A DHL realizou um estudo com o objectivo de traçar as principais tendências no sector da logística. Com as alterações climatéricas e a intenet a mudarem comportamentos, as cadeias de abastecimento vão-se alterar e os operadores logísticos terão de abraçar novas competências para vingarem.
A DHL Supply Chain desenvolveu um estudo internacional denominado “Delivering Tomorrow” no sentido de antecipar as principais tendências que afectarão o mercado nos próximos dez anos. Tomando como base a certeza de que o mundo se está a alterar rapidamente, quer por via do desenvolvimento tecnológico quer por uma maior consciência ambiental que surge na sequência das inevitáveis alterações climatéricas, a DHL tentou perceber como será o consumidor a médio prazo, o que quererá e quais serão as suas preocupações. Os impactos na economia, as mudanças no sector logístico e a adaptação deste a uma nova realidade foram também temas escrupulosamente debatidos.
«Este estudo procurou responder a três objectivos. – explica José da Costa Faria, Director de Supply Chain em Portugal da DHL - Em primeiro ser um instrumento de reflexão estratégica para o grupo, auscultando a voz activa dos nossos clientes, que, no fundo, são quem nos indica o caminho. Existimos para os servir, portanto temos de saber para onde é que eles vão. Quisemos perceber qual o caminho futuro, as ideias por onde passa o desenvolvimento da estratégia dos nossos clientes. Depois, queríamos aproveitar essa informação para perceber as tendências da logística nos próximos anos e com base nessas tendências determinar que caminhos estratégicos devemos seguir». De acordo com o responsável é, no entanto, importante fazer com o midle managment participe nestas acções, como forma de motivação e de fazer entender o panorama global em que se trabalha e qual a estratégia da empresa, até porque «Quem não sabe para onde vai, não tem caminho certo. Se identificarmos a chegada a coesão com que se caminha é muito maior». Nesse sentido, a DHL tem procurado levar o estudo para as reuniões internas e encontros com os clientes de modo a promover a discussão.
O estudo seguiu o método de Delphie e teve como base um questionário inicial aplicado a 900 clientes da DHL, “maioritariamente executivos e gestores de topo europeus”. Realizado por um departamento interno da DHL internacional, o estudo pressupôs que os dados quantitativos fossem depois analisados por um painel de especialistas, entre os quais “presidentes de empresas internacionais, académicos de Economia, Prospectiva e Logística”. As principais conclusões do estudo “Delivering Tomorrow –Customer Needs in 2020 and Beyond” dividem-se em três grandes categorias: o Mundo, o Consumidor e a Logística.
Em mudança
Durante os próximos dez anos prevêem-se grandes alterações no mundo. As principais tendências começam já a ser visíveis, como é o caso da crescente consciência ambiental, antecipando-se que as preocupações relacionadas com as alterações climatéricas desencadeiem uma verdadeira “revolução verde”. «O grande desafio que temos pela frente é a mudança do paradigma energético na organização da economia mundial», explica José da Costa Faria. «O consumidor vai estar cada vez mais atento às questões ambientais e os produtos vão diferenciar-se não só pelo preço e pela qualidade, mas também pelo rótulo do C02, que esperamos vir a ser obrigatório até ao final de 2010». Por esse motivo, o produtor vai ter de se preocupar também com as questões ambientais, antecipando um crescente protagonismo das energias renováveis. «Por outro lado, o facto de os recursos naturais serem cada vez mais escassos, vai levar a que os países que os têm adquiram mais poder», avança ainda o responsável. A par da transferência de poderes, prevê-se ainda o aumento dos conflitos regionais.
A terceira conclusão do estudo é que a China se vai impor como o grande centro económico: «o seu potencial é enorme, principalmente a nível demográfico, o que está a fazer com que o eixo da economia mundial se esteja a deslocar para essa área», explica José da Costa Faria.
Do ponto de vista do consumidor, será a Internet a potenciar as grandes mudanças, alterando comportamentos e expectativas. Com o mundo à distância de um click, o consumidor exigirá uma maior eficácia e rapidez no processo que o separa daquilo que quer. Comodidade, conforto e simplicidade serão, cada vez mais, requisitos fundamentais. Adicionalmente, com as redes sociais e os blogues a aglomerarem os grupos, a transparência de uma empresa será obrigatória, ao mesmo tempo que o “poder dos pares” poderá ditar o sucesso ou insucesso do produto, o que exige estratégias definidas para este meio.
