Foi apresentada publicamente a “Associação Fórum Empresarial da Economia do Mar” (AFEM), uma associação de várias empresas que, na sequência do estudo "Hypercluster da Economia do Mar", financiado pela Associação Comercial de Lisboa (ACL) e elaborado pelo antigo ministro das Finanças e economista, Ernâni Lopes, pretende levar a cabo várias acções no sentido de promover a economia do mar.
Este estudo demonstra que, no século XXI, “Portugal pode tornar-se num interlocutor efectivo e inovador na economia global do Mar, abordado como um domínio estratégico e impulsionador do desenvolvimento nacional”. Recorde-se que também o Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu, durante o seu discurso que assinalou as comemorações do 25 de Abril, que “o mar deve tornar-se uma verdadeira prioridade da política nacional”.
O lançamento oficial do Fórum teve lugar na sede da associação, no edifício da ACL.
Os principais objectivos desta associação de empresas são os seguintes: contribuir para o assumir da economia do mar como um desígnio nacional, de forma a afirmar Portugal como actor marítimo relevante, ao nível global; contribuir para o desenvolvimento sustentável do mar e valorizar a sua importância como um dos principais recursos económicos, projectando-o como o grande motor do desenvolvimento económico do país; promover uma estratégia comum e integrada das actividades relacionadas com a economia do mar, bem como criar as condições e fomentar as boas práticas empresariais de excelência e cooperação entre os actores estratégicos nacionais, com vista ao desenvolvimento da economia portuguesa e à produção de riqueza colectiva em todos os sectores de actividade relacionados com a economia do mar.
Na apresentação pública do Fórum, o responsável pelo estudo "Hypercluster da Economia do Mar", Ernâni Lopes, referiu que «tem de se assumir a Economia do Mar como um desígnio nacional» revelando que este Fórum Empresarial é «a verdadeira inovação e o núcleo em torno do qual o estudo do Hypercluster da Economia do Mar radica». O antigo ministro das Finanças apelou ainda à cooperação e empenhamento de todas as empresas e membros envolvidos no Fórum de modo a que se possam atingir os objectivos propostos.
«O Mar é um recurso de uma relevância extraordinária na economia portuguesa» - Bruno Bobone
Em declarações à Transportes em Revista, o presidente da ACL, Bruno Bobone revelou que «durante 30 anos, Portugal não olhou para o mar como um recurso da sua economia. Não o explorou, não o desenvolveu e teve apenas alguma actividade na área marítimo-portuária, como não podia deixar de ser, uma vez que as mercadorias vêm por via marítima. Reconheço que nesta área houve bastantes investimentos, pouco coordenados é verdade, mas investiu-se nos portos e nas infra-estruturas portuárias. Mas na pesca não houve investimento, na náutica de recreio muito pouco, no desenvolvimento de investigação pouco se tem feito, portanto existe uma capacidade instalada enorme que não está a ser utilizada. A nossa preocupação é que não havia um plano estratégico para explorar este recurso, que ainda não há, mas que é necessário porque este sector é muito grande e muito largo, sendo essencial trabalhá-lo. Cruzei-me com o Professor Êrnani Lopes, que partilha das mesmas preocupações e chegámos à conclusão que deveríamos avançar com um trabalho que nos trouxesse medidas concretas para alterar a situação relativamente ao Mar. Juntámos algumas empresas que também tinham preocupações neste sector, pedimos-lhes para financiar este trabalho e encomendámos um estudo ao professor Êrnani Lopes/Saer».

Bruno Bobone, que também preside à AFEM, disse ainda que «o estudo cumpriu as expectativas que tínhamos, que também eram altas. Temos a convicção que o Mar é um recurso de uma relevância extraordinária na economia portuguesa e que pode ser um factor de diferenciação relativamente aos países nossos concorrentes. Temos é de o saber aproveitar e utilizar de outra maneira» adiantando ainda que «a nossa expectativa era aparecer com um projecto estratégico e com medidas concretas, que nos permitisse dizer ao Governo o que é que era necessário ser feito para que em 2025 pudéssemos ser um importante player internacional nos assuntos do Mar. E foi isso que fizemos. Durante cerca de um ano fez-se o trabalho, retirámos as conclusões e apresentámo-lo ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro e fizemos algum trabalho com o Governo e os partidos da oposição».
Para além desta apresentação, os responsáveis por este estudo fizeram algumas sugestões junto destas entidades, de modo a que as orientações presentes no documento pudessem ser realmente implementadas.
