fez uma análise global sobre o que foi e está a ser feito na cidade ao nível da mobilidade, assim como os principais problemas com que a autarquia se depara. Para o autarca «é necessário salientar que o concelho do Funchal apresenta uma das maiores densidades populacionais registadas ao nível do país, com 1.531 habitantes por quilómetro quadrado. A esta situação acresce o facto de o Funchal ter uma grande dispersão no seu povoamento, com uma orografia muito acentuada. Nos últimos 25 anos, com o aumento do poder de compra das famílias e o respetivo crescimento da taxa de motorização, muito por culpa da utilização do transporte individual, as nossas políticas de mobilidade incidiram, principalmente, na restrição do tráfego automóvel ao centro da cidade». Para além da criação de novas centralidades, a autarquia decidiu encerrar ao trânsito as principais artérias do centro histórico, tentando articular essa medida com uma política de estacionamento de curta duração, «por isso é que fomos sempre acusados de ter os parcómetros mais caros do país» diz Miguel Albuquerque, referindo ainda que «este tipo de políticas são também de incentivo ao transporte público, que tem vindo a melhorar significativamente, não só em termos de conforto como também ao nível de emissão de gases poluentes». E o edil funchalense dá vários exemplos: «recordo que a “Linha Verde” tem sido um sucesso; fomos a segunda cidade da Europa a introduzir circuitos no centro histórico com autocarros elétricos; melhorámos bastante a facilidade do estacionamento para os veículos híbridos e motociclos. Criámos a moda da utilização das “scooters” e, no futuro, queremos implementar um sistema de “bikesharing”, que terá bicicletas normais e elétricas. O concurso já foi aberto e estamos agora a finalizar a terceira fase do processo. Criámos também zonas com serviços de transporte a pedido, como é o caso do “Mobi Santa Luzia” e, dentro em breve, iremos apresentar o Observatório da Mobilidade, que nos irá permitir ter uma informação mais detalhada sobre os padrões de mobilidade dos cidadãos do Funchal». Outro dos projetos em desenvolvimento é a ciclovia que irá ligar a zona do Lido, onde se encontram a maior parte dos hotéis, e o centro da cidade. Segundo Miguel Albuquerque «a obra já está adjudicada e vamos aproveitar para mudar substancialmente o passeio pedonal da Estrada Monumental e fazer a ligação à ciclovia já existente e que vai até ao Fórum Madeira. Esta medida vai permitir que uma das freguesias com maior população do Funchal possa deslocar-se para o centro da cidade através do recurso aos modos suaves. As outras medidas que temos projetadas estão inseridas no âmbito do Civitas».

A implementação destas medidas também se deveu, refere Miguel Albuquerque, à «boa articulação» entre o Governo Regional e a empresa de transportes urbanos, os Horários do Funchal, apesar de ainda existirem alguns constrangimentos e dificuldades na cidade, ao nível da mobilidade, principalmente nas zonas altas, onde existe «uma grande dispersão no povoamento e uma orografia muito acentuada. Esse facto levou, inclusive, a empresa Horários do Funchal a ter de inovar e introduzir autocarros com tração às quatro rodas».
 

Para o autarca, até agora não foi necessária a participação direta da Câmara Municipal na gestão da empresa pública de transportes urbanos, mas não coloca de parte uma maior intervenção da autarquia caso a estrutura acionista dos Horários do Funchal venha a ser alterada. «Pode vir a acontecer uma privatização ou uma alienação de capitais das empresas públicas de transportes, no entanto tem de ser salvaguardado aquilo que é o serviço público de transportes. Caso contrário, teremos problemas a montante e a jusante», refere Miguel Albuquerque. E alerta para o facto de «no futuro temos de estar muito atentos, porque vão ser introduzidas, e bem, regras de racionalização ao nível da gestão. É que, muitas vezes, essas regras são aproveitadas para acabar com carreiras que não são lucrativas mas que são essenciais do ponto de vista social, porque servem as populações mais carenciadas. Esta questão terá de ser muito bem articulada entre todos, porque não podemos deixar sem transporte centenas ou milhares de pessoas que vivem há muitos anos em zonas com uma orografia complicada, a 800 ou 900 metros de altura, onde prevalecem comunidades muito pequenas e fechadas. É um problema, dado que existem carreiras que, por paragem, apenas apanham uma ou duas pessoas».

(N.R – A reportagem e respetivas entrevistas foram realizadas antes das eleições para o Governo Regional da Madeira)

 

As medidas que foram implementadas no Funchal, no âmbito do projeto Civitas Mimosa
- Promoção do uso de combustíveis alternativos e veículos eficientes, Aquisição de
viaturas ligeiras híbridas, por parte da autarquia, de forma a ter um efeito
demonstrativo em outras instituições e empresas, bem como para o público em geral;
- Promoção, ainda a decorrer, de um serviço de aluguer de bicicletas e scooters elétricas no centro da cidade. Esta medida visa fomentar o uso de veículos mais limpos e mais eficientes energeticamente;
- Criação de vantagens de estacionamento para os cidadãos que adquiram veículos
não poluentes, como veículos híbridos e elétricos, pelo que atualmente
os proprietários deste tipo de veículos podem, no centro da cidade, beneficiar
de um desconto de 50 por cento nas tarifas dos parcómetros, através da aplicação
da denominada “Tarifa Verde”;
- Concretização, em 2009, de um serviço de transporte público de elevada frequência
que cobre um dos eixos mais dinâmicos da Cidade – Linha Verde – que aumentou
as acessibilidades ao transporte público na zona poente da cidade, reduziu o tráfego
e as emissões de poluição na zona e reduziu a utilização dos autocarros de cortesia
dos hotéis;
- Promoção da intermodalidade, através do serviço “Mobi Parque” que complementa
o uso do transporte individual, permitindo o estacionamento num parque automóvel
da periferia, com o transporte coletivo urbano de passageiros. Desde setembro
de 2011, que a esta oferta complementou-se outras duas rotas de autocarros que,
partindo dos Mobi Parques, efetuam um circuito de ligação às principais escolas;
- Desenvolvimento de serviço de transporte de bicicletas em autocarro, em suporte
próprio, acoplado na parte traseira do autocarro;
- Incentivo aos procedimentos de condução económica, junto dos condutores;
- Melhoramento do controlo de acessos às Zonas Limitadas ao Trânsito, na sequência
da política municipal de condicionamento da circulação automóvel no centro histórico
do Funchal e com o objetivo de fomentar a circulação pedestre e o comércio
tradicional. Com esta medida, visa-se testar em duas áreas piloto, um novo sistema
de controlo remoto e automático, mais eficaz, nas entradas das zonas limitadas
de tráfego no núcleo da cidade, permitindo apenas o acesso a viaturas autorizadas
(residentes, ambulâncias, polícia, bombeiros, cargas e descargas, etc.);
- Criação de um serviço “Dial and Ride” denominado “Mobi Santa Luzia”, que é
um Serviço público de autocarros a pedido, efetuado com mini autocarros
e desenhado em resposta às necessidades das ruas mais estreitas da zona de Santa
Luzia;
- Linha ECO – introduzida pelos Horários do Funchal que, através de pequenos
autocarros elétricos, estabelece a ligação entre os principais pontos do centro
histórico da Cidade;
- Criação de Um Observatório da Mobilidade;
 
por: Pedro Costa Pereira
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