Por outro lado, e de acordo com José da Costa Faria, «a Internet coloca às pessoas oportunidades que nunca pensámos que podíamos ter. Qualquer pessoa que esteja ligada à internet pode ser um vendedor e não apenas um comprador, o que quer dizer que vamos ter milhões de vendedores». O responsável da DHL refere-se aos “personal fabricators”, pessoas que fabricam os seus produtos a título individual e depois vendem através da internet. «Isto muda completamente o paradigma da compra e venda. As multinacionais e as grandes empresas não vão só concorrer entre si, vão concorrer com cada um de nós individualmente. Temos acesso, com a mesma facilidade do que as grandes empresas, a todos os consumidores do mundo».
Uma logística de ‘copetição’
De acordo com o estudo realizado pela DHL, o futuro da logística estará muito dependente do preço do petróleo. Se este escalar até aos 300 dólares por barril, antecipa-se que o offshoring acabe, uma vez que os custos de transporte deixarão de compensar a mão-de-obra mais barata em países longínquos. Pesa ainda o facto de a tendência ser para que nestes países a mão-de-obra também se torne mais cara, paralelamente ao seu crescimento económico e ao facto de cada vez formarem mais quadros especializados.
Independentemente disto, torna-se cada vez mais evidente que os operadores logísticos terão de abarcar novas competências. «Os clientes vão querer que os operadores logísticos, mais do que executantes de serviços de movimentação de coisas de um ponto para o outro, também os apoiem na definição de novos modelos de cadeias de abastecimento, mais amigas do ambiente, mais seguras e muito mais eficientes», revela José da Costa Faria, explicando ainda que «há muita ineficiência e desperdício na cadeia de abastecimento e os operadores logísticos encontram-se numa posição privilegiada para conseguir eliminar muitos desses desperdícios através daquilo que são designadas como estratégias colaborativas».
Para o responsável de Supply Chain, essa é precisamente a principal conclusão do estudo, de onde sai evidenciada a falta de colaboração entre os vários actores da cadeia de abastecimento. «Cada um olha para o seu umbigo e são incapazes de perceber que se tiverem estratégias colaborativas podem reduzir os custos de todos». José Costa Faria considera que os operadores logísticos podem ser o elemento aglutinador, estando em posição para partilhar recursos, seja a nível de transporte, armazenagem ou sistemas de informação. Nesse sentido, o responsável evoca a palavra “copetição”, referindo-se à «colaboração entre competidores», uma vez que o estudo aponta para «uma corrida às alianças entre operadores». Aprofundando mais, refere que «os clientes vão exigir custos menores e mais serviços e a forma de os operadores conseguirem fazê-lo é juntando as suas forças de competidores isolados. Cada um é muito bom num serviço específico e agregando essas mais-valias numa oferta comum para o cliente final encontram-se soluções vantajosas para todos». O responsável dá como exemplo a partilha do transporte entre alguns operadores, que minimiza os quilómetros em vazio, as emissões de CO2, o consumo de combustível e reduz os custos para os operadores e, consequentemente, para o cliente.
Paralelamente, espera-se ainda que o leque de serviços oferecidos pelos operadores logísticos se diversifique bastante, passando a oferecer soluções integradas e “chave na mão”. Trata-se de introduzir novos serviços, procurar sinergias, inovar, criar novas fontes de receitas e introduzir valor à solução. Como exemplo, o responsável refere a prestação de serviços técnicos a clientes da área tecnológica, podendo o operador logístico fazer a assistência aos equipamentos nos armazéns, em vez de estes serem apenas um ponto de passagem antes de regressarem ao fabricante e posteriormente ao cliente final. «O operador inclui os serviços técnicos no seu portfólio e passa a existir uma única cadeia, o que faz todo o sentido. Claro que o operador logístico não tem as competências ainda para fazer reparações técnicas, mas adquire-as, porque quando se introduzem outros serviços de valor, reduzem-se os custos».
José Costa Faria considera que os serviços logísticos em Portugal evoluíram bastante nos últimos anos, mas que agora «é necessário dar um passo gigante» e «começar a oferecer soluções integradas e de confiança». Reconhece, no entanto, que «é difícil haver o primeiro a fazer, mas aqui, mais uma vez, se espera que sejam as grandes multinacionais as pioneiras». Lamenta que as pequenas e médias empresas ainda não dêem a devida importância à logística, até porque considera que «muitas vezes é na logística e no transporte que se ganha a competitividade e a qualidade do serviço final». Para todos os operadores logísticos, e tendo por base as conclusões retiradas do estudo, deixa apenas uma questão: «Quando é que conseguimos ultrapassar a fase da desconfiança e do egoísmo empresarial para colocarmos no centro da discussão a palavra colaboração, a palavra partilha, a palavra inteligência, que é o que nos falta muitas vezes?».