«Explicámos também que tínhamos três objectivos que eram necessários cumprir de modo a que o projecto pudesse ir para adiante. O primeiro era que o estudo devia ser encarado e considerado como um plano estratégico a seguir, sendo que o Governo deveria criar um conselho de ministros para os assuntos do mar, presidido pelo Primeiro-Ministro. O segundo é que deveria existir um interlocutor com o sector privado para avançar com o projecto, que seria o Fórum Empresarial da Economia do Mar. O terceiro objectivo passava por existir legislação específica para resolver alguns problemas na implementação deste trabalho. O Governo aceitou fazer o Conselho de Ministros, aceitou nomear o Fórum como seu interlocutor com os privados e agora resta-nos começar a trabalhar», diz Bruno Bobone.
Fórum será o coordenador e implementador das acções previstas no estudo
O Fórum é a face visível do estudo Hypercluster da Economia do Mar” e pretende ser o coordenador “implementador” das acções aí previstas, de forma a garantir que junta as necessidades públicas e privadas, assegurando a execução dos projectos. No entanto, «não fará investimentos, porque obviamente essa componente pertence às empresas e ao sector privado; não fará infra-estruturas, pois essa componente pertence ao Estado» adianta o presidente da ACL.
Bruno Bobone salientou também o facto de «pela primeira vez, a sociedade civil foi ter com o Estado e entregou-lhe um plano estratégico. Determinou qual era a sua vontade no prosseguir de um determinado caminho e provou que fazendo isso, o Estado também está disposto a apoiar esse trabalho. É um bom indicador, para o sucesso do projecto, que o Governo tenha decidido acompanhar e implementar esta iniciativa».
Para atingir os vários objectivos a que se propõe, o Fórum pretende constituir grupos de trabalho para promover projectos específicos de pesquisa, expansão, divulgação e dinamização de boas práticas de investigação. O desenvolvimento da inovação e novos modelos de cooperação e parcerias estratégicas entre os agentes económicos ligados a este sector são outros dos projectos a implementar. Nas acções previstas estão a organização de colóquios, seminários e congressos que permitam identificar, avaliar e divulgar os grandes factores de inovação, competitividade e desenvolvimento envolvendo os agentes económicos.
No estudo “Hypercluster da Economia do Mar”, são apresentados doze sectores/clusters, distribuídos por quatro plataformas diferentes de planos (n.r – ver Transportes em Revista nº 81). Os Planos Prioritários englobam aquelas áreas que possuem maiores condições de atractividade e competitividade. Estas áreas são: Portos, Logística e Transportes Marítimos; Náutica de Recreio e Turismo Náutico; Pesca, Aquicultura, e Indústria do Pescado; Visibilidade. Comunicação e Imagem/Culturas Marítimas; e Produção de Pensamento Estratégico.
Para Bruno Bobone, os três primeiros sectores são aqueles que, numa fase inicial, têm maior capacidade para se afirmarem como motores, catalisadores e formatadores sistémicos do estudo. Em relação ao sector marítimo-portuário, o presidente da ACL, salienta que «tem de existir uma estratégia única e que esteja coordenada. Com um caminho bem definido a capacidade de produção é muito superior àquela que tem sido a prática até agora. Até porque este sector não pode ser analisado exclusivamente por quem está nele. O Mar é um recurso de Portugal, não é das empresas que trabalham no sector e, como tal, deve ser discutido por todos. Repare, o transporte marítimo é responsável por 70 por cento da entrada de mercadorias em Portugal, o que significa que uma pasta de dentes no supermercado está relacionada com a política marítimo-portuária. O custo desse produto inclui um valor de frete, de estiva, de alfândega…e as empresas que produzem e comercializam esse produto também têm direito a ter uma opinião. E nesta fase, depois de termos feito a apresentação do trabalho e de começarmos a escolher projectos para implementar, iremos começar a fazer um outro trabalho, que é o cultural. Os portugueses têm de ter uma cultura de Mar profunda e séria e olhar para este sector como o futuro da economia portuguesa». O responsável adiantou ainda que, em Setembro, irá realizar-se um congresso sobre o sector marítimo-portuário, uma vez que esta é a «actividade mais real e palpável no âmbito do Hypercluster do Mar. Queremos partilhar esta matéria com o resto da sociedade empresarial, a nível nacional, para que percebam como podem explorar esta riqueza».
No arranque, a AFEM contou com 35 associados, entre empresas e instituições, onde se destacam a Bensaúde Marítima, CELBI, Douro Azul, EDP Inovação, Efacec, Escola Náutica, Galp Energia, José de Mello, Pinto Basto, Maersk, PSA Sines, Siemens, Transinsular, SAER, EPUL, entre outras. Actualmente, já existem cerca de 50 sócios do Fórum, com destaque para a Caixa Geral de Depósitos, Grupo Portucel Soporcel, Porto de Lisboa e Transtejo/Soflusa.